segunda-feira, 21 de abril de 2014

E se pensássemos sobre a Páscoa?

Antes de ser o feriado dos coelhos e ovos de chocolate a páscoa significava, para os católicos, a libertação de todos os que estavam separados de Deus pelo pecado, comemorada junto com o dia da ressurreição de Cristo após a crucificação. Antes disso ela significava, para os judeus, a "Pessach", ou a passagem do anjo da morte que levou os primogênitos egípcios e poupou os primogênitos judeus, abrindo caminho para a fuga dos hebreus (judeus) do Egito e a sua "libertação" da escravidão. Ainda muito antes disso, na Babilônia (antiga Suméria), na mesma época do ano, comemoráva-se o aniversário/ritual da deusa Ishtar (pronuncía-se "Easter"), deusa da fertilidade, da procriação e do constante renascimento da colheita, das flores e do campo. Os símbolos da deusa Ishtar (também conhecida como Inana) eram o coelho, símbolo da promiscuidade criadora e da fertilidade, e o ovo cósmico, que, ao quebrar-se, liberou toda a força e potência criadora do mundo. Essencialmente era uma festa para comemorar a vida!

A esquecida mensagem do vândalo

Temos, na nossa comemoração do que chamamos de Páscoa, a tradição de darmos ovos de chocolate - inexplicavelmente trazidos numa cesta por um coelho bípede - para crianças. Alguns ainda se lembram da "libertação" de um revolucionário (vândalo) judeu que pregava o amor universal, mas a instituição que procura falar em seu nome nem sempre lembra-se de levar a mensagem do jovem que genial e humanísticamente reuniu todo o pentateuco em apenas um mandamento: "Amai ao próximo como a ti mesmo.". Quase ninguém se lembra de Ishtar (embora todos os povos de língua inglesa se refiram à data usando o nome da deusa).

Ishtar, em inglês "Easter", deusa da vida.
Crianças tribais

Quase todos nós nos escondemos (ou nos perdemos) dentro de nossas casas, cobrindo os umbrais de nossas portas com nossa indiferença cega, esperando poder salvaguardar nossas famílias, nossas crianças e a nós mesmos da vinda do "anjo da morte", do terror e da violência que nos visita "lá fora". Na nossa ilusão de pluralismo, ainda somos temerosas crianças tribais.

Fronteiras e zonas de conforto

Criamos nossas portas e acreditamos nelas. Acreditamos que enquanto estivermos "dentro" nos protegeremos dos perigos e incertezas do caos "lá fora". Acreditamos que existe realmente a possibilidade de sermos "escolhidos" ou "preferidos" diante do medo, da morte e da violência que não atravessará nossas fronteiras íntimas e fará vítimas apenas entre os "impuros", os "maculados" pela preguiça, pela pobreza, pela ira de um "Deus" que é justo com os "justos" e injusto com os "injustos". Um "Deus" que poderíamos chamar de ego, ou de comodismo.

Negação e inflação do ego

Criança expulsa de casa
pela Polícia política do Governo
do Rio de Janeiro. Ao fundo a
Catedral da Cidade, que não
abriu suas portas, mantendo
várias famílias "abrigadas"
no seu estacionamento, ao relento.
Foto de Paula Kossatz
Ainda que toda a realidade urre de dor em nossos ouvidos, ou ainda que arrombe nossas retinas, insistimos, como crianças mimadas, que as condições de vida das demais pessoas são consequências únicas das atitudes dessas mesmas pessoas, assim como as nossas vidas dependem unicamente de nós e nossos atos. Insistimos infantilmente em separar o "dentro" e o "fora", o "nós" e os "outros", a "ordem" e o "caos", o "bom" e o "ruim". Ainda alimentamos a fantasia egóica de sermos "escolhidos".

A inconveniente consciência

Sabemos, intimamente, que isso é uma grande mentira! Que um pobre palestino, uma criança negra na Maré e um neto de um magnata não têm as mesmas chances em suas jornadas.

Sabemos, cada vez mais, que o valor de uma vida tem sido medido pelo seu crédito bancário. Sabemos que o medo que instauramos através do terror policial "lá fora" é o mesmo medo, a mesma onda, que rebate num rufar cardíaco nos nossos espaços "aqui dentro". É o medo que vende remédios contra a ansiedade, armas contra a violência, grades, portões e armaduras para as polícias urbanas. É o medo que impede a abertura de uma Catedral para receber refugiados de uma guerra pelo lucro, a mesma guerra de sempre. É o medo da repercussão na mídia que fez com que a polícia avançasse um pouco menos do que pretendia, quando empurrava  mulheres, crianças, mães, pais e recém-nascidos para longe da vista, numa verdadeira via crucis pela cidade do Rio de Janeiro, durante a comemoração da Páscoa. O medo de agredir algum cidadão de classe média que estava se colocando entre as famílias e o avanço da polícia foi o que impediu uma chacina. O medo de ser maculado pela presença dos "impuros" fez com que um representante da Igreja ligasse caixas de som, de madrugada, para cantar no máximo volume, tentando expulsar a "chaga", o "estigma", para longe da "imaculada" casa de um "Deus" esquizofrênico, que ainda não tornou sagrada a vida e sim as relações que multiplicam o lucro.

Esperança, um comichão cardíaco

Esperamos que o Papa consiga reverter essa relação e temos fé num sujeito, o que é muito salutar desde que "oremos e vigiemos". Ainda precisamos de muita humildade e senso de realidade para percebermos que a fé é o combustível para empurrar a montanha, que o combustível não age sem a centelha divina que carregamos em nós: o potencial para amarmos ao próximo como a nós mesmos. Aquele mesmo papo igualitário de perdão e união, a mesma "boa nova" do "vândalo" de Nazaré.

Me pergunto se algum dia, ao invés do medo, comemoraremos com Jesus, com Adonai, Ishtar, Oxalá, Budha, Brahma e Rá, alguma real Páscoa, o ressurgimento, através do ovo cósmico palpitando em nossos peitos, da vida.

Texto por Renato Kress

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Histórias, ou A cura pelo plantio de poemas íntimos

"Conhecer histórias é psicologicamente terapêutico per se. É bom para a alma. Os discursos econômico, científico e histórico são modalidades de histórias que frequentemente fracassam na tentativa de dar à alma aquele sentido imaginativo que ela busca, para a compreensão de sua vida psicológica." - James Hillman

Sementes
Era uma vez uma sensação. Ela vinha toda vez que eu lia um mito, um conto de fadas, uma fábula. MAs ela vinha também quando eu conversava com amigos, quando lia um jornal ou um livro de história. Se eu pudesse descrevê-la fisicamente seria como um dedilhar íntimo, um toque na alma.

É claro que a sensação variava de acordo com o que estivesse preenchendo minha alma naquele momento. Haviam nítidas unhas rasgando as minhas entranhas quando minha vida estivesse girando ao redor de ruminar fracassos, assim como um carinho singelo no peito quando eu estivesse me despedindo de um ente querido ou de uma fase da vida que já não é mais minha.

A identificação com as histórias leva a isso. A essa sensação íntima que, com o tempo, tende a se transformar em sentimento, em pensamento, talvez até intuição. Conhecer histórias é terapêutico porque nos leva a conhecermos melhor a nós mesmos.

Mudas

Muitos dos nossos sentimentos, pensamentos e intuições mais profundos são bloqueados pela velocidade alucinante do nosso cotidiano. Então vamos ao cinema, lemos um livro, paramos numa mesa de bar para conversar com nossos amigos. O que há de comum nesses momentos? Esperamos que nos contem histórias, que nos tragam um mundo que não nos pertence para que possamos, com a devida distância, observar - quase que como um pressentimento - o que daquilo tudo nos toca e nos diz algo. E se diz, com certeza, também é nosso, de alguma maneira.

Tanto é nosso que levamos para casa e deixamos que aquela situação, aquele pensamento ou mesmo até aquela palavra - que talvez não significasse tanto para quem a disse - se desenvolva dentro de nós e nos inquiete por dentro. É dessa inquietação que surgem as descobertas, as soluções mirabolantes, os "insights".

