terça-feira, 6 de agosto de 2013

A Carência Essencial (e a Farsa de Hermes)

Somos tantas coisas, não é mesmo? Sempre tive um comichão, uma espécie de incômodo pessoal, em responder à questão "você é o quê?" com a mesma resposta que eu daria à pergunta "você faz o quê?". Nós não somos o que fazemos, mas para poupar a nós mesmos dos embaraços desse assunto que não ousamos tocar nem mesmo nos recônditos sagrados das sessões de terapia, acabamos respondendo com a 'persona' (o nosso "cartão de visitas" socialmente validado) quando perguntados sobre o 'Self' (a totalidade da nossa vida psíquica, da qual, obviamente, não fazemos lá muita ideia).

Seres e circunstâncias
Somos o que fazemos das nossas circunstâncias, sem dúvida. Mas para além dos triunfos de nossas vontades pessoais, somos principalmente o que é possível fazer da matéria prima de nossas circunstâncias. Das nossas circunstâncias mentais, sociais, emocionais, físicas, familiares, culturais etc. Somos produtos de nossos meios enquanto somos, também, meios para a produção de novos seres. E qual a nossa circunstância cultural atual?

A farsa de Hermes
Vivemos sob uma situação social, cultural e psicológica que gosto de chamar de "Farsa de Hermes", em poucas palavras: uma situação em que somos sempre encorajados a adiar o pensamento e a resolução efetiva das raízes de nossos problemas enquanto somos entretidos pelo circo digital, financeiro e sexual dos impulsos de consumo imediato. Isso acontece em praticamente todas as esferas da nossa cultura, por um motivo bem simples: temos sido educados para a carência, em todos os sentidos.

Como já expliquei em diversos outros artigos defendo a ideia de que somente uma quantidade avassaladora de pessoas carentes - no mais vasto espectro do termo 'carente'; aquele que carece, que necessita, que depende de algo, ou aquele que se define enquanto ser humano pela sua situação de dependência de algo externo - consegue dar conta de consumir os paliativos que a nossa sociedade produz quase beirando à velocidade da luz. Produz-se muito mais do que é possível consumir de forma sustentável para o meio ambiente e é necessário que haja consumidores para essa produção. Como fazer isso? Criando uma sociedade dependente, uma cultura cujo membro típico se caracterize pela carência essencial. Que tipo de mecanismo é esse?

Mitos e estrutura da psique 
Quando usei a expressão "Farsa de Hermes" não expliquei suas raízes. Vamos a ela. Hermes é o deus grego da comunicação, velocidade, transporte, da magia (especificamente a prestigitação, movimentos rápidos das mãos que fazem aparecer ou desaparecer algum objeto pequeno, carta etc), do mercado financeiro, dos mentirosos, dos ladrões, dos médicos cirurgiões, diplomatas, comerciantes, oradores etc. Enfim, o que tem a ver com ganhos financeiros a curto prazo, comunicação e trocas é com ele. Contanto um pouco do mito sempre ilustramos melhor.

O mito de Hermes 
As primeiras descrições do mito de Hermes datam do período arcaico da cultura grega. Uma das mais importantes consta no Hino Homérico a Hermes, uma criação anônima dos séculos VII ou VI a.C. que trata de seu nascimento e primeiras proezas.


O Hino abre com uma saudação ao deus, chamando-o de "Senhor do Monte Cilene e da Arcádia, dos rebanhos de ovelhas e mensageiro dos deuses". Também o nomeia como filho de Zeus, fruto de seu amor adulterino com Maia, uma ninfa filha de Atlas e Pleione, a mais velha, sábia e bela de sete irmãs, as Plêiades.

Vivendo em uma caverna, escondida dos olhares humanos e principalmente do notório e tempestuoso ciúme de Hera, esposa de Zeus, Maia deu à luz "esta engenhosa criança, este hábil planejador de artifícios, o perseguidor e capturador de gado, o pastor dos sonhos, este cidadão da noite que espreita nos umbrais". Não demorou para mostrar sua origem divina: nascido pela manhã, já ao meio-dia estava tocando a lira, e à tardinha furtou o gado de Apolo.


O roubo do gado de Apolo
Sentindo fome, saiu para espiar os arredores, já imaginando astúcias. O sol se punha, e Hermes se dirigiu às montanhas de Piera, onde pastava o gado de Apolo, seu irmão mais velho. Do rebanho, ele tirou cinqüenta vacas, e as conduziu, tangendo-as com um bastão, por caminhos labirínticos para evitar ser seguido através dos rastros. Também amarrou-as todas e fez com que andassem de marcha-a-ré, com o mesmo objetivo, e para si confeccionou um par de sandálias mágicas com folhas de tamareira e mirtilo, para que pudesse deslizar pelo caminho e prosseguir com rapidez, sem deixar pegadas reconhecíveis.


O Mestre dos Ladrões
Voltou em seguida para a gruta, passou pelo portão através do buraco da fechadura sob a forma de fumaça ou névoa, e deitou no berço como se nada acontecera. Sua mãe, porém, que suspeitava do filho, repreendeu-o, dizendo que, ao concebê-lo, Zeus havia criado um problema tanto para os deuses como para os homens. Hermes, entretanto, replicou vigorosamente, afirmando sem temor sua origem divina e reivindicando um tratamento igual ao que recebia seu meio-irmão Apolo. Se Zeus o negasse, ele se transformaria num príncipe dos ladrões. Se Apolo o perseguisse, destruiria seu santuário e tomaria seu ouro. Ainda assim o deus da previdência e adivinhação partiu direto para a cova onde Hermes nascera, e o encontrou fingindo dormir, em seu berço. Perscrutou o lugar com sua luz, mas não encontrou o gado, e exigiu do bebê que revelasse onde o escondera, sob severas ameaças. Hermes negou qualquer conhecimento do caso, e alegando sua pouca idade, disse que jamais poderia ter sido o autor do furto, além de acrescentar que seria um tanto ridículo da parte do todo poderoso Apolo ser furtado e enganado por um bebê recém-nascido. Apolo não se deixou iludir, e entre aborrecido e divertido, chamando-o de enganador e ardiloso, previu que em muitas noites Hermes penetraria nas casas dos homens e silenciosamente os privaria de seus bens, e tomaria o gado dos pobres pastores. Assim ganharia fama como Mestre dos Ladrões.

Trocando favores 
Hermes tomou da lira e começou a cantar toda a teogonia (poema que narra o nascimento dos deuses gregos), celebrando Mnemosina, deusa da memória, acima de todos os deuses. Encantado, Apolo disse que sua canção valia bem cinquenta vacas, parecia superior a tudo que ele mesmo, como deus da música, conhecia, e que a disputa poderia encerrar em paz. E jurou fazer do irmão um líder entre os imortais, prometendo conceder-lhe muitos dons. Hermes, louvando o irmão, disse que por sua vez lhe dava a ciência desse novo canto e da execução da lira, recomendando que os praticasse com dignidade.

Zeus concebe mais benezes
Zeus confirmou os dons de Apolo sobre Hermes, e acrescentou outros: atribuiu-lhe o comando das aves divinatórias, dos leões, dos ursos, dos cães e de todos os rebanhos da Terra, além de fazê-lo mensageiro junto ao Hades, função de grande prestígio.


Os reinos de Hermes
Hermes, esse deus ladrão, mentiroso, ardiloso e brincalhão reina em todo espaço onde imperam trocas, principalmente as trocas que envolvem dinheiro e mais especificamente as que lidam com vocabulários específicos, difíceis de decifrar, impossíveis para os "não-iniciados", como o nosso economês! A língua dos economistas, como a língua dos médicos e a língua dos acadêmicos é um instrumento de poder! É uma linguagem cifrada, difícil, "hermética"! É através de seu caráter obscuro e de difícil tradução que ela requer o papel do "tradutor", palavra que tem a mesma raiz da palavra "traidor" (a similaridade ainda pode ser observada nas palavras "tradutore" e "traditore", respectivamente 'tradutor' e 'traidor' em italiano, por exemplo). Hermes reina no campo da tecnologia, do Mercado financeiro e têm expandido seus domínios! 

Estruturas da psique
Mitos são narrativas através das quais podemos perceber o funcionamento das estruturas inerentes ao pensamento humano. Através desses relatos de tempos imemoriais podemos ver a interação de arquétipos (tipos primitivos de filtros perceptuais entre nossa consciência e nosso inconsciente) ou o funcionamento de complexos (sistemas integrados e abertos de dados afetivos, cognitivos e somáticos que são ativados por gatilhos específicos) em nossas mentes. O mito de Hermes nos traz uma faceta possível para o pensamento humano: a razão econômica pura, a mentalidade centrada no lucro acima de qualquer coisa. O complexo psicológico do lucro.

Onde está a Farsa?
Digo que estamos submersos na "Farsa de Hermes" porque estamos submersos numa sociedade que nos vende a ideia constante de que a felicidade é um bem ou uma experiência consumível, pela qual há um valor específico que pode ser somado e gasto resolvendo para sempre essa questão. Uma sociedade em que haja o que houver, estejamos onde estivermos, ocorra o que for conosco, teremos sempre a doce ilusão de que podemos transformar qualquer fato isolado (principalmente os fatos trágicos) em produtos cercados por uma constelação de subprodutos através dos quais venderemos nossa tragédia como uma história de superação do espírito humano.

