quarta-feira, 11 de julho de 2012

Zeus, trecho da apostila do terceiro encontro Mito e Mente: Gerações


"Zeus, o legislador aflito
Em uma religião em que divindades se sobrepõem sobre um significado e que significados sobrepõem-se sobre uma única divindade, a divindade suprema é o superlativo dos mais diversos significados que englobam o arquétipo-guia, o fio condutor, legislador e mantenedor da ordem. Numa realidade mitológica rica, complexa e densa como a grega a divindade suprema representa também a descida às trevas e o retorno, a vitória, da luz renascida.

Zeus, palavra que advém do indo-europeu “deiws” e do índico “dyaus”, donde advém “dyaus pitar” [deus pai], que gerou o latim diou+piter  Júpiter, ou o germano “tues” (tues + Day  Tuesday, o dia de Deus, Zeus, Odin, Wotan...), donde se conclui que, para além das significâncias conjugadas, a principal função de Zeus, aquela que se sobressai no cruzamento das culturas, é a de ser “pai”. Portanto na cultura e na religião gregas Zeus representava e servia de arquétipo para a estruturação moral, intelectual e espiritual dos homens e dos deuses, representando a lei, as instituições da Pólis (cidade) e do logos (razão).

Para uma boa descrição da representação de Zeus dentro da mitologia grega, seria proveitoso destrinchar o termo logos e as suas concepções, todas relacionadas ao princípio Jupteriano de alicerce universal. Em Heráclito, o Logos seria o princípio cósmico que confere ordem e racionalidade ao mundo, de forma análoga a como a razão humana ordena a ação humana, portanto Zeus representa tanto a ordem mundial quanto a consciência humana, em sua luminosidade sobre nossos demônios interiores, como um padrão ético ou arquétipo moral. No estoicismo temos a razão seminal (logos spermátikós) que é a fonte cósmica da ordem: seus aspectos são o destino, a providência e a natureza, características que se confundem, dentro das histórias da mitologia, com a área de poder e influência de Zeus. O logos têm ainda uma outra perspectiva: permite-nos apreender os princípios e as formas, ou seja, um aspecto da nossa razão. Esta noção está presente na idéia posterior de leis da natureza, se forme concebidas como princípios independentes, reguladores do curso natural dos acontecimentos, existindo, no entanto, além desse mundo temporal que regulam. Essa é, em parte, a representação de Zeus, ponto onde o Grande Pai, Legislador, Senhor e Herói grego convergem no logos.

Simbolismo do rei dos Deuses
Em Chevalier Zeus representa “o reino do espírito. É o organizador do mundo exterior e interior; é dele que depende a regularidade das leis físicas, sociais, morais.”. Ele é, segundo Mircea Eliade “o arquétipo do chefe da família patriarcal. Deus da luz, é o soberano pai dos deuses e dos homens”. Em Ésquilo “Zeus é o éter. Zeus é a Terra. Zeus é o Céu. Sim, Zeus é tudo o que há acima de tudo”.

Ainda em Chevalier “a concepção de Zeus como divindade surema e como força universal evoluiu muito a partir dos poemas homéricos e chegou, entre os filósofos helenísticos, à concepção de uma providência única. Entre os estóicos Zeus é o símbolo do Deus único que encarna o Cosmo. As leis do mundo não passam de um pensamento de Zeus. O mito de Zeus é o de um líder nato, do qual advém todo o poder e a justificação de todo o autocratismo e que reveste as formas diversas do pai, do mestre, do professor, do chefe, do patrão, do proprietário, do juiz, do marido, do ser que detém o segredo e de quem depende a iniciativa em todas as coisas”.

Destes pontos de interpretação da figura divina de Zeus podemos compreender o epíteto de “Zeus Polieus”, protetor da Pólis e das Leis, e também da compreensão de que o reinado de Zeus equivale ao reinado do espírito soberano que ordena o cosmo segundo os princípios racionais e justos.
Patrono de heróis, o modelo maior de heroísmo

Sendo o modelo do ideal de todo herói, Zeus é chamado “pai dos deuses e dos homens”, protegendo e guiando seus filhos mortais para que se tornem grandes heróis. Zeus passa por várias “mortes simbólicas”, ritos de passagem, “regressus ad uterum” (regresso, volta ao útero), Unio Mysticas (uniões sagradas com um fim maior), e uma mutilação, que representa a marca física de uma mudança espiritual, uma condição para o renascimento constante do herói em novos estágios da existência. Essa mutilação representa uma diferenciação de Zeus perante seus irmãos (principalmente os homens, Hades e Pósidon, que em muitas versões míticas ao gêmeos), uma eleição, tanto quanto uma maldição, a condição de ímpar, de único. Como guia de seus filhos mortais nesses mesmos ritos Zeus também não deixa a desejar, mostrando mais uma vez ser a personificação do superlativo em tudo a que se propõe.