Troncos
Nenhuma idéia genial veio de uma mente tranquila. Quem conhece bem os meandros e as batalhas mentais com deuses descritos por Siddartha Gautama até que ele conseguisse atingir o Nirvana sabe muito bem disso! A mente criativa é um instante em que, no meio de um tornado, se vislumbra o olho do furacão. Dorothy que o diga!

Quem volta do mundo de "Oz", desse espaço das descobertas e das conclusões que nos permitimos quando saímos do lugar comum da repetição do cotidiano, nunca volta o mesmo. Quem volta da "Terra do Nunca" ou de "Nárnia" absorve tanta experiência em um espaço de tempo tão minúsculo que é como se tivesse envelhecido sem envelhecer, é como se tivesse ganho a sabedoria sem ter tido a experiência. Para quem esteve lá, o tempo cronológico não passou.

Galhos
Absorve-se o conhecimento sem a maturação. É como se ativássemos um mecanismo ancestral dentro de nós mesmos e, a partir dali, uma nova fonte de energia e criação brotasse. Imagine, por exemplo, conhecer todos os mecanismos de roldanas, pesos e fontes elétricas que fazem um elevador funcionar. Imagine ser capaz de desmontar e remontar esse elevador, ou mesmo de criar ele a partir de peças soltas. É como aprender uma nova língua ou uma nova cultura, uma nova forma de ver o mundo através da qual, por alguma "mágica", tudo se tornasse mais real e, ao mesmo tempo, mais mágico. É tomar a magia da "criação de elevadores" para si.

Conhecer histórias, contar e vivênciar histórias é tornar-se o "Grande e Poderoso Oz", mesmo sabendo que não há magia e que quem souber olhar atentamente para o "truque" não verá truque nem mágico, mas sim um grande impostor, que se admite impostor - sem nenhum poder mágico real - mas que, ainda assim, faz a mágica dentro de nós!

Afinal, o Leão Medroso recebeu uma dose enorme de "coragem líquida" e tornou-se o rei dos animais, o Espantalho sem cérebro recebeu seu "novo cérebro" recheado de alfinetes e tornou-se rei da Cidade Esmeralda e o Lenhador de Lata recebeu seu "coração de almofada vermelha" e tornou-se o afetuoso guardião da cidade dos Quadlins.

Novas sementes
Conhecer novas histórias é tornar a vida psicologicamente rica e afetivamente saudável. Quem conhece a história do luto, as razões por trás das tradições do uso da cor negra, as formas de "beber o defunto" no interior do Brasil, as histórias por trás dos sepultamentos desde a pré-história, não foge da dor encapsulando a alma em soluções químicas ou farmacológicas. Quem conhece as razões do luto entra naquele estranho mundo da perda e, como recompensa, renasce transformado. Psicologicamente quem conhece o "era uma vez" da morte efetivamente faz a integração natural dos conteúdos significativos da experiência que tivemos em vida, com aquela pessoa.

Quem conhece histórias, ao invés do bate-estaca mórbido da ferocidade das ondas intermináveis de tarefas e dias, torna a vida uma poesia recheada de sempre novos significados.

por Renato Kress

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Mito e Mente II - Ártemis, luar selvagem

Deusa do limiar entre a natureza e a cultura, deusa das crianças, do estado selvagem e das regras da natureza. Tutora das crianças pequenas, ainda em "estado de natureza", a poderosa deusa da lua, intermediadora entre a cidade o campo, entre as cercanias limitadas da consciência e todo o infinito universo do inconsciente.

Bem vindos ao mundo do limiar, aos domínios de Ártemis!

Bem vindos ao quinto encontro Mito e Mente II! 


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INVESTIMENTO:
R$ 53,00

Com direito a:
> Participação no evento
> Contação dos mitos de Ártemis
> Apostila do evento
> Certificado de participação
> Debates e trocas

O investimento deve ser feito com antecedência no Banco do Brasil
Agência 3516-5
Conta Corrente 14.486-x
Cpf: 052652497-96
Renato Kress

== ATENÇÃO ! ==

A fim de que sejamos sustentáveis e evitemos o desperdício, somente serão impressas as apostilas e os certificados dos participantes que confirmarem o pagamento

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QUEIJOS E VINHOS:

O cardápio do terceiro encontro Mito e Mente II será:

Vinhos:
. Alfredo Roca - Malbec (Argentina 2011)
. Sol de Andes - Carmenere (Chile 2011)

Queijos:
. Sardo
. Gouda
. Minas (com orégano e azeite)
. Gruyere

Uvas:
. Verdes
. Roxas

O valor pra a porção de queijos + uma taça de vinhos + uvas é de R$15,00

Demais valores avulsos no cardápio do evento.
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APRESENTADOR E DEBATEDOR:

Renato Kress
Antropólogo, cientista político, especialista em psicologia analítica, diretor do Instituto ATENA e criador dos treinamentos "A Jornada do Herói", "A Arte da guerra Oriental", "Estratégia em Ação" e também do Projeto Mito e Mente I, apresentado através de oito encontros, no ano passado.

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Dando prosseguimento ao sucesso do projeto original "Mito e Mente" do Instituto ATENA que, no ano passado, apresentou oito (8) temas do nosso cotidiano através de vinte e quatro (24) mitos gregos, apresentamos o projeto Mito e Mente II!

Nos encontros Mito e Mente II apresentaremos novos mitos, um a um, com contação dos mitos por completo, espaço para debates, apostilas e certificados de participação!

(Veja as fotos dos eventos anteriores!)
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Será um prazer recebê-los no Espaço Habitat Carioca nessa próxima quinta -feira!

O Espaço Habitat Carioca fica a menos de 100m da saída do metrô Glória, na rua Benjamin Constant número 48

domingo, 15 de setembro de 2013

Hércules, a determinação


Ainda que várias histórias sejam recontadas sobre outras histórias relidas, ainda que a memória esvoace os detalhes íntimos das mais fantásticas fábulas, ainda assim, há um quê que se perpetua e transcende os pormenores perdidos no tempo.





Segundas leituras

Então não se preocupem em demasia com o nexo narrativo. Ao menos não tanto quanto você se preocuparia com o nexo simbólico. O mito é como a realidade, tem uma aparência imediata, uma primeira leitura de atos, nomes e datas, e várias camadas de novas leituras, recheadas de motivações, sentimentos, ardis, emoções e intuições. São essas segundas leituras que nos interessam nos encontros Mito e Mente. 

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No último encontro Mito e Mente II vimos a infância nobre, a tragédia pessoal e familiar, a determinação e os aprendizados de Héracles em seus doze trabalhos. Foram duas horas de mito puro, percepções simbólicas e, no final, dinâmicas e debates de interpretação em grupo. Tudo isso regado a boas doses de queijos e vinhos, no maravilhoso Pub do Espaço Habitat Carioca!

Aqui no blog não cabe, infelizmente, a atmosfera mágica e íntima da contação do mito, das interpretações que fizemos e menos ainda a experiência da noite de símbolos entre vinhos chilenos e argentinos, uvas verdes e cubos de gruyere, sardo, gouda e minas, mas podemos dar uma ideia transcrevendo uma pequena parte da apostila diretamente para o blog.
Senhoras e senhores, bem vindos aos 





Os doze trabalhos de Héracles

Os famosos doze trabalhos são, pois, as provas as quais o reis de Argos, o covarde Euristeu, submeteu seu primo Herácles, por expiação pelo crime familiar, por ter assassinado - ainda que por um ardil dda toda-poderosa deusa Hera - sua primeira esposa Mégara e seus filhos.

“Num plano simbólico, as doze provas configuram um vasto labirinto, cujos meandros, mergulhados nas trevas, o herói terá de percorrer até chegar à luz, onde, despindo a mortalidade, se revestirá do homem novo, recoberto com a indumentária da imortalidade.” – Junito Brandão

Mas calma, querido participante dos encontros Mito e Mente, porque o couro do nosso querido herói ainda tem muito que ser curtido até lá...

O número 12
Nenhum número é por acaso na mitologia. Nem mesmo as três deusas amigas de Hera (três é um número típico para grandes divindades femininas na Grécia), nem muito menos o número doze!

Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, no seu maravilhoso Dicionário de Símbolos: “é o número das divisões espaço-temporais, produto dos quatro pontos cardeais pelos três níveis cósmicos. Divide o céu, visualizado como uma cúpula, em doze setores, os doze signos do zodíaco, mencionados desde a mais alta antiguidade (...) Doze simboliza, pois, o universo em seu desenvolvimento cíclico espaço-temporal. O duodenário, que caracteriza o ano e o zodíaco, representa a multiplicação dos quatro elementos, água, ar, terra e fogo, pelo três princípios alquímicos, enxofre, sal e mercúrio, ou ainda os três estados de cada elemento em suas fases sucessivas: evolução, culminação e involução. (...) Também em torno da Távola Redonda do rei Artur sentavam-se doze cavaleiros. (...) Doze é, por conseguinte, o número de uma realização integral, de um fecho completo, de um uróboro.


-I-
O Leão

O primeiro trabalho que Hera inspirou Euristeu a pedir a Herácles foi a caçada ao Leão de Neméia, uma fera invencível e completamente invulnerável que devastava a região montanhosa da Neméia.

O Leão era neto de Tífon – o monstruoso dragão/serpente que seu pai Zeus teve de fulminar para tomar posse de seu trono entre os deuses. Tífon era tão grande que, ao ser enterrado nas entranhas da terra após sua derrota, formou com seu corpo imortal, uma cordilheira.
Hércules seguiu para a região da Neméia e não teve problemas em encontrar o rastro de sangue e a pilha de cadáveres que levava até a caverna da fera. Preparou-se para o confronto iminente e, assim que avistou o gigantesco animal que tinha a sua altura (três metros de altura, nas quatro patas!) tentou matá-lo com as flechas presenteadas por Apolo. Nada feito.

Hércules percebeu, ao longo de sua rotina diária de batalhas com a fera, que o Leão estava sempre bem disposto e alimentado, o que lhe causou uma grande estranheza porque ele, o herói, estava impedindo que o leão saísse para caçar justamente para tentar matá-lo de fome. Depois de alguma pesquisa pelas cavernas o herói descobriu o motivo: a caverna tinha outras saídas. Todas foram devidamente lacradas por pedras colossais e então o herói decidiu que era hora de “matar ou morrer” naquela inglória primeira tarefa e investiu com tudo contra o monstro.

Depois de muitos arranhões, cortes e mordidas profundas e abalos estrondosos de socos e pontapés trocados, caíram os dois, Herácles e o Leão, arfando pesadamente, um do lado do outro. Foi quando o herói olhou para o leão pensando em quem teria “mais fôlego” para ir até o fim, fosse qual fosse. Então ele percebeu: “Esse desgraçado respira!”. Mais rápido que o raio de seu pai, Herácles saltou para cima do Leão e – inaugurando o golpe “mata leão” – sufocou o animal até a morte.

Percebendo que, depois do tempo gasto para conseguir eliminar o animal, seria quase impossível arrastar todo o seu gigantesco peso a tempo até Euristeu. Viu-se diante de um novo problema: carregar a prova da morte do Leão!

Para isso abriu a pele do Leão com as próprias garras deste e, ainda por cima, fez da pele invulnerável do animal sua armadura cobrindo o peito, os ombros, a cabeça e toda a região das costas! Agora todos os seus desafios e desafiantes teriam de ter a hombridade de atacar de frente!

Ao aparecer para Euristeu com a gigantesca cabeça de leão com suas afiadas presas ao redor da própria cabeça, cruzando os poderosos braços e sorrindo, toda a corte de Argos testemunhou o pulo vergonhoso que o monarca deu, para se esconder dentro de um vaso de bronze, colocado ao lado do trono.


-II-
A Hidra


O segundo trabalho de Herácles era livrar a região de Lerna, um pântano pestilento, da Hidra, outro dos filhos de Tífon! A hidra era uma gigantesca serpente cujo número de cabeças varia entre três a doze. De qualquer forma a cada vez que a espada que Hermes deu ao nosso herói decapitava uma cabeça, duas novas nasciam em seu lugar. Ainda que começasse com três cabeças não demoraria muito para chegar em doze, ou mais.

Nessa jornada o acompanhou seu sobrinho Iolau, filho de seu irmão. Iolau portava uma tocha para iluminar os caminhos fechados do pântano e auxiliar Herácles na batalha.

Não demorou para Herácles pedir a tocha emprestada para “cauterizar” os pescoços logo depois de decapitá-los. Assim a Hidra foi vencida. Uma de suas cabeças era imortal e não importava quantas vezes fosse cortada – ou em quantos pedaços! – ela sempre voltava e se refazia. Então Herácles pegou a maior pedra que pôde encontrar no pântano e esmagou essa última cabeça.

Do corpo da Hidra saiu um sangue negro que, escorrendo por um rio próximo, fez todos os peixes boiarem, mortos, à superfície. Entendendo a potência daquele veneno, Herácles embebeu todas as suas flechas nele e, com isso, se tornou um inimigo ainda mais mortífero.


-III-
O Javali

Quando carcaças gigantescas de diferentes animais teoricamente indestrutíveis começaram a ser lugar comum em Micenas, Euristeu resolve, sempre inspirado pela divina Hera, pedir que Herácles traga um desses monstros vivo!

Havia na Calidônia, região da Hiperbórea (acima da “casa” do vento Bóreas, que é o vento que vem do norte), um enorme javali que, para variar, destruía tudo o que estivesse ao seu redor.

Hércules o domou pelas presas e o trouxe, arrastado e se debatendo, à presença de Euristeu, que, à vista do gigantesco animal negro com suas mandíbulas e língua vermelho-sangue, banhou seu rico trono com sua real urina.


-IV-
A Corça

Bem, se força física não parece ser um problema para o grandioso filho de Alcmena. O jeito é recorrermos a outros tipos de tarefas. Que tal correr? Correr mais do que uma corça, que é o símbolo mítico da velocidade, da agilidade e da elegância e graças femininas. E que tal uma corça sagrada, dedicada à deusa Ártemis, deusa das caçadas e dos animais selvagens? Parece mais interessante, não? Pois é o que Euristeu manda Herácles fazer, e que ela seja trazida viva!

Após chegar na região de Cerínia, uma região inteira de floresta consagrada à deusa Ártemis, o poderoso campeão grego passou um ano correndo atrás da corça. A bem da verdade os primeiros dois meses foram apenas para aprender a diferenciar o barulho do vento da passagem do animal. Daí em diante foi um treinamento diário, constante, ininterrupto, de corrida. Ainda assim o herói só conseguiu pegar o animal arisco porque foi dócil e esperou até que ele entrasse num rio para ir pegá-lo.

Finalmente se apossando da corça, Herácles recebeu a visita inesperada de seus dois irmãos divinos: Apolo e Ártemis, a dona da corça. Nenhum dos dois parecia disposto a deixar Herácles levar a bichinha para o insidioso Euristeu.

Herácles teve de se comprometer em não deixar que a machucassem para que os deuses o deixassem seguir viagem.


-V-
As Aves

Os trabalhos teriam de ser cada vez piores e a dupla Hera e Euristeu não pouparam esforços em suas pesquisas para enviar Herácles aos piores cantos do mundo até então conhecido. A nova modalidade, visto que o herói havia ido bem em matar monstros em terra e água e, também em trazer vivos seres fantásticos, era matar aves. Mas não aves comuns, claro!

As aves do lago Estínfalo eram dezenas de aves com penas de bronze (invulneráveis a flechas normais) que voavam a um quilômetro de altura e se alimentavam de carne humana. A queda de suas penas cuidava de matar pessoas e destruir propriedades ao redor do lago e, não fosse isso problema suficiente, elas se escondiam durante o dia em vários pequenos orifícios em cavernas próximas ao lago. Orifícios pequenos demais para que o gigantesco filho de Zeus conseguisse enfiar as mãos, um a um.

Chegando na região do lago, Herácles começou a fazer barulho e a bater palmas para afugentar as aves de seus esconderijos. Às vezes conseguia fazer uma ou outra sair por alguns instantes e, retesando eu arco com flechas embebidas no venenoso sangue da Hidra, matava-a. A tarefa estava lenta demais. Provavelmente mais lenta do que o tempo que as próprias aves levavam para se reproduzir.