É tudo fumaça e espelhos!
Sendo mais específico: Vivemos numa sociedade tão espetacularizada pela ilusão de lucro fácil que ainda que me caia o prédio, eu perca todos os bens, uma perna e metade dos meus parentes, ainda serei incentivado a participar de um reality show, escrever um livro de memórias - que será um best seller por ao menos duas semanas! -, participar de seis ou sete programas de entrevistas e enriquecer às custas da minha tragédia pessoal. É a lógica da razão econômica a todo custo, a razão do faturamento, do crescimento desordenado e sem bases, afinal Hermes tem asas nos pés! Ele não tem estrutura nenhuma! Ele não cria, ele copia e cola, homogeniza o conhecimento, reduz a criatividade a um trabalho de cópia seguido de um esforço enorme para esconder suas fontes. É o deus do "jeitinho", do "quanto é que eu levo nisso?", do "o que o Mercado está pedindo agora?", do "Pra onde o vento sopra hoje?", do movimento sem destino, da educação sem aprendizado, do dinheiro virtual, da imagem, da fumaça e dos espelhos.


Hermes precisa que você precise

O pior fantasma para uma sociedade centrada no ideal de Hermes do lucro acima de tudo é o sujeito que busca a própria autonomia, o sujeito que consome o necessário e não o supérfluo, o sujeito que cria e que consegue ter condições psicológicas e íntimas de criticar construtivamente as criações desse próprio pensamento do lucro acima de tudo.

Hermes precisa que você precise e precise, principalmente, do impreciso. Quando menos definido melhor, porque nesse caso qualquer coisa serve! Observe bem e não se engane, porque "qualquer coisa" é o que você terá, nesse caso! Uma avalanche monstruosa de "quaisquer coisas" eletrônicas, cheirosas, cortadas, do tecido, da marca, da cor, da loja, do nome, da sigla etc. Mas é necessário essencialmente que você precise, de algo impreciso, e sempre!

A alma do homem sob o Hermetismo de mercado
Desconectado do incômodo que a materialidade é para Hermes - ele nunca se deu bem com sua mãe, princípio feminino, visceral e material de sua existência, mas sempre se deu maravilhosamente bem com seu pai, princípio etéreo e intelectual de seu ser - o homem não pode mais vivenciar seu luto, sua depressão, sua perda, sua dor. Pensemos em direções: Nada do que coloque o homem "para baixo" ou "para dentro" é possível no pensamento desse Hermes superficial da nossa sociedade contemporânea, só o que o coloque "para cima" e "para fora"!

A grande esquizofrenia
Observemos como, submersos que estamos nessa lógica hermética do discurso, já transformamos as expressões: "para baixo" significa depressivo, triste, enfadonho, chato, enquanto "para cima" se torna sinônimo de alegre, extasiante, divertido, interessante etc. Quando nos perguntam quem somos, como no início do texto, a forma como nos posicionamos perante o mundo já é um dado pelo qual seremos identificados, mas o julgamento sempre fala mais do juiz que do julgado, claro.

Acreditando nessas divisões e nos significados fechados delas, ignorando inclusive a faceta profunda do próprio Hermes enquanto deus que visita o submundo e leva nossa alma (sem deixar, para o bem ou para o mal, que levemos nenhuma de nossas riquezas), é também corrermos o risco de rompermos o vínculo entre matéria e existência, entre nosso corpo, seus processos e velocidades íntimos e quem nós somos. É aí que temos a grande esquizofrenia de nossa época, a ideia de que pães nascem em sacos nas prateleiras, leites vêm em caixas e celulares nascem nas vitrines das lojas, da mesma forma como a felicidade embrulhada e perene é possível a todos, menos a nós, que estamos sozinhos depressivos quando todo o resto da humanidade está numa mega festa de arromba para a qual nós fomos os únicos que não foram convidados.

O ponto cego
É aí que geramos a ansiedade, é desse caldeirão que nasce a insegurança, a incerteza, a desorientação e é para sanar o incontrolável turbilhão de desespero desse estado que estão à venda todas as formas imagináveis de produtos, serviços, remédios, eventos e "experiências" de consumo. Cada um dos quais foi projetado para criar um looping infinito de novos produtos, serviços, remédios, eventos e "experiências" de consumo contíguas e infinitas. Do remédio projetado para criar efeitos colaterais que venderão novos remédios às políticas econômicas ditadas pelo FMI que desencadearão um novo pedido de ajuda ao próprio FMI passando pela obsolescência programada de eletrodomésticos e aos modismos da auto-ajuda gerencial de mercado. É aí, no turbilhão das ofertas de ilusão, que está a Farsa de Hermes.




Texto por Renato Kress

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Por que zumbis agora?

por Renato Kress

Toda literatura, cinematografia ou expressão artística da ordem da fantasia atende a uma espécie de desejo implícito por expressão de uma intuição ou representação cultural. Penso a que tipo de intuição ou representação a nova leitura do antigo tema dos zumbis pela nossa sociedade contemporânea esteja atendendo. O que vemos nos zumbis? Mais especificamente, por quê dentre tantas criaturas fantásticas do nosso infinito imaginário, estamos nos identificando tanto especificamente com esses mortos-vivos? 

Origem do mito zumbi
A existência dos zumbis (ou "zombis") faz parte das crenças religiosas de vários povos africanos. Reconstituindo a origem linguistica dessa palavra,  Pierre Anglade (1998) destaca a sua presença tanto entre os Fon de Benin quanto em Camarões, no Congo ou em Angola. É na região do Congo que o termo adquire o seu sentido mais forte, já que "zumbi" significa "espírito dos mortos". Na mesma linha Onzambi quer dizer Deus, como é o caso da palavra Nzambi em Angola e na língua kikogo.


Segundo Harold Courlander (1973, p.257): "The word zombie may come from the West african term ombwiri. In the British West Indies the word Jumbie is used loosely to mean ghost or devil"

Cadáveres do Caribe
A representação sobre a palavra Jumbie utilizada, também, no Caribe é preciosa. Ela mostra como, pelas deformações fonéticas, um sentido persiste nos diferentes usos da palavra zumbi e nas suas variantes. Esse sentido ofensivo e misterioso ao mesmo tempo, pode ser encontrado tanto no Caribe quanto no Brasil, onde Zumbi foi, também, o nome de um importante chefe de escravos que se revoltaram no século XVIII e fizeram de Palmares o local de sua resistência. Mas essa é outra história.

Um vivo-morto ou um morto-vivo?
Da palavra congolesa zumbi, que significa "espírito dos mortos", à haitiana zombi, que se traduz em francês por mort-vivant e em inglês por living dead, há, ao mesmo tempo, continuidade e variação de sentido. Enquanto no francês começa-se pela morte, no inglês, começa-se pela vida. Seria então o zumbi mais caracterizado pelos sintomas de um ou de outro? Na língua haitiana a palavra não se impõe sobre este aspecto. O zumbi (zombie) é ao mesmo tempo vivo e morto, sem ênfase em nenhuma das possibilidades.

Do Congo ao Caribe
Então a figura do zumbi vai variar segundo o modo pelo qual é evocada em uma lenda africana, em um boato haitiano, numa notícia de jornal ou num filme ou seriado em Hollywood. Roger Bastide diz que o termo zombis, utilizado para designar os mortos-vivos, significa "aqueles cuja alma foi devorada por um feiticeiro", é o zumbi dos Congos, espírito dos mortos, almas do outro mundo (revenants), que adquiriram no Caribe um sentido ligeiramente diferente.

O zumbi no Vodu haitiano
O vodu haitiano reconhece que todo ser humano é dotado de uma alma composta por dois elementos: o grande anjo-bom e o pequeno anjo-bom. Esses dois elementos, indispensáveis ao bom funcionamento da consciência do sujeito, não são, entretanto, dotados da mesma capacidade de resistir às intervenções exteriores. Enquanto é impossível afetar o grande anjo-bom, o mesmo não acontece com o pequeno anjo-bom. Qualquer um pode tornar-se mestre do pequeno anjo-bom de outra pessoa. Essa condição de posse lhe permite transformar a sua vítima em zumbi.


É interessante pensar a quais consequências chegaríamos se, considerando a vastidão incomensurável do que Carl Gustav Jung considera como tendo os conteúdos do inconsciente (nesse caso abrangendo os inconscientes pessoal e coletivo) e a limitação dos conteúdos da consciência, relêssemos o parágrafo anterior substituindo os termos "grande anjo-bom" por "inconsciente" e "pequeno anjo-bom" por "consciente". Nesse caso teria o poder de "zumbificar" quem tivesse o poder sobre a consciência do outro.

O homem sem vontade
O indivíduo destituído do controle de seu pequeno anjo-bom (domínio de sua consciência) não é mais que uma espécie de autômato que agirá sob as ordens daquele que se tornou seu mestre. Ele simplesmente é incapaz de se opor àquele que lhe ordena fazer qualquer coisa. É um homem sem vontade.



Um ato de vontade é uma irrupção de coragem sobre o oceano primordial das potencialidades do inconsciente. Esse ato de vontade necessita de alguma forma de pressão, de profundidade, de uma carga psíquica, afetiva ou somática que não é encorajada numa sociedade celerada e superficial como a nossa.

Túmulos e asfaltos: Zonas de conforto e ação
Indivíduo tido por morto, que havia sido enterrado e, em seguida, trazido à vida por aquele que o colocara em estado de catalepsia, o zumbi haitiano não retorna do além-túmulo por sua própria vontade, mas, sim obrigado pela ação de seu mestre. Fico pensando até que ponto muitas propostas de treinamento de caráter "motivacional" não se estruturam sob essa perspectiva dualista e rasa: "Não pense, aja!" disfarçadas sob os rótulos simplificadíssimos de "Zona de Ação" e "Zona de Conforto". É algo a se observar, não?