Representações e espelhamentos filiais
Algumas representações de Zeus podem ser encontradas nas façanhas de seus filhos, a exemplo de Hércules, seu filho mais famoso: em nenhum momento, em todas as suas aventuras dentro dos famosos 12 trabalhos impostos por Hera (esposa enciumada de Zeus que vingava-se no rebento ilegítimo de seu marido, pois não tinha como se rebelar contra o todo-poderoso pai dos deuses) através de Euristeu, Hércules deixou de usar o raciocínio, o logos, a consciência, para livrar-se dos desafios ou para usá-los como alavancas que facilitassem a resolução da próxima etapa de sua jornada. O uso da inteligência, da sapiência, constantemente, assim como a honestidade e o empenho incansável na busca da redenção e do perdão pelo crime cometido, faz de Hércules um representação em menor escala dos atributos positivos de seu pai. O mesmo se efetua em suas beberagens e façanhas exuais. Essa questão justifica tanto o apoio de seu pai em suas empreitadas e a companhia da Vitória (Nike, uma deusa que acompanhava a Zeus e Atená), atributo paterno de Hércules, quanto sua posterior Apoteosis, sua ascensão ao caráter de divindade.

Trajetória de um Deus-Rei
Representando o superlativo da centralização de funções e poderes já desde o seu nascimento e toda a sua trajetória de disputas, iniciações e casamentos antes e depois do seu casamento oficial com Hera, Zeus era o deus de quem dependiam o Céu, a Terra, a Polis (cidade), a família (patriarcal) e os homens. A vitória de Zeus contra os Titãs e contra Tífon representa a vitória da luz sobre as trevas, da ordem sobre o caos (Kháos, divindade primordial indiferenciada), da consciência sobre os instintos animais.

Casamentos, projetos de poder
O casamento de Zeus com Têmis (deusa primordial da Justiça) e a reestruturação do significado do ideal de Justiça para os gregos foi um importante passo para a depuração do sistema judiciário grego.
O posterior casamento oficial de Zeus com Hera pode representar um apaziguamento com o qual Zeus teve de arcar com uma divindade essencialmente representante das mulheres, principalmente como esposas, e protetora do casamento, assuntos e questões que, por natureza patriarcal e onipotente, Zeus, a princípio, não se mostrava muito disposto a considerar.

Segundo Sir J.G. Frazer em “O Ramo Dourado”, o relacionamento de Zeus com Hera representava, também, principalmente, uma união do céu chuvoso, como logos spermátikos, como chuva-esperma que fecunda a terra num casamento das forças vegetativas, com a intenção de evitar o fracasso das colheitas. Essa visão pode contar com a perspectiva de que Hera fosse uma filha de Réa e, portanto, uma divindade também de alguma forma terrena ou que Hra fosse, de alguma maneira, assim como – embora em escala possivelmente inferior – Deméter, uma herdeira do trono matriarcal-telúrico(tereno) de Gaia e Réa.
Após seu casamento com Têmis, Zeus é o deus supremo da Justiça, pois distribui com equidade as alegrias e as tristezas, os bens e os males. É o modelo de toda soberania, conferindo poder e legitimidade às leis, instituições e reis humanos. A característica de Zeus como um deus da execução judicial está mais explícita em Homero, onde, em diversas cenas de batalhas centrais da ilíada, o pai dos deuses coloca sobre uma balança de ouro a “quer”, o destino, o peso do destino de cada combatente, determinando quem irá perecer e quem irá sair vencedor.

Com mil raios e trovões
Zeus também é o deus dos fenômenos atmosféricos, ele é o “acumulador de nuvens”, “o que faz chover”, “o de nuvens negras”, “o que lança raios”, o “trovejante”. Essa característica está ligada a dois ramos interpretativos que comungam uma raiz única. A princípio a raiz física, material, da chuva enquanto símbolo da fecundidade da terra e da renovação da vida (que apazigua os ânimos de Gaia), como o céu que faz amor com a terra e gera o novo fruto, como no mito de Perséfone, Deméter, Hades e Zeus. E, por último, mas não menos importante, seu caráter espiritualizado, divino, superior, elevado tanto no sentido olímpico – fato de estar no pico de uma montanha – quanto no sentido de elevação espiritual, de compreensão dos significados ocultos da vida e dos grandes ciclos da existência histórica grega.