Herácles para, à beira do lago, e pensa no que fazer para afastar aquelas aves todas de uma vez só. Então Hefesto, seu irmão divino e deus da força e dos metais, lhe envia a idéia de aproveitar as inúmeras penas de bronze ao redor e fazer com elas um chocalho. Sacudindo-o no ar sobre a superfície do lago o herói tem a grata surpresa de criar um barulho tão insuportavelmente alto e irritante que as aves todas lançam vôo imediatamente! Ele não perde tempo e as alveja, uma a uma, com suas flechas envenenadas!

De brinde ainda leva novas “ponteiras” para suas novas flechas no futuro: as próprias penas das aves mortas.


-VI-
Os estábulos de Augias

Augias era o gigante rei filho de Hélios, o luminoso deus-sol que tudo vê, e foi o próximo escolhido de Hera para ser agraciado pelos serviços de Herácles. Mas dessa vez nada glorioso como matar grandes feras que acabavam servindo de troféus para o poderoso herói enquanto cruzava a Grécia ou sendo incrementadas ao seu já vasto arsenal. A tarefa era se apresentar a Augias para limpar seus estábulos, carregados com três décadas dos estrumes de bois, cabras e cavalos. Nada glorioso, heróico ou engrandecedor para seu ego.

Herácles tinha um ano para cumprir a tarefa, como teve com cada uma das anteriores e, checando cada espaço do reino de Augias e fazendo pequenas tarefas aqui e ali fazendo o máximo para não ser notado, se apresentou ao rei com uma proposta: limparia todos os estábulos em um dia! Isso, é claro, em troca de um décimo do rebanho do grande rei. Se não conseguisse ficaria como escravo de Augias após servir a Euristeu.

Gargalhando muito, Augias concordou e levou Herácles até a área dos estábulos, onde o herói fingiu estar muito impressionado com as grandes montanhas de esterco e todo tipo de verme e pequenos animais que por ali já criavam seu habitat. Augias deu um tapinha no ombro do herói e foi-se embora, gargalhando.

Herácles desviou a vazão dos rios Alfeu e Peneu para que passassem por dentro do estábulo como um gigantesco tsunami, carregando tudo o que não fosse parede por lá. Em questão de horas o trabalho estava feito e as paredes do estábulo cintilavam!

Augias se negou a honrar o compromisso estabelecido com o Herói e acabou tendo de travar duas guerras contra ele. Motivo pelo qual Herácles acabou mesmo voltando só depois de um ano para junto de Euristeu, mas não sem trazer junto um décimo do rebanho do ex-rei, morto a flechadas por Herácles.


-VII-
O Touro

Euristeu e Hera perceberam que poderiam ter dois grandes novos aliados na batalha contra Herácles: o tempo e o espaço! Estavam enviando o herói para realizar tarefas em terras muito próximas! O próximo trabalho incluiria atravessar o mar e enfrentar um animal fantástico na poderosa ilha de Creta. Além, é claro, de voltar com o animal para comprovar seu feito.

Minos, rei de Creta, havia feito uma promessa a Pósidon, deus dos mares, de que sacrificaria em favor deste último qualquer animal que saísse das águas do mar. Assim conseguiria seus favores na navegação e no seu reino submarino.

Acontece que Pósidon enviou a Minos um touro enorme e majestoso, como nenhum ser humano jamais havia visto. Minos percebeu que, colocando esse touro para procriar com seu rebanho, ele teria um rebanho incrível e poderia negociá-lo a preço de ouro com seus vizinhos comerciais. Então o rei enviou um outro touro para ser sacrificado, na esperança de que Pósidon não notasse a óbvia diferença! Não é preciso dizer que não deu lá muito certo, não é mesmo?

Pósidon, irado, enlouqueceu o touro que havia enviado a Minos. O animal, antes pacífico, começou a soltar chamas pelo nariz e a destruir tudo ao seu redor, parando apenas para dormir. Algumas semanas depois disso Herácles aporta em Creta e se oferece para resolver o problema. Lutando bravamente contra o gigantesco animal, o filho de Zeus consegue prendê-lo pelos chifres e cavalgá-lo sobre o oceano de volta até Micenas. Lá oferece o touro a Euristeu, que se joga dentro do vaso de bronze que ficava ao lado de seu trono e não consegue, sequer, pronunciar palavra, a não ser pensar – apenas pensar, e pensar gaguejando! – que gostaria de oferecer o touro a Hera. A deusa lhe ordena que mande Herácles soltar o animal nas planícies da cidade de Maratona.

Mais tarde esse mesmo touro será um problema para outro herói e amigo de Herácles, Teseu.


-VIII-
As éguas
Como o trabalho anterior fora cumprido quase no limite de tempo estabelecido, Hera e Euristeu, ainda que muito frustrados, sentiram que estavam no caminho certo enviando o herói para lugares longínquos. Então a deusa inspirou Euristeu a lembrar do grande Diomedes, um poderoso filho de Ares, deus da guerra, que habitava os limites do mundo conhecido.

Acontece que Diomedes tinha uma natureza extremamente sádica e havia criado suas famosas éguas alimentando-as com carne humana, o que deixava elas com um ânimo muito parecido com o que tivemos no mal da “vaca louca” alguns anos atrás. A oitava tarefa de Herácles seria ir até Diomedes e domesticar suas éguas, para que fossem pacíficas.

Diomedes ataca Herácles assim que o vê, sem dar sequer tempo para conversa, e, no calor da batalha, o herói joga o filho de Ares, já bem devidamente espancado, na frente das éguas que, após se banquetearem com a carne do seu antigo mestre, magicamente se tornam mansas e tranquilas.


-IX-
O cinturão

Euristeu tinha uma filha, Admeta, uma sacerdotisa de Hera. Com tantos deuses a honrar, a menina tinha que escolher justamente a mesma de seu pai, não é? Maior que a educação é sempre o exemplo. De qualquer forma a princesa Admeta teve uma idéia genial para usar o “office-boy” do pai: usá-lo para conseguir o cinturão da bela e poderosa rainha das amazonas, Hipólita.

Euristeu adorou a ideia. Até então não havia notícias de quem quer que houvesse vencido as amazonas - uma tribo de mulheres guerreiras que usavma os homens apenas para procriação - em combate.

A caminho do seu nono trabalho Herácles já estava ficando famoso e outros heróis se juntaram a ele nessa jornada. Entre eles Teseu, o poderoso herói da cidade de Atenas. Todos chegaram juntos a Temiscyra, lar das amazonas e Herácles se adiantou em conversar com a rainha Hipólita para pedir, educadamente, seu cinturão emprestado. Este cinturão fora dado a Hipólita pelo deus Ares, pela bravura que a rainha demonstrou em combate quando, disputando com outras jovens da cidade, tomou o trono para si.

Hipólita, seja porque simpatizou com Herácles ou porque não queria um confronto com tantos outros guerreiros em seu pais, concedeu em emprestar o cinturão que, obviamente, deveria ser devolvido imediatamente após ser mostrado a Euristeu. Parecia que finalmente o filho de Alcmena conseguiria resolver um trabalho sem sangue, suor e dores.

Mas assim seria muito fácil, não é mesmo? Não satisfeita com a solução diplomática, Hera se metamorfoseou em uma guerreira amazona e começou a ironizar e a achincalhar da bravura dos heróis ali reunidos. Fazia todas as amazonas gargalharem com força e o orgulho ferido dos demais guerreiros foi o suficiente para instaurar a confusão e a guerra.

Hércules, por acidente, assassina Hipólita e, junto com Teseu e os demais, acabam afugentando as amazonas por tempo suficiente para que eles fujam, com o cinturão, claro!
Ainda que Hipólita tenha sido morta o cinturão foi devolvido às suas filhas, logo após adornar a vista da princesa Admeta, que ficou ainda mais frustrada depois de ter tão perto o objeto de seu desejo apenas para vê-lo escapulir por entre seus dedos.