O motivo pelo qual se zumbifica no Haiti é para se servir da força de trabalho de uma pessoa. Desde a dimensão teleológica (finalista) da crença à condição de posse do pequeno anjo-bom de um indivíduo, é necessário acrescentar uma dimensão sociológica que vem da experiência histórica dos haitianos, cujos pais, outrora, foram conduzidos da África para a América para servir de escravos aos europeus. Essa mudança foi vivenciada como uma espécie de grande morte daquela sociedade. Afinal, toda grande mudança operada numa cultura de uma sociedade tradicional (ou arcaica) é experimentada como uma espécie de morte, de transmutação. Cabe ao povo ressignificar as características do renascimento sob novas condições em novas terras.

Morte em vida
Simbolicamente a mudança funcionou para os africanos como o inverso da fuga dos judeus do Egito. Eles não passaram para o território da nova vida, mas para o território da constante morte. Morte de sua vontade, de sua cultura, de sua força, de suas mentes. A humilhação e a opressão desses povos contribuiu para o desenvolvimento do mito dos zumbis que, apesar de já existir na África, ganhou nova ênfase e novas leituras nas Américas.


Início da moda zumbi
A partir de 1915, data da ocupação militar do Haiti pelos Estados Unidos, houve um revezamento entre escritores e cineastas estadunidenses. The Magic Island, livro publicado em 1929 e que serviu de base para a realização e um filme produzido mais tarde, é a mais célebre das narrativas de viagem evidenciando os episódios e interpretando os zumbis. E será esse livro que lançará a moda do zumbi e dará o tom para a sua representação no cinema de Hollywood.

Guerra de imagens
Em uma guerra de imagens, cujo objetivo é atacar ridicularizando o adversário, o personagem do zumbi foi utilizado como uma metonímia do vodu, o qual simbolizaria a barbárie aos olhos do público ocidental. Falar sobre vodu significa falar sobre canibalismo e condenar a característica que marca, ao olhos do público ocidental, os cultos africanos. Ignora-se, nesse caminho, a riqueza íntima do tema mítico dos zumbis.

Tipos de zumbis
Nas narrativas concebidas fora do Haiti o zumbi é uniformemente um personagem lúgubre, maléfico, que semeia o terror por onde passa. No Haiti, ao contrário, há todo o tipo de zumbis.

Zumbis Bossales: É melhor se manter afastado desses tipos. São os tipos mais conhecidos pela cultura ocidental contemporânea. Sem intelecto, capazes apenas de seguir uma ordem simples de seus mestres e de executar tarefas repetitivas e mecânicas. Esse tipo de zumbi foi associado, na fantasia do cinema, à antropofagia (canibalismo) e, principalmente, ao seu peculiar apetite por cérebros. Uma questão de compreensão do mecanismo da antropofagia - que consiste em adquirir as habilidades e conhecimentos daquilo que se come - misturada com uma projeção simbólica do que lhes faltaria (no caso consciência e capacidade cognitiva, cérebros). Ao meu ver esse tipo de zumbificação é muito bem representado na obra "Tempos Modernos".

Zumbis guardiões: Espécie de zumbis dedicada a guardar alguma espécie de tesouro - normalmente abandonado por algum colono de Santo Domingo, antes de sua fuga diante dos revolucionários haitianos. O interessante é que todas as narrativas a respeito desse tema mostram um zumbi com um certo grau de autonomia pois em todos os casos, com o afastamento longo ou permanente do seu antigo mestre, o zumbi perde a paciência de esperar seu retorno e, furioso e desejando pôr um fim ao seu trabalho, entrega o tesouro ao primeiro que chega. Muitos no Haiti esperam ter a prodigiosa chance de encontrar com esse zumbi "pote de ouro no fim do arco-íris".

Zumbis mannmannan: Tipo que as crianças chamam em canções para auxiliá-las, por exemplo, para "capturar a pequena galinha que escapou" (wi wa kenbe ti poulèt ban mwen!). É uma espécie de zumbi puer, de zumbi de criança dado a travessuras, truques e sumiços de objetos importantes.


Indústria Farmacêutica
Observando esses tipos digamos "naturais" da mítica do zumbi no Haiti, imediatamente me vêem à mente os tipos de zumbis mais comuns ao nosso cotidiano cinematográfico ou televisivo. Um dos mais comuns são os zumbis de laboratório. Alguma experiência genética mal sucedida dá origem a seres semi-mortos (ou semi-vivos, à escolha do freguês) cujos atos são desprovidos de consciência moral e cujo raciocínio é ou inexistente ou regredido ao que Freud chamaria de "Id" (inconsciente ou esfera das 'pulsões').


Fracasso da vontade
A vivência da perda de significado, de sentido profundo, causado por uma sociedade celerada onde a informação - que conforma e não forma - nos indica uma necessidade crescente de disposição para suportar uma carga afetiva, física e intelectual de trabalho constante com toda forma de repouso ou ócio direcionada direta ou indiretamente para o consumo não nos dá tempo para digerir os processos emocionais naturais da vida humana. Um efeito semelhante ao causado pelo autor do texto ao escrever essa frase anterior sem quase nenhuma pausa, só que bem pior. É preciso que sejamos autômatos, que executemos nosso trabalho, que estejamos felizes, bonitos, barbeados ou maquiados, elegantes e bem-sucedidos, caso contrário não estaremos sendo fortes (ou "resilientes") o suficiente. Não é preciso falar sobre a perversidade desse sistema de constante derrota da vontade, do raciocínio e da criatividade humana. É preciso perguntar, apenas, se o zumbi está cabisbaixo na poltrona ou pulando à base de comprimidos.

Deixo o carinho de um curta de animação genial da Vancouver Film School sobre o tema:
http://www.youtube.com/watch?v=STN8tzUcYHY

por Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

"Aquilo que une", pensamentos sobre o amor

Já escrevi em diversos outros artigos nesse e em outros blogs sobre o fato de que vivemos submersos sob a cultura do medo. O medo causa um "rebaixamento do nível mental", como dizia Jung, e vai limitando o poder da crítica, do pensamento autônomo e da maturação emocional do indivíduo. Indivíduos pouco críticos, emocionalmente imaturos e desacostumados ao pensamento autônomo resguardam-se nos referenciais externos para validar suas concepções da vida e para formular seu caráter e valores. Basicamente quem vive no medo consome mais: produtos, modismos ou idéias. Mas o que essa difusão social do medo pode nos falar sobre nossa relação com o amor?

Amor nos tempos de Fobos
Fobos era uma das divindades que acompanhava Ares - deus da guerra na mitologia grega - e significava "medo", daí a origem da palavra "fobia", que significa estar tomado por Fobos ou sob o domínio de Fobos: estar com medo. No mito de Eros e Psiquê - um mito latino, não grego, embora inspirado em divindades de origem grega - Lúcio Apuleio, um poeta romano, traz as as seguintes palavras saídas da boca de Eros (personificação do amor como desejo de gozo, do amor infantil e puramente hedonista):

“Tola Psique! É assim que retribui meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro e estavas disposta a cortar minha cabeça? Vai! Volta para junto de tuas irmãs (...) O amor não pode conviver com a suspeita!” - Eros
A suspeita é gerada quando a relação de Eros e Psiquê é ainda uma relação juvenil de excitação pura e desigual de uma divindade que mantém cativa uma "esposa" num palácio de ouro e mármore cercada de cuidados e longe das vistas de Afrodite (mãe de Eros), Hermes (pai de Eros nessa versão) e Zeus (personificação da Lei e da Ordem, socialmente, ou da consciência, psicologicamente). Em verdade Psiquê é mantida como um objeto sexual do deus que só a visita à noite, deleita-se no escuro e foge pela manhã sem que a "esposa" o veja. É uma relação de dominação e submissão, ainda que Psiquê aprecie as noites de amor com seu "marido" invisível, o que alguns psicólogos poderiam caracterizar como uma "perversão" submissa da parte dela. Não vou citar longamente a síndrome de estocolmo, mas é inevitável que ela venha à cabeça. A condição de cativa numa terra estranha pode vir a fazer com que a vítima desenvolva algum laço afetivo de identificação com seu captor.

Mas afinal, o que é o amor?
Amor, aquilo que une
A primeira definição da mitologia grega sobre Eros - divindade que representa o amor - está em Hesíodo, em sua Teogonia, para ele "...antes de tudo existiu o Kháos (abismo), depois Gaia (ou Géia, Terra) de flancos amplos, assentada firmemente, oferenda perene a todos os vivos, e Eros (o Amor), o mais belo dentre os deuses imortais, aquele que derreia os membros e que, no peito de todo deus como de todo homem, doma o coração e a vontade prudente". Nessa versão Eros é "aquilo que une", uma espécie de força simultaneamente gravitacional, magnética e sexual, aquele que assegura a continuidade das espécies e a coesão interna do Kosmós (ordem). De certa forma o contrário de amor é desordem e é aí que entra o medo.

Eros existe na Teogonia como força antagônica a Éris (discórdia), aquilo que separa, desagrega, despedaça. Não é de se espantar que numa sociedade contemporânea do "cada um por si", do "jeitinho", do individualismo crônico e esquizofrênico que aparta o sujeito de suas relações com o todo representado pela família, amigos, cultura etc, o amor esteja tão idealizado e distanciado.

O amor como ideal
Idealizamos tudo aquilo com o qual não temos muita intimidade. O distanciamento torna tudo mais simples, homogêneo e límpido. Basta ver expressões típicas nossas como "cultura oriental". A tal "cultura oriental" é mongol, russa, chinesa, indiana ou aborígene? Porque estas e muitas outras estão todas no oriente e são todas diversas, dotadas de riquezas únicas. O distanciamento causa essa falsa impressão de homogeneidade.