-X-
Os bois

Gerião era neto de Medusa. A górgona, meio serpente meio mulher cujos cabelos de serpente e olhar vermelho sangue tinham o poder de transformar em pedra todos os que o encarassem de frente. A esse tempo Medusa já estava morta pelo bisavô materno de Herácles, Perseu, mas logo depois de morrer Medusa deu à luz a Gerião e ao cavalo alado Pégaso. Pensando no visual da mãe de Gerião dificilmente se espera grandes coisas do filho em matéria de beleza. Pois bem, Gerião era um gigante colossal com três troncos e três cabeças unidas por uma única cintura, de onde saíam seis pernas e seis pés. Parece uma simpatia de sujeito, não?

Pois foi justamente o gado desse “belo rapaz” acima que Euristeu mandou Herácles roubar. Não havia cidade a salvar, monstro a derrotar (talvez só o próprio Gerião, mas este vivia isolado nos confins da terra e não incomodava ninguém) ou qualquer tipo de limpeza que pudesse trazer ainda mais fama e glória ao herói. Era roubo, puro e simples.

Depois de muitos meses andando sozinho – os colegas de expedição haviam feito muita bagunça no encontro com as amazonas e Herácles resolveu viajar desacompanhado – Herácles chega até onde está Gerião. Este possui um gigantesco cão, chamado Ortro, que logo ataca o herói numa tocaia e acaba sendo morto, sob uma chuva de poderosas pancadas que lhe quebraram todos os ossos.

Gerião, assustado pelos barulhos secos das pancadas de Herácles e dos gemidos cada vez mais fracos de seu cão, avança sobre Hércules arremessando pedras. O herói saca suas flechas envenenadas e mata, um a um, os três corpos do gigante.

Carregar o rebanho é que foi a grande tarefa. Ele era grandioso demais e atravessar o mar aberto que separava a ilha de Erítia, onde se escondia o gigante, em direção a Micenas com todos aqueles animais era o verdadeiro desafio. Depois de muito caminhar em direção ao leste o herói ameaça ao próprio deus Hélios, o sol, caso ele não emprestasse sua “taça” (os gregos escreveram “taça”, mas podemos ler “barco”...) para que ele atravessasse o oceano com os bois. No caminho, para lembrar sua façanha por haver ido tão longe, o herói ergue duas enormes colunas que separam a Líbia da Europa. Essas colunas foram chamadas de “Colunas de Herácles”. Ao longo do caminho de volta vários santuários foram sendo erguidos em sua homenagem, à medida em que o herói ia matando monstros, ladrões e criminosos em sua passagem.


-XI-
O Cão

Desesperado com as vitórias consecutivas do herói, agora famoso em toda a Grécia e mesmo fora dela, Euristeu decide mando ao quinto dos infernos! Bem, na verdade não ao quinto, nem exatamente dos infernos, mas sim ao ínfero, ao mundo inferior, morada de Hades, o invisível deus da morte e dos mortos, para buscar Cérbero, o cão de três cabeças, cauda de dragão, pescoço e dorso eriçados de serpentes. Pois é, não é lá uma visão muito animadora.

Na verdade era uma tarefa impossível de ser realizada, mesmo pelo poderoso filho de Zeus, sem alguma ajuda. Nesse trabalho Herácles rezou a Atená que viesse a seu auxílio, oferecendo alguma inspiração que o auxiliasse. Ela lhe chega junto com Hermes, deus da comunicação e condutor dos mortos ao reino de Hades. Enquanto Hermes lhe indica o caminho para o reino de Hades, Atená lhe dá as instruções sobre o que fazer por lá.

Nos territórios de Hades todos os eidolon (espectros) fugiram dele, menos o de Medusa e Meleágro, o herói que havia desposado a poderosa heroína Atalanta.  Herácles promete a Meleágro que, se conseguisse retornar, desposaria sua irmã, a bela Dejanira.

Descendo ainda mais rumo às entranhas da terra Herácles começa a ouvir a voz de Hades, que vem de todos os lados! O herói pediu à voz invisível de seu tio que ele pudesse levar o cão Cérbero para Micenas para mostrá-lo a Euristeu. Hades sorriu e disse-lhe que desde que seu poderoso sobrinho usasse apenas as mãos nuas, poderia levar seu “cãozinho” para “passear”. Contra o poderoso Cérbero, o Herói usou a mesma técnica que aprendera na luta contra o Leão de Neméia: sufocou-o até que ele consentiu em acompanhar o herói.

Vendo Cérbero, com suas três gigantescas cabeças e as cobras que dela saíam, Euristeu, branco como sal, se jogou gritando dentro do seu jarro de bronze.

Herácles ainda teve de escoltar o “fofo” bichano até seu tio de volta. Sua tia/irmã Perséfone, a esposa de Hades, riu muito quando o herói contou-lhe sobre um certo “veneno nauseabundo” que Euristeu teria exalado dentro do jarro, após vislumbrar Cérbero...


-XII-
A maçã

Quando Hera casou-se com Zeus recebeu de “vovó” Gaia, como presente de núpcias, uma árvore que frutificava as maçãs de ouro puro! A esposa de Zeus as achou tão belas que plantou a árvore no seu jardim, no extremo Ocidente. Ali por perto estava Atlas, o titã – divindade primitiva – primo de Zeus e Hera, que fora condenado a sustentar Úrano - o “vovô” céu que fora castrado por seu filho Crono - para que este não caísse sobre a “vovó” Gaia e esmagasse a humanidade e os deuses. As filhas de Atlas ficaram encarregadas de cuidar do Jardim de Hera, junto com um poderoso dragão, imortal, de cem cabeças, que nunca dormia.
Depois de uma exaustiva viagem até os confins do mundo conhecido (dizem que em direção ao que hoje chamaríamos de “Continente Americano”), Herácles encontrou o gigantesco Atlas, no alto da mais alta das montanhas, erguendo e segurando, sobre os potentes ombros, todo o poderoso ‘Céu Estrelado’, como naquele tempo chamava-se “vovô” Úrano.

Conversando com Atlas e fazendo amizade com esse gigante isolado no fim do mundo, Hércules propôs uma troca. Ele ficaria ali segurando o céu enquanto Atlas – que conhecia o dragão de Hera e era pai Hespérides - iria até o Jardim e pegaria um dos pomos para o herói.

Assim foi feito, mas, na volta, Atlas começou a pensar que era bem cômodo não ter de segurar mais o Céu e, ao chegar até Herácles, resolveu que não trocaria mais de lugar com o Herói. Herácles aceitou imediatamente, sem titubear, só pediu que Atlas, rapidamente, segurasse um pouquinho o Céu novamente para que o filho de Zeus pudesse ajeitar a pele do Leão de Neméia que estava coçando. Assim que Atlas segurou o Céu, Herácles agradeceu pelo pomo dourado e despediu-se!

O pomo dourado significa, também, a entrada no reino dos deuses. É a fruta que, se provada por um mortal, torna-o imortal, é o convite, a entrada para o reino do Olimpo.


Várias aventuras ainda foram travadas pelo grande herói, mas, depois de voltar com a maçã de ouro para seu covarde primo Euristeu e oferecê-la, o próprio Herácles, em honra da toda poderosa Hera, eles, finalmente, fizeram as pazes.


Após os 12 trabalhos...
Muitas outras aventuras ocorreram depois e mesmo durante os doze trabalhos até que Héracles morresse e ascendesse como um deus aos céus, para casar-se com Hebe, a deusa da eterna juventude. Mas esse é um assunto para outro encontro, um outro dia...

por Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
criador dos encontros Mito e Mente I e Mito e Mente II

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A Carência Essencial (e a Farsa de Hermes)

Somos tantas coisas, não é mesmo? Sempre tive um comichão, uma espécie de incômodo pessoal, em responder à questão "você é o quê?" com a mesma resposta que eu daria à pergunta "você faz o quê?". Nós não somos o que fazemos, mas para poupar a nós mesmos dos embaraços desse assunto que não ousamos tocar nem mesmo nos recônditos sagrados das sessões de terapia, acabamos respondendo com a 'persona' (o nosso "cartão de visitas" socialmente validado) quando perguntados sobre o 'Self' (a totalidade da nossa vida psíquica, da qual, obviamente, não fazemos lá muita ideia).

Seres e circunstâncias
Somos o que fazemos das nossas circunstâncias, sem dúvida. Mas para além dos triunfos de nossas vontades pessoais, somos principalmente o que é possível fazer da matéria prima de nossas circunstâncias. Das nossas circunstâncias mentais, sociais, emocionais, físicas, familiares, culturais etc. Somos produtos de nossos meios enquanto somos, também, meios para a produção de novos seres. E qual a nossa circunstância cultural atual?