Vê o amor, filho?
É pequeno, não pai?
A essa distância sim...
Quando pensamos em amor idealizado, em perfeição absoluta seja de uma relação a dois (Eros), numa relação de afinidade (Philia) ou no amor universal (Ágape), estamos diante de um amor que se encontra longe da nossa visão de mundo contemporânea. Mas diferente da cultura dos Ainos (os aborígenes do Japão), não precisamos atravessar o globo para resolver essa distância e perceber que a romantização que fazemos de um povo ou de uma cultura não é compartilhada por quem vive nessa cultura. O amor é um sentimento, não está nas Bahamas mais do que em Brunei ou no Brasil. Para não endeusarmos o amor basta exercitarmos ele e logo reconheceremos as necessidades e os desafios intrínsecos ao "viver em amor". Eros é mais desafiador que Éris. "Aquilo que une" é muito mais desafiador do que "aquilo que separa".

Existe coisa mais clara, simples e desafiadora que a lei de ouro? "Amai ao próximo como a ti mesmo", "Não faças ao outro o que é injurioso para ti", "Não trates os outros como não gostarias que te tratassem", "Não faça aos outros o que não queres que te façam a ti", "Não coloques em ninguém um fardo que não desejarias para ti, e não desejes para ninguém o que não desejarias para ti mesmo" etc.

O amor como conjunção
Lembro-me de uma parte de uma peça de teatro que escrevi (e nunca publiquei) em que colocava um personagem diabólico (diávolo significa "aquele que separa") para confrontar um personagem inspirado em Gandhi. Na cena em que o primeiro tentava agredir, ofender e irritar o segundo este simplesmente abre os braços e diz "tudo bem, eu te aceito", ação à qual o primeiro responde batendo o pé no chão e gritando que "é impossível brincar com você"!

Amor é também aceitação das diferenças. Inclusive das diferenças de gênio, opinião etc. Numa sociedade movida pelo medo ficamos soterrados em uma lógica de poder e controle que nos impede de respeitar o outro - o que invariavelmente vai nos impedir de ser respeitados e a coisa toda opera por uma grande reação em cadeia. A isso, também, podemos chamar de cultura, o culto ou cultivo diário de uma sensação de apreensão e receio que impede ou ao menos limita gravemente nossa possibilidade de agregar, respeitar e amar.

Enfim, esses são só alguns pensamentos meus. Não há aqui pretensão de certo nem errado e se você pensa diferente, "tudo bem, eu te aceito". :)

Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador do Projeto Mito e Mente, cujo 7° encontro trata especificamente da temática do amor.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ensaio sobre Apolo

Um pequeno ensaio sobre a trajetória e as dimensões simbólicas de Apolo. Parte do grande ensaio sobre o 6° encontro Mito e Mente: De Sangue: Helena e Clitemnestra, Cástor e Pólux, Apolo e Ártemis, mitos da fraternidade.
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Apolo

O Mito

Leto na Ilha de Delos
Delos, ilha sagrada do arquipélago das Cíclades, não estava no local onde atualmente se encontra. Era uma ilha flutuante, vagando incessantemente pelos mares. Um dia uma linda deusa, com terror e agonia estampados no rosto, pôs os pés naquela ilha. Era a deusa Leto e trazia no ventre dois filhos de Zeus, Apolo e Ártemis.

Amaldiçoada por Hera – a legítima esposa de Zeus –, que pediu à deusa Gaia, a Terra, que não desse abrigo para Leto, afim de que não conseguisse dar à luz aos frutos do adultério de seu marido, a mãe de Apolo estava impossibilitada de dar à luz em qualquer terra que se ligasse a Gaia, a deusa Terra, além de ser perseguida por um monstro denominado Píton, que Hera havia enviado atrás de Leto para não deixar que permanecesse tempo o suficiente para dar à luz em lugar nenhum. Até chegar em Delos. A qualidade de ilha flutuante - em algumas tradições criada especialmente por Possêidon, deus dos mares e tio de Apolo e Ártemis - de ser um espaço de terra não ligado a Gaia, fazia com que a ilha de Delos, ao contrário dos territórios da Ática e Trácia e das ilhas de Lesbos e Quios, por onde a deusa passara anteriormente, pudesse guarnecê-la e escondê-la de Píton para que desse à luz a seus gêmeos divinos.

O nascimento de Apolo
Diante da promessa de Leto de que seu filho construiria um magnífico templo em homenagem e gratidão à ilha que ousou opor-se à vontade de Hera compadecendo-se de uma mãe que sofria inúmeras dores num eterno e infindável trabalho de parto, duas pedras monstruosas irromperam do fundo do mar e sobre elas apoiou-se a ilha. Dessa forma Delos estabilizou-se e acolheu Leto.

Leto com Apolo e Ártemis
De imediato muitas deusas vieram auxiliar Leto no trabalho de parto. Menos a deusa Hera, que, ao tomar conhecimento de que Leto havia encontrado leito onde dar à luz, havia preso sua filha Eilítia, deusa das contrações do parto, afim de que o parto não pudesse se realizar. Por nove dias e nove noites fortes dores atormentaram a deusa. Mesmo Hera, após os longos dias e noites de sofrimento da parturiente, compadeceu-se das dores de Leto e libertou sua filha Eilítia para auxiliar no trabalhoso parto.

Quando na décima noite ela deu à luz a seus dois filhos, a escuridão noturna tornou-se um luminoso dia. O Sol [deus Hélios] surgiu majestoso no céu, lançando em direção à ilha seus raios de ouro. Não podia ser diferente uma vez que havia nascido o deus da luz, Apolo de cabelos dourados e sua irmã Ártemis, a deusa da noite enluarada.

Apolo tinha apenas quatro dias de vida e já era uma criança robusta, cheia de poderes divinos. Recebeu de seu pai, Zeus, um arco e uma lira de ouro, assim como sua irmã os recebera em prata. Todos eram obra do deus Hefesto, o deus do fogo e das forjas. Seu novo arco de ouro (algumas interpretações o colocam de prata) incentivou o jovem deus a iniciar uma caçada ao monstro Píton, que atormentara sua mãe durante a penosa busca por um solo para pari-lo.

Num instante Apolo voou ao Parnaso, onde o odioso monstro tinha seu covil. Até então ninguém ousara de indispor contra Píton, que espalhava por toda parte desgraças extraordinárias. Nos locais onde arrastava seu corpo de serpente a terra e seus frutos apodreciam e uma imundície se esparramava em tudo o que havia ao redor, enquanto os homens morriam assim que se deparavam com seu horroroso semblante.

Essa terrível serpente, ao perceber que alguém ousara se medir consigo, saiu do covil escuro e seu corpo monstruoso escorregou por entre as rochas, à procura do inimigo. Tão logo viu que tinha diante de si o filho de Leto, ficou enlouquecido de cólera e sua boca viscosa espumava ódio. Píton ergueu-se, colossal, bem à frente de Apolo, como se, com seu volumoso corpo, desejasse ridicularizar a temeridade do deus menino.

A questão da busca por esse enfrentamento da fera interior, do ser umbrático, sombrio, indefinido e pantanoso representa uma katábasis – palavra grega que significa ‘descida às trevas’ – realizada por Apolo, um momento em que o deus confronta o desconhecido que já existia e influenciava antes mesmo de seu nascimento e que agora estava sendo posto em xeque. De certa forma a serpente Píton significa um lado obscuro da própria Leto, um lado que não queria os filhos, que queria mantê-los como uma parte de si mesma, eternamente em trabalho de parto. Para que Apolo pudesse nascer essa Píton, essa ‘mãe serpente’ teve de ser destruída. Já veremos como o grego coloca esse ‘desconhecido familiar’ em xeque.

Um pouco mais sobre a origem de Apolo
As opiniões acerca da origem deste deus divergem bastante: há quem lhe dê por berço a Ásia, fazendo dele, primitivamente, uma divindade Hitita (os Hititas eram a raça do povo da cidade de Ílion, ou Tróia); outros o dizem um deus da Lícia; outros ainda consideram-no uma divindade nórdica. A própria Ilíada apresenta-o como aliado dos troianos (asiáticos), o que a princípio parece muito estranho, visto tratar-se do deus grego por excelência. Somente as mais recentes tradições gregas contam que Apolo, filho de Zeus e de Leto (identificada com a noite e também denominada ‘Latona’) é irmão gêmeo de Ártemis, pertencendo à segunda geração dos Olímpicos.

Apolo mata Píton
Mais rápido que um raio, Apolo atirou sobre Píton uma única seta. Acertou-o bem no meio da testa. Um urro terrível encheu os barrancos das montanhas e o horrendo monstro, fatalmente ferido, ia batendo nas rochas e encostas do Parnaso. Seu corpo monstruoso se enrolava e desenrolava desesperado de dor e, num dado instante, arremeteu-se imenso para o alto e, antes que pudesse alcançar Apolo, caiu de novo, para não mais levantar.

A imagem de Apolo como um deus da luz que ostenta uma certa frieza em ação, um certo ‘sangue-frio’ e objetividade, destaca um lado mais sombrio, mais simbolicamente ‘lunar’ do deus. A princípio Apolo seria uma divindade noturna, como veremos adiante em ‘O Apolo simbólico’.

Apolo canta o Peã
Cheio de alegria por sua grande vitória, Apolo apanhou o amado instrumento, a lira dourada, e começou a cantar o Peã1 da vitória. O triunfo de uma grande façanha era agora acompanhado de um outro triunfo – e este não era nada além de uma canção. Mas pela primeira vez no universo ouviu-se uma canção tão magnífica. Pelos seus versos e pela melodia fazia desaparecer todo o contraste entre a luta selvagem e a paz, entre a destruição e a criação, entre a morte e a vida. Era uma canção que abalava com sua força e beleza. Uma canção que fazia o universo ficar mudo e os homens, que tanto padeceram por causa de Píton, arrepiaram-se de emoção, com lágrimas de alegria a lhes encher os olhos.