A farsa de Hermes
Vivemos sob uma situação social, cultural e psicológica que gosto de chamar de "Farsa de Hermes", em poucas palavras: uma situação em que somos sempre encorajados a adiar o pensamento e a resolução efetiva das raízes de nossos problemas enquanto somos entretidos pelo circo digital, financeiro e sexual dos impulsos de consumo imediato. Isso acontece em praticamente todas as esferas da nossa cultura, por um motivo bem simples: temos sido educados para a carência, em todos os sentidos.

Como já expliquei em diversos outros artigos defendo a ideia de que somente uma quantidade avassaladora de pessoas carentes - no mais vasto espectro do termo 'carente'; aquele que carece, que necessita, que depende de algo, ou aquele que se define enquanto ser humano pela sua situação de dependência de algo externo - consegue dar conta de consumir os paliativos que a nossa sociedade produz quase beirando à velocidade da luz. Produz-se muito mais do que é possível consumir de forma sustentável para o meio ambiente e é necessário que haja consumidores para essa produção. Como fazer isso? Criando uma sociedade dependente, uma cultura cujo membro típico se caracterize pela carência essencial. Que tipo de mecanismo é esse?

Mitos e estrutura da psique 
Quando usei a expressão "Farsa de Hermes" não expliquei suas raízes. Vamos a ela. Hermes é o deus grego da comunicação, velocidade, transporte, da magia (especificamente a prestigitação, movimentos rápidos das mãos que fazem aparecer ou desaparecer algum objeto pequeno, carta etc), do mercado financeiro, dos mentirosos, dos ladrões, dos médicos cirurgiões, diplomatas, comerciantes, oradores etc. Enfim, o que tem a ver com ganhos financeiros a curto prazo, comunicação e trocas é com ele. Contanto um pouco do mito sempre ilustramos melhor.

O mito de Hermes 
As primeiras descrições do mito de Hermes datam do período arcaico da cultura grega. Uma das mais importantes consta no Hino Homérico a Hermes, uma criação anônima dos séculos VII ou VI a.C. que trata de seu nascimento e primeiras proezas.


O Hino abre com uma saudação ao deus, chamando-o de "Senhor do Monte Cilene e da Arcádia, dos rebanhos de ovelhas e mensageiro dos deuses". Também o nomeia como filho de Zeus, fruto de seu amor adulterino com Maia, uma ninfa filha de Atlas e Pleione, a mais velha, sábia e bela de sete irmãs, as Plêiades.

Vivendo em uma caverna, escondida dos olhares humanos e principalmente do notório e tempestuoso ciúme de Hera, esposa de Zeus, Maia deu à luz "esta engenhosa criança, este hábil planejador de artifícios, o perseguidor e capturador de gado, o pastor dos sonhos, este cidadão da noite que espreita nos umbrais". Não demorou para mostrar sua origem divina: nascido pela manhã, já ao meio-dia estava tocando a lira, e à tardinha furtou o gado de Apolo.


O roubo do gado de Apolo
Sentindo fome, saiu para espiar os arredores, já imaginando astúcias. O sol se punha, e Hermes se dirigiu às montanhas de Piera, onde pastava o gado de Apolo, seu irmão mais velho. Do rebanho, ele tirou cinqüenta vacas, e as conduziu, tangendo-as com um bastão, por caminhos labirínticos para evitar ser seguido através dos rastros. Também amarrou-as todas e fez com que andassem de marcha-a-ré, com o mesmo objetivo, e para si confeccionou um par de sandálias mágicas com folhas de tamareira e mirtilo, para que pudesse deslizar pelo caminho e prosseguir com rapidez, sem deixar pegadas reconhecíveis.


O Mestre dos Ladrões
Voltou em seguida para a gruta, passou pelo portão através do buraco da fechadura sob a forma de fumaça ou névoa, e deitou no berço como se nada acontecera. Sua mãe, porém, que suspeitava do filho, repreendeu-o, dizendo que, ao concebê-lo, Zeus havia criado um problema tanto para os deuses como para os homens. Hermes, entretanto, replicou vigorosamente, afirmando sem temor sua origem divina e reivindicando um tratamento igual ao que recebia seu meio-irmão Apolo. Se Zeus o negasse, ele se transformaria num príncipe dos ladrões. Se Apolo o perseguisse, destruiria seu santuário e tomaria seu ouro. Ainda assim o deus da previdência e adivinhação partiu direto para a cova onde Hermes nascera, e o encontrou fingindo dormir, em seu berço. Perscrutou o lugar com sua luz, mas não encontrou o gado, e exigiu do bebê que revelasse onde o escondera, sob severas ameaças. Hermes negou qualquer conhecimento do caso, e alegando sua pouca idade, disse que jamais poderia ter sido o autor do furto, além de acrescentar que seria um tanto ridículo da parte do todo poderoso Apolo ser furtado e enganado por um bebê recém-nascido. Apolo não se deixou iludir, e entre aborrecido e divertido, chamando-o de enganador e ardiloso, previu que em muitas noites Hermes penetraria nas casas dos homens e silenciosamente os privaria de seus bens, e tomaria o gado dos pobres pastores. Assim ganharia fama como Mestre dos Ladrões.

Trocando favores 
Hermes tomou da lira e começou a cantar toda a teogonia (poema que narra o nascimento dos deuses gregos), celebrando Mnemosina, deusa da memória, acima de todos os deuses. Encantado, Apolo disse que sua canção valia bem cinquenta vacas, parecia superior a tudo que ele mesmo, como deus da música, conhecia, e que a disputa poderia encerrar em paz. E jurou fazer do irmão um líder entre os imortais, prometendo conceder-lhe muitos dons. Hermes, louvando o irmão, disse que por sua vez lhe dava a ciência desse novo canto e da execução da lira, recomendando que os praticasse com dignidade.

Zeus concebe mais benezes
Zeus confirmou os dons de Apolo sobre Hermes, e acrescentou outros: atribuiu-lhe o comando das aves divinatórias, dos leões, dos ursos, dos cães e de todos os rebanhos da Terra, além de fazê-lo mensageiro junto ao Hades, função de grande prestígio.


Os reinos de Hermes
Hermes, esse deus ladrão, mentiroso, ardiloso e brincalhão reina em todo espaço onde imperam trocas, principalmente as trocas que envolvem dinheiro e mais especificamente as que lidam com vocabulários específicos, difíceis de decifrar, impossíveis para os "não-iniciados", como o nosso economês! A língua dos economistas, como a língua dos médicos e a língua dos acadêmicos é um instrumento de poder! É uma linguagem cifrada, difícil, "hermética"! É através de seu caráter obscuro e de difícil tradução que ela requer o papel do "tradutor", palavra que tem a mesma raiz da palavra "traidor" (a similaridade ainda pode ser observada nas palavras "tradutore" e "traditore", respectivamente 'tradutor' e 'traidor' em italiano, por exemplo). Hermes reina no campo da tecnologia, do Mercado financeiro e têm expandido seus domínios! 

Estruturas da psique
Mitos são narrativas através das quais podemos perceber o funcionamento das estruturas inerentes ao pensamento humano. Através desses relatos de tempos imemoriais podemos ver a interação de arquétipos (tipos primitivos de filtros perceptuais entre nossa consciência e nosso inconsciente) ou o funcionamento de complexos (sistemas integrados e abertos de dados afetivos, cognitivos e somáticos que são ativados por gatilhos específicos) em nossas mentes. O mito de Hermes nos traz uma faceta possível para o pensamento humano: a razão econômica pura, a mentalidade centrada no lucro acima de qualquer coisa. O complexo psicológico do lucro.

Onde está a Farsa?
Digo que estamos submersos na "Farsa de Hermes" porque estamos submersos numa sociedade que nos vende a ideia constante de que a felicidade é um bem ou uma experiência consumível, pela qual há um valor específico que pode ser somado e gasto resolvendo para sempre essa questão. Uma sociedade em que haja o que houver, estejamos onde estivermos, ocorra o que for conosco, teremos sempre a doce ilusão de que podemos transformar qualquer fato isolado (principalmente os fatos trágicos) em produtos cercados por uma constelação de subprodutos através dos quais venderemos nossa tragédia como uma história de superação do espírito humano.

É tudo fumaça e espelhos!
Sendo mais específico: Vivemos numa sociedade tão espetacularizada pela ilusão de lucro fácil que ainda que me caia o prédio, eu perca todos os bens, uma perna e metade dos meus parentes, ainda serei incentivado a participar de um reality show, escrever um livro de memórias - que será um best seller por ao menos duas semanas! -, participar de seis ou sete programas de entrevistas e enriquecer às custas da minha tragédia pessoal. É a lógica da razão econômica a todo custo, a razão do faturamento, do crescimento desordenado e sem bases, afinal Hermes tem asas nos pés! Ele não tem estrutura nenhuma! Ele não cria, ele copia e cola, homogeniza o conhecimento, reduz a criatividade a um trabalho de cópia seguido de um esforço enorme para esconder suas fontes. É o deus do "jeitinho", do "quanto é que eu levo nisso?", do "o que o Mercado está pedindo agora?", do "Pra onde o vento sopra hoje?", do movimento sem destino, da educação sem aprendizado, do dinheiro virtual, da imagem, da fumaça e dos espelhos.


Hermes precisa que você precise

O pior fantasma para uma sociedade centrada no ideal de Hermes do lucro acima de tudo é o sujeito que busca a própria autonomia, o sujeito que consome o necessário e não o supérfluo, o sujeito que cria e que consegue ter condições psicológicas e íntimas de criticar construtivamente as criações desse próprio pensamento do lucro acima de tudo.

Hermes precisa que você precise e precise, principalmente, do impreciso. Quando menos definido melhor, porque nesse caso qualquer coisa serve! Observe bem e não se engane, porque "qualquer coisa" é o que você terá, nesse caso! Uma avalanche monstruosa de "quaisquer coisas" eletrônicas, cheirosas, cortadas, do tecido, da marca, da cor, da loja, do nome, da sigla etc. Mas é necessário essencialmente que você precise, de algo impreciso, e sempre!

A alma do homem sob o Hermetismo de mercado
Desconectado do incômodo que a materialidade é para Hermes - ele nunca se deu bem com sua mãe, princípio feminino, visceral e material de sua existência, mas sempre se deu maravilhosamente bem com seu pai, princípio etéreo e intelectual de seu ser - o homem não pode mais vivenciar seu luto, sua depressão, sua perda, sua dor. Pensemos em direções: Nada do que coloque o homem "para baixo" ou "para dentro" é possível no pensamento desse Hermes superficial da nossa sociedade contemporânea, só o que o coloque "para cima" e "para fora"!

A grande esquizofrenia
Observemos como, submersos que estamos nessa lógica hermética do discurso, já transformamos as expressões: "para baixo" significa depressivo, triste, enfadonho, chato, enquanto "para cima" se torna sinônimo de alegre, extasiante, divertido, interessante etc. Quando nos perguntam quem somos, como no início do texto, a forma como nos posicionamos perante o mundo já é um dado pelo qual seremos identificados, mas o julgamento sempre fala mais do juiz que do julgado, claro.

Acreditando nessas divisões e nos significados fechados delas, ignorando inclusive a faceta profunda do próprio Hermes enquanto deus que visita o submundo e leva nossa alma (sem deixar, para o bem ou para o mal, que levemos nenhuma de nossas riquezas), é também corrermos o risco de rompermos o vínculo entre matéria e existência, entre nosso corpo, seus processos e velocidades íntimos e quem nós somos. É aí que temos a grande esquizofrenia de nossa época, a ideia de que pães nascem em sacos nas prateleiras, leites vêm em caixas e celulares nascem nas vitrines das lojas, da mesma forma como a felicidade embrulhada e perene é possível a todos, menos a nós, que estamos sozinhos depressivos quando todo o resto da humanidade está numa mega festa de arromba para a qual nós fomos os únicos que não foram convidados.

O ponto cego
É aí que geramos a ansiedade, é desse caldeirão que nasce a insegurança, a incerteza, a desorientação e é para sanar o incontrolável turbilhão de desespero desse estado que estão à venda todas as formas imagináveis de produtos, serviços, remédios, eventos e "experiências" de consumo. Cada um dos quais foi projetado para criar um looping infinito de novos produtos, serviços, remédios, eventos e "experiências" de consumo contíguas e infinitas. Do remédio projetado para criar efeitos colaterais que venderão novos remédios às políticas econômicas ditadas pelo FMI que desencadearão um novo pedido de ajuda ao próprio FMI passando pela obsolescência programada de eletrodomésticos e aos modismos da auto-ajuda gerencial de mercado. É aí, no turbilhão das ofertas de ilusão, que está a Farsa de Hermes.




Texto por Renato Kress

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Por que zumbis agora?

por Renato Kress

Toda literatura, cinematografia ou expressão artística da ordem da fantasia atende a uma espécie de desejo implícito por expressão de uma intuição ou representação cultural. Penso a que tipo de intuição ou representação a nova leitura do antigo tema dos zumbis pela nossa sociedade contemporânea esteja atendendo. O que vemos nos zumbis? Mais especificamente, por quê dentre tantas criaturas fantásticas do nosso infinito imaginário, estamos nos identificando tanto especificamente com esses mortos-vivos? 

Origem do mito zumbi
A existência dos zumbis (ou "zombis") faz parte das crenças religiosas de vários povos africanos. Reconstituindo a origem linguistica dessa palavra,  Pierre Anglade (1998) destaca a sua presença tanto entre os Fon de Benin quanto em Camarões, no Congo ou em Angola. É na região do Congo que o termo adquire o seu sentido mais forte, já que "zumbi" significa "espírito dos mortos". Na mesma linha Onzambi quer dizer Deus, como é o caso da palavra Nzambi em Angola e na língua kikogo.


Segundo Harold Courlander (1973, p.257): "The word zombie may come from the West african term ombwiri. In the British West Indies the word Jumbie is used loosely to mean ghost or devil"

Cadáveres do Caribe
A representação sobre a palavra Jumbie utilizada, também, no Caribe é preciosa. Ela mostra como, pelas deformações fonéticas, um sentido persiste nos diferentes usos da palavra zumbi e nas suas variantes. Esse sentido ofensivo e misterioso ao mesmo tempo, pode ser encontrado tanto no Caribe quanto no Brasil, onde Zumbi foi, também, o nome de um importante chefe de escravos que se revoltaram no século XVIII e fizeram de Palmares o local de sua resistência. Mas essa é outra história.

Um vivo-morto ou um morto-vivo?
Da palavra congolesa zumbi, que significa "espírito dos mortos", à haitiana zombi, que se traduz em francês por mort-vivant e em inglês por living dead, há, ao mesmo tempo, continuidade e variação de sentido. Enquanto no francês começa-se pela morte, no inglês, começa-se pela vida. Seria então o zumbi mais caracterizado pelos sintomas de um ou de outro? Na língua haitiana a palavra não se impõe sobre este aspecto. O zumbi (zombie) é ao mesmo tempo vivo e morto, sem ênfase em nenhuma das possibilidades.

Do Congo ao Caribe
Então a figura do zumbi vai variar segundo o modo pelo qual é evocada em uma lenda africana, em um boato haitiano, numa notícia de jornal ou num filme ou seriado em Hollywood. Roger Bastide diz que o termo zombis, utilizado para designar os mortos-vivos, significa "aqueles cuja alma foi devorada por um feiticeiro", é o zumbi dos Congos, espírito dos mortos, almas do outro mundo (revenants), que adquiriram no Caribe um sentido ligeiramente diferente.

O zumbi no Vodu haitiano
O vodu haitiano reconhece que todo ser humano é dotado de uma alma composta por dois elementos: o grande anjo-bom e o pequeno anjo-bom. Esses dois elementos, indispensáveis ao bom funcionamento da consciência do sujeito, não são, entretanto, dotados da mesma capacidade de resistir às intervenções exteriores. Enquanto é impossível afetar o grande anjo-bom, o mesmo não acontece com o pequeno anjo-bom. Qualquer um pode tornar-se mestre do pequeno anjo-bom de outra pessoa. Essa condição de posse lhe permite transformar a sua vítima em zumbi.