Quando Apolo terminou seu peã, um barulho espalhou-se por toda a parte. Era o barulho dos gritos e urros de júbilo dos homens ao ouvir aquele hino triunfal. É com justiça que, desde então, Apolo é também incontestavelmente o deus da música.

O Oráculo de Delfos e o Apolo Pítio
Oráculo de Delfos, hoje em dia
O deus enterrou Píton na encosta do monte Parnaso, sobre sua sepultura fundou um templo e um oráculo. Trata-se do famoso Oráculo de Delfos, que prediz aos homens as decisões de Zeus, pai de Apolo. A partir de então Apolo ganhou um de seus epítetos, o de Apolo Pítio, já que, na estrutura simbólica do mito, é comum deixar que parte desse monstro que se encontra e se derrota no interior viscoso e umbralino, torne-se parte integrante da personalidade do ser que o haja derrotado. Essa estrutura pode ser encontrada quando Jasão engana ou mata o dragão que guardava o velocino de ouro e, ao fugir, leva Medeia, sua futura esposa, que também era parte integrante do dragão, da mesma forma Hércules veste-se com a pele do leão de Neméia após matá-lo, ou Perseu usa a cabeça da medusa para salvar Andrômeda. [Mais detalhes em ‘O Herói de Mil faces’ de Joseph Campbell]

O Oráculo de Delfos estava, então, associado à práticas primitivas de invocação dos mortos, já que era realizado sobre o corpo putrefato da serpente Píton e, pode-se dizer, valia-se de sua força vital, de sua ligação com sua mãe Gaia, a Terra, para realizar suas predições. Dessa maneira o Oráculo de Delfos, assim como Apolo, também tinha sua ‘sombra’[Jung], seu enraizamento nessa dimensão ctônica (do grego chthón ‘terra, terreno’) do reino dos mortos e do contato com os ancestrais.

A vidência ou mântica, na Grécia, é uma prática ligada ao transe e a sacerdotisa do templo de Apolo, a chamada Pitonisa (sim, também derivado da nossa velha amiga serpente), além de só poder fazer predições após ter passado por um estado de transe, também incorporava essa atmosfera perigosa, subterrânea, ligada à morte, às sementes e às famílias.

Sentada sobre um banquinho em tripé forrado com peles de serpente e que se equilibrava sobre uma fenda no chão donde se desprendiam vapores que auxiliavam na entrada no estado de transe, a Pitonisa passava as mensagens divinas a sacerdotes que a interpretavam e passavam para o consulente. Quem fosse consultar o Oráculo de Delfos não podia travar contato com a Pitonisa, somente com os sacerdotes-intérpretes de Apolo.

Antes de Apolo a mântica (prática de adivinhação), estava ligada aos mortos e agora assumia a forma da mântica solar de Apolo, sem perder algumas características anteriores. O templo de Apolo em Delfos era um local de purificação, de cura de doenças, contendas e chagas, mas ao mesmo tempo estava intimamente ligado à terra, aos mortos, ao subterrâneo.

O bom pastor
Píton era filho da deusa Gaia, a Terra, que agora considerava Apolo um assassino por o haver matado. Segundo o antigo direito grego, a Têmis, uma justiça que pode ser compreendida como o ‘olho por olho’, Gaia tinha todo o direito de matar Apolo, castigá-lo ou puni-lo como lhe aprouvesse. Mas como o jovem deus também era predestinado a ser o deus que absolveria os pecados dos assassinos arrependidos (ver Apolo na Oréstia), era preciso que primeiro ele próprio se purificasse do crime. Resolveu, então, fazer isso mesmo, ainda que o assassinato que cometera tivesse sido uma bênção para deuses e homens. Por isso – em algumas interpretações por iniciativa própria e em outras por ordem de seu pai Zeus – despojou-se de sua substância divina e rumou para a Tessália, onde se tornou um humilde pastor a serviço do rei Admeto.

Coisas estranhas aconteciam quando Apolo saía para levar ao pasto os rebanhos de seu patrão. Quando o deus pegava a lira e dedilhava suas cordas, os animais selvagens, encantados, saíam da floresta e saltitavam alegremente ao redor dele, junto com os carneiros e as vacas. Posteriormente essa habilidade de Apolo foi herdada por seu filho Pan, o sátiro dos bosques.

Desde a época da chegada de Apolo a riqueza e a alegria inundaram a corte de Admeto: seus animais se multiplicaram, seus estoques se encheram de sacas e sacas de cereais, suas talhas transbordaram de azeite e vinho, de azeitonas e de manteiga. Carregados também estavam os muros e o teto, de onde pendiam pesadas sacolas com queijo e outros produtos comestíveis. Tudo do bom e do melhor, pois aquela cidade era a morada – ainda que inadvertidamente – do deus da abundância, da fartura e também irônicamente do métron, da moderação, do comedimento. Como Apolo poderia ser simultaneamente o deus de tais opostos? Veremos mais adiante.

Admeto, jovem e belo, orgulhava-se de sua riqueza. Montado em seu cavalo branco, saía para a planície, admirando seus rebanhos. Seus cavalos, cheios de vigor, beleza e agilidade, corriam pela vasta campina e seus bois puxavam com força o arado, que se metia bem fundo dentro da terra fértil, como se Gaia houvesse reatado amizade ou ao menos perdoado Apolo por sua humildade.

Não era de se admirar que muitos reis agora quisessem Admeto como seu genro e, para isso, lhe apresentavam as filhas. Porém seu coração era de Alceste, a belíssima filha de Pélias, o rei da vizinha Iolco.

A façanha de Admeto
Pélias, no entanto, não tinha a intenção de casar sua filha, pois queria que ela cuidasse dele em sua velhice – o que era a desculpa aberta para encobrir uma paixão platônica e incestuosa que o rei de Iolco sentia pela própria filha -. Por isso Pélias declarou que daria a mão de Alceste em casamento somente àquele que conseguisse atrelar a um carro (os gregos costumavam usar quadrigas e não bigas, como os romanos) um leão e um javali juntos.

Como alguém poderia atrelar lado a lado dois animais tão selvagens e diferentes, uma vez que até então ninguém ousara nem mesmo jungir apenas um deles?

Admeto, no entanto, inflamado de amor por Alceste, decidiu enfrentar o grande desafio. Sua coragem, porém, não deixou de comover Apolo. O perigo de que o ousado jovem fosse despedaçado pelas duas feras era iminente e o deus de cabelos dourados resolveu ajudá-lo e dar a ele a força necessária para atingir seu intento. Assim o intrépido Admeto realizou a grande proeza exigida por Pélias e eis que agora corria em direção a Iolco, sobre o carro puxado por um leão e um javali juntos!

Cheio de admiração pela inacreditável façanha do rapaz – e um certo receio de que o jovem rei estivesse sobre a proteção de algum deus –, Pélias deu-lhe a mão de sua filha em casamento. Alceste sentou-se no mesmo carro e Admeto a levou em triunfo para o seu palácio, onde realizou um grandioso casamento.

Por nove anos o deus da luz teve de permanecer nas terras de Admeto. Ao término do nono ano, já purificado de seu crime, retornou a Delfos. Desde então Apolo é o deus do grande e nobre sentimento de perdão e protege todo o homem que mostrar um real arrependimento.

Estar em Delfos, onde agora erguiam-se o magnífico templo e o oráculo sagrado, muito agradava a Apolo que, contudo, não se esquecia de Delos, sua ilha natal. Muito menos da promessa que sua mãe, a deusa Leto, havia feito ali. Por isso, pouco tempo depois, um templo resplandecente, o templo de Apolo, distinguia-se entre todos os santuários de Delos.

Escravo de Dânao
Outras versões contam que Após matar Píton, Zeus mandara Apolo para o oriente, como escravo do rei Dânao, para que este dele se servisse como melhor o aprouvesse. Esse rei pediu a Apolo (e também a Possêidon que se encontrava juntamente com Apolo na condição de escravo) que construísse as muralhas da cidade de Ílion, também conhecida como Tróia. É por isso que as muralhas de Tróia não puderam ser derrubadas. Não foram construídas por mãos humanas e mãos ou armas humanas não seriam capazes de pô-las abaixo.

Esta teria sido uma outra forma de purificação para o crime de Apolo, que também pode ser lida como punição de Zeus contra uma outra revolta dos deuses olímpicos chefiados por Possêidon e Hera contra Zeus, mas essa é outra história.

No País dos Hiperbóreos
Também chegava o tempo em que deixava a Hélade (Grécia) para ir ao ilmunidado, ao fabuloso país dos Hiperbóreos, onde morava sua mãe. Apolo é um deus com traços pluriculturais e especialmente orientais e não é de se estranhar que sua mãe pudesse aparecer algumas vezes como ‘estrangeira’. O fato de ser um deus oriental explica a atuação de Apolo ao lado dos troianos na Ilíada, de Homero.

Apolo realizava uma longa, mas belíssima viagem para chegar àquele país encantador. Montado em um carro alado, puxado por dois grandes e branquíssimos cisnes, viajava por sobre as nuvens, deixando a Hélade (Grécia) para trás de si. Conforme rumava mais e mais para o norte, apareciam do alto as primeiras neves que cobrem os picos das montanhas, como se fossem capuzes muito brancos. Em seguida a neve ia ficando mais abundante, até que enfim, tudo o que se via abaixo do carro de Apolo parecia estar coberto com um alvíssimo lençol. No alto, porém, onde voava o deus de cabelos dourados, o tempo era como de primavera e os cisnes arrastavam incansavelmente o carro divino.

Enfim, prosseguindo ainda mais para o norte, a neve começava novamente a diminuir e ao longe, além do norte, sobressaíam os raios dourados do sol, que passavam pelas nuvens e iluminavam uma terra fascinante.