É interessante pensar a quais consequências chegaríamos se, considerando a vastidão incomensurável do que Carl Gustav Jung considera como tendo os conteúdos do inconsciente (nesse caso abrangendo os inconscientes pessoal e coletivo) e a limitação dos conteúdos da consciência, relêssemos o parágrafo anterior substituindo os termos "grande anjo-bom" por "inconsciente" e "pequeno anjo-bom" por "consciente". Nesse caso teria o poder de "zumbificar" quem tivesse o poder sobre a consciência do outro.

O homem sem vontade
O indivíduo destituído do controle de seu pequeno anjo-bom (domínio de sua consciência) não é mais que uma espécie de autômato que agirá sob as ordens daquele que se tornou seu mestre. Ele simplesmente é incapaz de se opor àquele que lhe ordena fazer qualquer coisa. É um homem sem vontade.



Um ato de vontade é uma irrupção de coragem sobre o oceano primordial das potencialidades do inconsciente. Esse ato de vontade necessita de alguma forma de pressão, de profundidade, de uma carga psíquica, afetiva ou somática que não é encorajada numa sociedade celerada e superficial como a nossa.

Túmulos e asfaltos: Zonas de conforto e ação
Indivíduo tido por morto, que havia sido enterrado e, em seguida, trazido à vida por aquele que o colocara em estado de catalepsia, o zumbi haitiano não retorna do além-túmulo por sua própria vontade, mas, sim obrigado pela ação de seu mestre. Fico pensando até que ponto muitas propostas de treinamento de caráter "motivacional" não se estruturam sob essa perspectiva dualista e rasa: "Não pense, aja!" disfarçadas sob os rótulos simplificadíssimos de "Zona de Ação" e "Zona de Conforto". É algo a se observar, não?


O motivo pelo qual se zumbifica no Haiti é para se servir da força de trabalho de uma pessoa. Desde a dimensão teleológica (finalista) da crença à condição de posse do pequeno anjo-bom de um indivíduo, é necessário acrescentar uma dimensão sociológica que vem da experiência histórica dos haitianos, cujos pais, outrora, foram conduzidos da África para a América para servir de escravos aos europeus. Essa mudança foi vivenciada como uma espécie de grande morte daquela sociedade. Afinal, toda grande mudança operada numa cultura de uma sociedade tradicional (ou arcaica) é experimentada como uma espécie de morte, de transmutação. Cabe ao povo ressignificar as características do renascimento sob novas condições em novas terras.

Morte em vida
Simbolicamente a mudança funcionou para os africanos como o inverso da fuga dos judeus do Egito. Eles não passaram para o território da nova vida, mas para o território da constante morte. Morte de sua vontade, de sua cultura, de sua força, de suas mentes. A humilhação e a opressão desses povos contribuiu para o desenvolvimento do mito dos zumbis que, apesar de já existir na África, ganhou nova ênfase e novas leituras nas Américas.


Início da moda zumbi
A partir de 1915, data da ocupação militar do Haiti pelos Estados Unidos, houve um revezamento entre escritores e cineastas estadunidenses. The Magic Island, livro publicado em 1929 e que serviu de base para a realização e um filme produzido mais tarde, é a mais célebre das narrativas de viagem evidenciando os episódios e interpretando os zumbis. E será esse livro que lançará a moda do zumbi e dará o tom para a sua representação no cinema de Hollywood.

Guerra de imagens
Em uma guerra de imagens, cujo objetivo é atacar ridicularizando o adversário, o personagem do zumbi foi utilizado como uma metonímia do vodu, o qual simbolizaria a barbárie aos olhos do público ocidental. Falar sobre vodu significa falar sobre canibalismo e condenar a característica que marca, ao olhos do público ocidental, os cultos africanos. Ignora-se, nesse caminho, a riqueza íntima do tema mítico dos zumbis.

Tipos de zumbis
Nas narrativas concebidas fora do Haiti o zumbi é uniformemente um personagem lúgubre, maléfico, que semeia o terror por onde passa. No Haiti, ao contrário, há todo o tipo de zumbis.

Zumbis Bossales: É melhor se manter afastado desses tipos. São os tipos mais conhecidos pela cultura ocidental contemporânea. Sem intelecto, capazes apenas de seguir uma ordem simples de seus mestres e de executar tarefas repetitivas e mecânicas. Esse tipo de zumbi foi associado, na fantasia do cinema, à antropofagia (canibalismo) e, principalmente, ao seu peculiar apetite por cérebros. Uma questão de compreensão do mecanismo da antropofagia - que consiste em adquirir as habilidades e conhecimentos daquilo que se come - misturada com uma projeção simbólica do que lhes faltaria (no caso consciência e capacidade cognitiva, cérebros). Ao meu ver esse tipo de zumbificação é muito bem representado na obra "Tempos Modernos".

Zumbis guardiões: Espécie de zumbis dedicada a guardar alguma espécie de tesouro - normalmente abandonado por algum colono de Santo Domingo, antes de sua fuga diante dos revolucionários haitianos. O interessante é que todas as narrativas a respeito desse tema mostram um zumbi com um certo grau de autonomia pois em todos os casos, com o afastamento longo ou permanente do seu antigo mestre, o zumbi perde a paciência de esperar seu retorno e, furioso e desejando pôr um fim ao seu trabalho, entrega o tesouro ao primeiro que chega. Muitos no Haiti esperam ter a prodigiosa chance de encontrar com esse zumbi "pote de ouro no fim do arco-íris".

Zumbis mannmannan: Tipo que as crianças chamam em canções para auxiliá-las, por exemplo, para "capturar a pequena galinha que escapou" (wi wa kenbe ti poulèt ban mwen!). É uma espécie de zumbi puer, de zumbi de criança dado a travessuras, truques e sumiços de objetos importantes.


Indústria Farmacêutica
Observando esses tipos digamos "naturais" da mítica do zumbi no Haiti, imediatamente me vêem à mente os tipos de zumbis mais comuns ao nosso cotidiano cinematográfico ou televisivo. Um dos mais comuns são os zumbis de laboratório. Alguma experiência genética mal sucedida dá origem a seres semi-mortos (ou semi-vivos, à escolha do freguês) cujos atos são desprovidos de consciência moral e cujo raciocínio é ou inexistente ou regredido ao que Freud chamaria de "Id" (inconsciente ou esfera das 'pulsões').


Fracasso da vontade
A vivência da perda de significado, de sentido profundo, causado por uma sociedade celerada onde a informação - que conforma e não forma - nos indica uma necessidade crescente de disposição para suportar uma carga afetiva, física e intelectual de trabalho constante com toda forma de repouso ou ócio direcionada direta ou indiretamente para o consumo não nos dá tempo para digerir os processos emocionais naturais da vida humana. Um efeito semelhante ao causado pelo autor do texto ao escrever essa frase anterior sem quase nenhuma pausa, só que bem pior. É preciso que sejamos autômatos, que executemos nosso trabalho, que estejamos felizes, bonitos, barbeados ou maquiados, elegantes e bem-sucedidos, caso contrário não estaremos sendo fortes (ou "resilientes") o suficiente. Não é preciso falar sobre a perversidade desse sistema de constante derrota da vontade, do raciocínio e da criatividade humana. É preciso perguntar, apenas, se o zumbi está cabisbaixo na poltrona ou pulando à base de comprimidos.

Deixo o carinho de um curta de animação genial da Vancouver Film School sobre o tema:
http://www.youtube.com/watch?v=STN8tzUcYHY

por Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA

Um Dicionário Conceitual

O blog "Mito e Mente" foi criado para ser uma espécie de "dicionário ensaístico" que englobe temas concernentes aos domínios da mitologia, literatura clássica, psicologia analítica (junguiana), cultura, pensamento social, arte, símbolos, religiões e filosofia.

Aqui os verbetes não serão apenas definições, mas englobarão também pequenos ensaios críticos, análíticos e, porventura, sintéticos.

O Blog "mito e mente" está incluso no projeto Arquetelos de estudos transdisciplinares de mitologia e religiões comparadas.