Esse era o país dos Hiperbóreos, do eterno e fresco verão, das muitas cores e da abundância de luz, das águas cristalinas e dos pássaros paradisíacos que cantavam docemente. A tradução de ‘Hiperbóreos’ é ‘habitantes além do Bóreas’ (o vento norte), um povo lendário que na imaginação mítica dos gregos morava na região norte do mundo, onde o sol nascie e se punha apenas uma vez por ano, e onde esse povo vivia em paz e era feliz.Segundo constava os Hiperbóreos tinham uma veneração especial por Apolo.

Estaria aí, talvez, a lembrança nostálgica dessas paragens longínquas, de onde os primeiros helênicos passaram à Grécia, no começo do décimo milênio antes da era cristã. Os gregos consideravam o Hiperbóreo um pouco à maneira da Etiópia e da Atlântida, como uma espécie de paraíso remoto, um sítio de recreio para bem aventurados, masl definido geograficamente. Foi de lá que partiu a flecha prodigiosa que formou, no céu, a constelação de Sagitário.

Mal o deus de cabelos dourados descia do carro e pisava a relva verde, uma verdadeira festa acontecia, com os pássaros que voavam entre as árvores e os raios dourados do sol. Gorjeavam de modo tão belo que pareciam até mesmo as melodias divinas da lira de Apolo.

Todavia, no mesmo instante, lá longe na Hélade, nuvens negras haviam coberto o sol. Fazia frio e chovia, porque o deus da luz tinha partido, porque chegava o escuro inverno – época em que Core, ou Perséfone, guiada por Hermes, voltava ao Hades para conviver com seu marido e, sua mãe, Deméter, deusa da terra e das estações do ano, entrava em profunda depressão -. Os homens, reunidos em torno do fogo, esperavam pacientemente pelo retorno de Apolo em luz e calor e de Perséfone, para que Deméter florescesse a terra.

O Hiperbóreo, então, era uma espécie de super-homem, vivente feliz, sábio, mágico até um certo ponto, e habitante de um país um tanto Utópico. É interessante verificar como, à medida que os deuses iam, passo a passo, se distanciando do mundo dos mortais e à medida em que estes mesmo mortais se distanciavam das ‘leis’ personificadas nestes deuses, o país dos Hiperbóreos começou a florescer para os homens como um Éden para os deuses, espaço em que eram valorizados ao máximo, glorificados e exaltados por um povo que poderia ser interpretado pelo povo helênico (o povo grego) como o povo merecedor dos deuses, o povo temente, sem disputas, sem cismas, a raça perfeita, o paraíso na terra. É plausível que essa comparação social feita pelos gregos aos seus ‘irmãos’ hiperbóreos tenha uma forte influência na continuidade da religião helênica. Como se o fato da crença nos deuses estar se tornando mais fluídica fosse também pelo fato desses mesmos deuses encontrarem quem os adore de maneira mais própria.

As desventuras amorosas de Apolo:
Apolo e Dafne
Apolo amava muito o belo da vida. Uma vez, em Delfos, quando experimentava com as setas de ouro sua habilidade no tiro ao alvo, o jovem Eros, filho alado de Afrodite, apresentou-se diante dele. Parecia estar à procura de uma oportunidade de enlear o deus em alguma aventura amorosa.

Naquele momento a flecha de Apolo havia atingido o talo de uma maçã pendurada no galho de uma macieira distante. Eros apanhou então o seu arco e o ergueu, alvejando a mesma maçã antes que esta chegasse ao solo.

- Deixe-me atirar minhas setas em paz, menino! – Disse Apolo aborrecido. – E te faria muito bem não ousar medir-se comigo!
- Sei que suas flechas não erram o alvo – disse o risonho Eros -, mas as minhas também são infalíveis.
Mais aborrecido ainda do que Apolo, Eros abriu as asas e voou para o alto do Parnaso. Em seguida puxou da aljava duas flechas: uma era a flecha que despertava o amor e a outra era aquela que o recusa. Com a primeira feriu Apolo direto no coração e com a segunda a ninfa Dafne, filha do rio Peneio, que àquela hora passava, desapercebida, perto do deus de cabelos dourados.

Apolo, atingido pela seta do amor, ficou maravilhado com a beleza da ninfa e seu porte delicado, e avançou para o lugar onde ela estava, com o intuito de lhe falar. Dafne, porém, atingida pela flecha que recusa o amor, assim que viu Apolo, afastou-se. Ele, então, se aproximou ainda mais, mas a ninfa, com passos ligeiros, foi para mais longe. Apolo com saltos rápidos tentou chegar perto da bela Dafne. E foi isso. Ela saiu correndo. Como louco o deus a perseguia, gritando-lhe para que parasse, mas ela corria cada vez mais.

- Pare, eu lhe peço! – implorava o filho de Leto. – Não quero lhe fazer mal!

Mas a ninfa de pés ligeiros não dava sinais de que iria parar e escapava dele continuamente. Apolo, por sua vez, também não desanimava e sempre a perseguia e a pedia que parasse: - Não tenha medo, bela ninfa. Por que foge como se algum animal selvagem a perseguisse? Não sou mal, sou Apolo, filho de Zeus. Ordeno a você que pare de correr assustada.

Por essa passagem percebe-se o ‘fino trato’ que Apolo possuía ao lidar com a natureza feminina, ao ‘ordenar’ que ela deixasse de se assustar com ele.

Mesmo com toda a ‘sensibilidade’ de Apolo, Dafne continuava a correr. Ora Apolo se aproximava dela parecendo que iria alcança-la, ora ela se distanciava dele com um súbito solavanco. Em seguida ele a alcançava de novo, pronto para tocá-la, mas mais uma vez a ninfa escapava, como uma borboleta assustada.

O deus de cabelos dourados, no entanto, não parecia estar disposto a parar sua desenfreada perseguição. A flecha de Eros havia despertado nele uma paixão feroz.

- Por mais que ela resista, uma hora se cansará e eu a alcançarei. – E, de fato, Dafne começou a ficar cansada. O deus da luz aproximava-se cada vez mais... e eis que estendia os braços e chegava perto de tocá-la, de apanhá-la...

- Oh, deuses! E você, meu pai, por que me deixas cair nas mãos de Apolo? Não o quero para meu amante! Melhor eu me transformar numa pedra ou numa árvore, do que ser tocada por alguém que não amo! Ainda que seja ele um deus!

A Metamorfose de Dafne
E, realmente, naquele instante, Dafne enrijeceu-se. De seus braços e cabelos despontaram galhos e folhas, enquanto seu corpo tornou-se o tronco de uma árvore. Assim, a jovem ninfa se transformou no perfumado loureiro, que todos conhecemos. Apolo, em alta velocidade, em vez de agarrar a linda moça, agarrou a copa de uma árvore.

Uma grande tristeza se apossou então do deus da luz. Ficou muito aflito por ter causado o desaparecimento da ninfa que ele amara tão repentina e fervorosamente. Com olhos tristes, acariciou as folhas do cheiroso loureiro e, em seguida, cortou um ramo e o colocou na cabeça. Nunca Apolo esqueceria a bela a indomável ninfa. E é por isso que muito freqüentemente ele se apresenta com folhas de louro à cabeça.

Apolo e Marpessa
Apolo jamais de casou. Era o mais belo de todos os deuses, levava sua vida como lhe agradava, e estava satisfeito. No entanto uma vez prometeu casamento, mas nem nessa ocasião era seguro que permaneceria fiel e, felizmente, o casamento não aconteceu.

Isso ocorreu com Marpessa, a filha do rei da Etólia. O pai da moça, o rei Eveno, era muito duro com ela, mas também era um guerreiro digno e valente. Tomou então a decisão de que daria sua filha em casamento somente àquele que o vencesse em um duelo de carros.

Pela mão da formosa Marpessa e pela sua abundante fortuna, muitos tiveram a coragem de duelar com Eveno, mas todos foram mortos e ninguém mais ousava se medir com ele. Até que um dia apresentou-se diante de Marpessa, montado em Pégaso, um cavalo alado, um lindo e audacioso rapaz. Esse era o invencível herói Idas, filho do rei da Messênia.

Marpéssia, que havia escutado muitas histórias sobre as proezas de Idas, ficou aterrorizada ao vê-lo. Melhor não se casar nunca do que tomar como esposo aquele que matasse seu pai. Afinal, Eveno não tinha que lutar agora contra um rapaz qualquer, mas com o célebre herói Idas, que poderia matá-lo.

Marpessa e Idas
O herói, ao ver o rosto assustado de Marpessa, percebeu o que ela estava pensando e lhe disse bondosamente: - Ouça, linda princesa: não vim para assassinar o seu pai. Nem desejo a sua riqueza, nem o seu trono. Venha, pois, para que fujamos antes do dia nascer.

Marpessa, ao ouvir as sensatas palavras do gentil rapaz, sentiu-se envolvida pela felicidade e prontamente aceitou acompanhar Idas. Ele a fez montar o belo Pégaso, que fora presente do deus Possêidon, e agora corriam rapidamente para a Messênia.

Assim que o rei Eveno tomou conhecimento de que sua filha havia fugido com Idas, chamou Apolo em seu auxílio. O deus de cabelos dourados, que amava Marpessa, aceitou de bom grado ajudá-lo e, como um raio, os dois partiram para alcançá-los.

Entretanto, enquanto atravessavam o rio Licormas, Eveno foi arrastado por suas furiosas águas.  Apolo correu e conseguiu apanhá-lo, mas já era tarde: Eveno tinha morrido. O deus da luz prometeu então ao rei morto que tomaria Marpessa de Idas e a tornaria sua mulher, que seu neto seria um famoso herói. Disse-lhe ainda que, mesmo morto, seu nome seria imortal, porque aquele rio que lhe tomara a vida passaria a se chamar Eveno. E, tendo dito estas palavras, como um raio partiu novamente ao encalço de Idas que, antes de conseguir chegar à Messênia, viu-se face a face com Apolo.

A luta de Apolo e Idas
Idas percebeu de imediato o que o deus queria e, em vez de recuar, entrou rapidamente na frente de Marpessa para protegê-la, enquanto seu olhar taciturno mostrava que estava pronto para tudo. Ele, que não quisera duelar com Eveno, não hesitava agora em se indispor com um deus! Assim, os dois rivais não demoraram a começar a briga.

A luta entre Idas e Apolo foi terrível. Impulsionado por seu amor por Marpessa, Idas avançou sobre Apolo como um leão e Zeus, notando a batalha do alto do Olimpo, quis apartá-los, o que parecia impossível, até que o rei dos deuses decidiu lançar um relâmpago no meio deles.

Ao se separarem o deus dos raios ordenou que lhe pusessem a par do que estava acontecendo:
- Zeus, meu pai – disse Apolo – quero Marpessa para minha esposa e é um grande desrespeito que um mortal queira me impedir!
- Pai dos deuses e dos homens – disse Idas – Marpessa é minha e nada irá me fazer recuar!
Zeus ficou pensativo por alguns instantes e em seguida, virando-se para Marpessa, disse-lhe:
- Linda princesa, você tem todo o direito de escolher sozinha o marido que deseja e eu lhe prometo que será como você decidir!
Marpessa, tendo primeiramente agradecido humildemente ao grande Zeus por aquela decisão, voltou-se para o deus da luz e lhe disse:
Vaso grego mostrando Marpessa entre Apolo e Idas
- Apolo, você é um deus. Goza e sempre gozará de eterna juventude, jamais envelhecerá. Eu, porém, ficarei velha um dia e, então, você me abandonará. Senhor Zeus, há anos vivo sofrendo, destinada a tomar por esposo, caso venha a me casar, o assassino de meu pai. Apenas Idas demonstrou ter amor, sabedoria e bravura sem igual entre todos os meus pretendentes. Eu o amo e quero me tornar sua esposa.

E assim foi, Apolo se submeteu à vontade de Zeus e, cheio de admiração pelo bom senso de Marpessa e pela audácia de Idas, desejou-lhes que vivessem felizes e partiu para Delfos.

Cassandra
Apolo também apaixonou-se por Cassandra, filha de Príamo, o sábio rei de Ílion (Tróia) e ela lhe prometeu que, se o deus da luz lhe ensinasse a arte da predição, a sua mântica solar, ela, de posse dessa habilidade, se entregaria a ele.

Apolo então a acolheu como sua sacerdotisa e a ela foi ensinada a arte da adivinhação, da interpretação da vontade de Zeus, ou da vontade das Moiras, as deusas que fiavam o destino dos homens. Ao final de seu período como neófita nas artes de Apolo, Cassandra se recusou a entregar-se ao mais belo dos deuses e Apolo, ultrajado por haver sido descartado, cuspiu na boca de Cassandra gerando um miasma, uma chaga, que impedia qualquer pessoa de acreditar nas predições de Cassandra, muito embora ela nunca houvesse errado uma única vez sequer.

Um outro efeito do miasma de Apolo foi uma espécie de ‘histeria’ que fazia com que a profetisa não conseguisse se conter ao fazer previsões, que as fizesse sempre aos berros, sacudindo o corpo e arrancando os cabelos, de forma que nunca era acreditada, como quando profetizou que o Cavalo dos gregos, dado de presente para a cidade de Ílion (Tróia) após dez anos de guerra, estava repleto de soldados que incendiariam a cidade à noite.

Calíope
A união de Apolo com a ninfa Calíope deu nascimento ao músico e herói Orfeu. É significativo que tanto Pan quanto Orfeu, conhecidos por sua habilidade musical, sejam filhos de Apolo, o deus da música. Calíope morreu no parto.

Corônis
A bela Coronis, filha de Flégias, rei dos Lápitas, da Tessália, fugia das investidas de Apolo, que conseguiu encurralá-la numa caverna e lá a forçou a entregar-se a ele. Ao saber que Corônis o havia traído, Apolo flecha a princesa na barriga, mas salva o próprio filho, Asclépio, que se torna o patrono da medicina.

Cirene
Depois de várias desventuras amorosas frustradas, Apolo resolve se consultar com seu pai Zeus, que, ao contrário do absurdamente belo filho, não perdia uma conquista amorosa. Zeus lhe aconselhou que, para que se aproximasse de sua escolhida, Apolo se metamorfoseasse em um animal e brincasse um pouco com ela para deixá-la mais à vontade, para que não fugisse dele como era o ‘modus operanti’ das vítimas dos flertes do deus da luz.

Então Apolo, enamorado da náiade Cirene, metamorfoseou-se em uma pequena tartaruga (convenhamos: Zeus se metamorfoseava em cisne, urso, chuvas de prata, tinha um pouco mais de charme) e Cirene se interessou pela pequena tartaruga. Pegou-a, acariciou, brincou com sua cabeça e, já e sentindo bem à vontade com o pequeno réptil, colocou-o em seu colo e o abraçou. Apolo não se contendo mais abriu a boca em direção ao seio de Cirene e o abocanhou com força tal que jorraram gotas de sangue enquanto a bela náiade se desvencilhava do pequeno animal traiçoeiro jogando-o longe.


Ao som da Lira de Ouro
Apolo não conhecia a aflição e, de posse de sua lira, espantava toda e qualquer preocupação e concedia tranqüilidade e alegria. Freqüentemente tocava seu amado instrumento nos banquetes do Olimpo. Quando o deus de cabelos dourados encostava os dedos nas cordas mágicas de sua lira de ouro, as nove Musas corriam alegres para o seu lado e começavam a cantar. Todo o palácio se enchia de doces melodias divinas. Logo vinha a vontade de dançar, saltavam imediatamente as Musas e as Graças e com elas a belíssima Afrodite. Quanto mais aumentava a alegria no Olimpo, mais diminuía a infelicidade na Terra.

Apolo também tinha filhos. Um deles era Pã de pés de bode, o deus dos bosques. Outro filho seu era o célebre médico Asclépio. Sua mãe era Corônis, filha do rei da Tessália. Porém, ela morreu assim que deu à luz. Seu pai então entregou-o nas mãos do maior preceptor que havia no mundo: o centauro Quíron, que morava no verdejante Pélion. Foi junto a Quíron que Asclépio aprendeu tantas coisas sobre medicina e, por fim, superou seu mestre. Além de não haver doença que ele não pudesse tratar, chegou mesmo a ressuscitar mortos! Entretanto, esse grande bem para a humanidade não haveria de durar muito...

 Asclépio
Hades, o inominável, irmão de Zeus e senhor do mundo subterrâneo também denominado Hades, foi se queixar ao seu irmão Zeus da ressurreição dos mortos, pois teve medo de que o reino do mundo inferior ficasse vazio.

Asclépio, herói da medicina
O soberano dos deuses e dos homens, ao ouvir falar da ressurreição dos mortos, pôs-se de pé de um salto, cheio de ira. Suas sobrancelhas se franziam, seus olhos ganharam um brilho de cólera e imediatamente nuvens negras encheram o céu. Começou a relampejar e a trovejar, abalando a terra como se o céu inteiro viesse abaixo.

- Quem é ele para querer modificar a ordem e as leis que existem no mundo? – Gritou com voz de trovão. E, com um raio, atingiu Asclépio imediatementee o enviou ao reino do Hades.

Apolo chorou a perda do filho, porém os homens choraram ainda mais, pois o adoravam, mais até que a muitos deuses. Entretanto, mesmo do reino do mundo inferior, Asclépio tinha forças para ajudar os homens e curar doentes. Toda a Grécia estava cheia de templos de Asclépio e de ‘asclepeions’, que eram como hospitais ou centros de cura, construídos no ponto mais saudável de uma região. Neles os sacerdotes do ‘deus-médico’ cuidavam dos doentes com conselhos, plantas e oraçãoes.

Asclépio ainda contava em seu trabalho com a ajuda de suas filhas, a deusa Hígia e a deusa Panacéia3. A primeira cuidava para que os homens vivessem de forma saudável, para não adoecerem, e a segunda era uma importante farmacêutica. Tinha elaborado ainda um remédio que levava seu nome. Como a ‘panacéia’ não havia outro, era um remédio muito raro, mas curava todas as doenças. Assim diziam...

Apolo e Hélios, quem diabos é o deus-Sol?
O Colosso de Rodes, representando o deus sol Hélios
Sendo o deus do dia e da luz, Apolo não era, contudo, o próprio sol. Conduzia apenas o seu carro, o carro do Sol, e, no desempenho dessa função, tinha o nome de Febo. Vivificava os seres, fazia germinar as plantas e amadurecer os frutos e as searas, purificava a atmosfera e destruía os miasmas, mas era ele igualmente o deus da canícula, das secas; o deus forte e sempre vitorioso, mas também o deus que mata.

Hélios era o deus-Sol, o sol em si, o astro, filho dos titãs Hipérion e Téia, irmão de Eos, deusa da aurora e de Selene, a Lua. Era uma divindade muito atarefada em percorrer o mundo e pouco se envolvia nos assuntos de deuses e homens. Tem uma participação importante em Homero, na Odisséia, onde, em sua ilha, tem seus bois roubados e assados pelos homens de Ulisses.

Apolo na tragédia grega

O Apolo da Oréstia
A Oréstia é uma tragédia de Ésquilo, autor de Prometeu Acorrentado e Os Persas. A Oréstia demonstra de maneira espetacular o conflito que se forma entre o poder decrescente dos deuses e da sua justiça arcaica, a Têmis, e o poder ascendente do homem grego dentro da Polis democrática. O conflito básico em Ésquilo (e também em Sófocles) se dá entre o Cosmo legitimado dos deuses e o poder profano, a independência do homem arquitetada no seu arbítrio que lhe conferia também a responsabilidade por seus atos. Esse homem da Polis grega, responsável por seus atos, é o ‘homem trágico’ de Vernant em sua obra Mito e Tragédia na Grécia Antiga.

O Apolo da Oréstia é um deus Kourós (jovem entre 18 e 19 anos, ainda não adulto e já não mais criança, espécie de pós-adolescente), ligado à iniciação, um guia iniciático de adolescentes em ritos de passagem. O papel do Oráculo de Delfos na Oréstia está ligado à passagem da Têmis (justiça dos valores Homéricos, do pensamento mítico e do homem como objeto dos deuses) para a Dike (justiça alicerçada nos valores da Polis e do cidadão, do homem como sujeito dotado de livre-arbítrio), a um processo de moralização da cultura grega para os moldes da Polis, com a responsabilidade individual como um grande marco, o horror ao crime como uma nova perspectiva e tendo o auto-conhecimento, o famoso ‘conhece-te a ti mesmo’ (em grego gnoti sáuton) inscrito no portal do templo de Apolo, como um conhecimento dos próprios limites, como uma recomendação do métron (a ‘moderação’).

O funcionamento do ‘conhece-te a ti mesmo’ de Apolo e a lógica interna da atuação, a princípio incoerente do deus, é expresso perfeitamente na Oréstia. O primeiro passo é forçar o indivíduo a ir ao seu limite, a cometer um crime, uma Lyssa, uma hamartia, uma ‘falta trágica’, ir às trevas de seu ser, literalmente descer ao mais baixo ponto em que aquele ser humano em especial pode chegar. Apolo, na qualidade de deus de uma tradição patriarcal, pede a Orestes que ‘vingue o assassinato de seu pai’. Orestes, para ser guiado por esse Apolo Kourós, por esse Apolo guia dos jovens em seus ritos iniciáticos, estava com seus 15 ou 16 anos. O segundo passo é descer às trevas interiores, efetuar a Katábasis, que implica em realizar a hamartia, a descer no mais profundo de sua alma, a conhecer, por dentro, as trevas interiores do próprio inconsciente, da própria alma, pois para que Orestes pudesse se vingar do assassinato de seu pai era preciso que ele assassinasse também quem havia tomado a vida de seu pai, e essa era sua mãe, Clitemnestra que, após alguns anos de guerra em que seu marido, Agamêmnon, ficou em terras estrangeiras para resgatar a esposa do irmão, Helena, esposa de Menelau, uniu-se com Egisto, o primo de seu marido, com o qual tramou e executou a morte de Agamêmnon, pai de Orestes. E Orestes, por instrução de Apolo e com a ajuda da irmã Electra, mata a mãe e o tio, chega ao fundo de seu inconsciente, ao limite trágico de sua existência. O terceiro passo é o resgate de Orestes, quando pensa que estará livre de qualquer sanção por haver executado a mãe a mando de Apolo, o espírito da mãe invoca as Eríneas, deusas ancestrais que salvaguardavam a família e o poder do matriarcado para seguir o filho invocando-lhe a culpa e a loucura. Orestes foge das Eríneas e vai ao templo de Apolo em Delfos para que o deus o salve dessa culpa e dessa loucura que o perseguem sempre de perto. É aí que Apolo aparece, como personagem, na Oréstia, em sua terceira parte, nas Eumênides:

Falas de Apolo como guia iniciático, dirigindo-se a Orestes:
- Jamais te trairei! Serei até o fim teu guardião fiel, quer esteja a teu lado, quer nos separem distância intermináveis e em tempo algum protegerei teus inimigos.

- Deves, porém, fugir daqui e ter cuidado. Elas querem continuar a perseguir-te e te procurarão por todos os lugares, tentando sempre te expulsar de onde estiveres em tuas longas caminhadas sem destino, além do mar e das cidades que ele cerca. E não te deixes dominar pelo cansaço enquanto pastoreias tuas desventuras; mas, quando perceberes que afinal chegaste À nobre cidade de Palas (Palas Atena, a deusa, a cidade referida é a cidade de Atenas), ajoelha-te e abraça a imagem antiqüíssima da deusa...

Fala de Apolo como representante da nova geração patriarcal de deuses e sem respeito pela antiga geração:
- Já podes ver as fúrias dominadas; vencidas por pesado sono, ei-las imóveis, estas virgens malditas, filhas antiqüíssimas de um passado remoto (...) criaturas malditas por todos os homens e pelos deuses que se reúnem no Olimpo.

Apolo envia Orestes para Atenas pois não pode efetuar a viagem para Orestes, não pode tirar de Orestes o mérito por haver ido ao mais fundo de seu ser, ao seu último limite, e ter retrocedido plenamente consciente de quem é de que escolhas é capaz. Esse Apolo é plenamente consciente de seu papel como guia e protetor.

Na qualidade de deus purificador, de deus da luz, em contraposição às sombras, aos fantasmas representados pelas Eríneas, essas antigas deusas protetoras do matriarcado e da dimensão pantanosa, nebulosa, terrena e aquosa do princípio feminino, Apolo sai de seu templo infestado pelas Eríneas com o arco na mão pronto para ser usado. Após humilhá-las verbalmente nos versos 235 ao 254: - ‘Abandonai agora mesmo a minha casa! Ordeno-vos! Deixai em paz o santuário onde proclamo profecias verdadeiras; se não obedecerdes sereis atingidas pelas serpentes sibilantes de asas brancas (referência às próprias flechas) que, saltando da corda de meu arco áureo, vos forçarão a vomitar, entre estertores a negra espuma que deveis a tantos homens e a expelir o sangue que sugaste deles!’, demonstra como a questão da aparência é importante para Apolo: - ‘E vosso aspecto é condizente com tal gosto’.

Os sofrimentos de Orestes
A estratégia argumentativa de Apolo para com as Eríneas é impressionante em sua capacidade de reverter os ditos das antigas deusas, mas contém seus hiatos porque coloca em conflito direto duas lógicas essencialmente contrárias e complementares, o matriarcado e o patriarcado. Ao mesmo tempo em que cumpre às Eríneas ‘expelir do lar os matricidas’ [verso 245], Apolo relativiza a questão perguntando-lhes o que faziam quando a mulher, Clitemnestra, mata o marido, Agamêmnon.

Uma questão que fica levantada é a de que, ao instruir Orestes a que procure a deusa Atena ao invés dele mesmo, Apolo, eliminar as Eríneas, Apolo estaria apenas ciente de que Orestes precisava expiar ainda mais sua culpa e a ‘loucura’ de haver chegado ao ponto de assassinar a própria mãe, ou se ele mesmo, Apolo, possuía discernimento suficiente sobre si mesmo para perceber que julgaria Orestes sem uma visão clara do lado representado pelo fantasma de Clitemnestra e suas Eríneas, do lado matriarcal. Ou será que Apolo, como deus das predições, sabia do destino das Eríneas, que haviam de se transformar em Eumênides e mudar sua natureza, ou da importância da criação do tribunal em Atenas para julgar o crime de Orestes?

O Apolo simbólico
Ao surgir durante a noite, na Ilíada, Febo Apolo, deus do arco de prata (canto1), brilha como a lua. Será preciso levar em conta a evolução dos espíritos e a interpretação dos mitos para que se possa reconhecer nele, muito mais tarde, o deus solar, o deus de luz, e para entender que seu arco e suas flechas sejam comparados ao sol com seus raios. Originalmente talvez se relacionasse mais à simbólica lunar. Apresenta-se no canto 1 acima mencionado como um deus vingador de flechas mortíferas: O senhor arqueiro, o toxóforo, o argirotoxo (que tem o arco de prata).
                           
De início revela-se sob o signo da violência e de um orgulho desvairado. Mas, ao reunirem-se elementos diversos de origem nórdica, asiática e do mar Egeu, esse personagem divino torna-se cada vez mais complexo, sintetizando em si inúmeras oposições que consegue dominar, terminando por encarar o ideal de sabedoria que define o milagre grego. Realiza o equilíbrio e a harmonia dos desejos, não pela supressão das pulsões humanas, mas por orientá-las no sentido de uma espiritualização progressiva que se processa graças ao desenvolvimento da consciência.

Deus muito complexo, terrivelmente banalizado quando o reduzem à figura de um homem jovem, sábio e belo, ou quando – numa simplificação do pensamento de Nietzsche – o opõem a Dioniso, como a razão contraposta ao entusiasmo. Pelo contrário, Apolo é o símbolo da vitória sobre a violência, do autodomínio do entusiasmo, da aliança entre a paixão e a razão – filho de um deus (Zeus) e neto (por parte de sua mãe, Leto) de um Titã. Sua sabedoria é fruto de uma conquista, e não uma herança. Todas as potências da vida nele se conjugam a fim de incitá-lo a não encontrar seu equilíbrio senão nos pináculos, e para conduzi-lo da entrada da caverna imensa (Ésquilo) aos cimos dos céus (Plutarco). Apolo simboliza a suprema espiritualização; é um dos mais belos símbolos da ascensão humana.

Texto por Renato Kress
Criador do projeto Mito e Mente

Um Dicionário Conceitual

O blog "Mito e Mente" foi criado para ser uma espécie de "dicionário ensaístico" que englobe temas concernentes aos domínios da mitologia, literatura clássica, psicologia analítica (junguiana), cultura, pensamento social, arte, símbolos, religiões e filosofia.

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