A maldição familiar
O casamento de Zeus com Métis dá a Zeus sua filha preferida Atená. Essa é a primeira vez das várias em que Zeus se livra da maldição familiar. Na obra “Prometeu Acorrentado” deste último, Prometeu revela a Zeus de forma indireta, após ter sido libertado por Hércules, que o Cronida seria destronado pelo filho que teria do caso que mantinha com Tétis, uma oceânide lindíssima, pois o fiho que esta tivesse estaria predestinado a ser muito mais poderoso do que o próprio pai. Compreendendo o recado e, sempre ciente do fantasma de sua maldição familiar, Zeus apressou-se em forçar o casamento de Tétis com um humano, do qual, por mais poderoso que lhe saísse o filho, não representaria risco para o grande trovejante. Graças a mais esta situação em que Zeus “driblou” seu destino familiar, o seu daimon da genós, toda uma raça de heróis e semideuses pereceu em Tróia. Tanto no caso de Atena e sua mãe, assumida como característica de Zeus num ato que lembra o padrão de Cronos em devorar seus “problemas”, quanto em Aquiles é possível que o padrão da maldição familiar seja rompido, mas nuna sem grandez perdas ou “regressões perigosas” para Zeus e seus protegidos.

Outras uniões de Zeus
Outras várias foram as uniões do rei dos deuses. Com Maia gera Hermes, com Leto gera Apolo e Ártemis. Quanto aos “casamentos” de Zeus com mulheres mortais temos Alcmena, que gerou Hércules, Sêmele que gerou Dioniso, Leda que gerou Helena, Clitemnestra, Cástor e Pólux, Io com quem gerou Épafo e Dânae, com quem gerou Perseu, um dos primeiros heróis gregos, além de várias outras escapulidelas menos memoráveis.

Nada melhor, para terminar a decrição das atribuições de Zeus, que o hino a Zeus, de Cleanto (nascido em 331 a.C.) que marca o auge dessa ascenção de Zeus ao espírito dos homens, até que ele se torne um único deus onipotente, onisciente e muito mais próximo da idéia católica de divindade, que resolverá ter um filho-herói, fundador de uma instituição, que terá novos subdeuses, os santos, e semideuses, os beatos... enfim, ao hino:

“Salve tu, o mais glorioso dos Imortais, Tu que és designado por tantos nomes diferentes, Zeus, eternamente todo-poderoso, tu que és o autor da natureza, e que governas com lei todas as coisas!...
Tanto és em todo lugar senhor supremo do universo inteiro quanto nada na Terra, ó deus, nada acontece sem ti; nada no céu eterno e divino; nada no mar. Nada a não ser o que realiza a loucura dos maus, mas tu sabes reduzir à justa medida o que é excessivo, impor a ordem ao que é desordem e tornar amigas as coisas que te são inimigas...”

- Trecho da apostila do terceiro encontro Mito e Mente; Gerações: De Úrano a Zeus, de Zeus a Dioniso, de Atreu a Orestes, maldições e resgates em família.

Texto de Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador do projeto Mito e Mente

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Encontros Mito e Mente, um olhar cotidiano sobre a mitologia

"A verdade é que a gente não faz filhos, só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final" - Luis Fernando Veríssimo

É maravilhoso quando percebemos que um filho nosso ganhou mundo, que se estabeleceu e está dando poderosos e novos passos na criação de sua própria história, que vai sempre muito além do que poderíamos ter planejado ou imaginado para aquele filho. Está sendo assim com o ciclo de encontros que denomino Mito e Mente.

Um ciclo de oito encontros de três horas cada onde discutiríamos um tema contemporâneo através de três mitos, com debates abertos com o público no final e certificados de participação. Esse é o Projeto Mito e Mente. Nosso plano inicial era que esses encontros fossem quinzenais e apresentados no espaço do Studio Oficina, no Rio de Janeiro. Esse era o plano inicial. Mas existem crianças que são verdadeiros prodígios e demonstram um talento excepcional já em tenra idade.

Estamos na iminência de fazer nosso terceiro encontro: "Gerações: de Úrano a Zeus, de Zeus a Dioniso, de Atreu a Orestes, maldições e resgates em família" e já temos data e viagem marcada para levar os dois primeiros encontros a Brasília e a possibilidade de levarmos a Salvador também!

Um panorama do conceito Mito e Mente
Todos que já estiveram presentes nos encontros Mito e Mente realizados sabem que estes são em número de oito, mas, até agora, eu não havia ainda dado o panorama completo, com as artes, as capas e os conteúdos trabalhados em cada encontro. Vamos então a eles:


No encontro 'Alicerces: Édipo, Aquiles, Hermes e seus pés' trabalhamos  como a relação de Édipo (o de ´pés inchados´), Aquiles (o de ´pés ligeiros´ e calcanhar vulnerável) e Hermes (o de ´pés alados´) com seus pés vai influenciar suas jornadas ao longo de suas vidas, sua relação com a matéria, com suas respectivas mães, com a verdade e a mentira.
Discutimos nesse encontro sobre verdades e mentiras, relações de idealização, negação e aversão à mãe, à matéria e ao mundo físico.



No encontro 'Inimigos Íntimos: Minotauro, Hidra, sereias, perigos e potências' trabalhamos com "o outro", não retomamos o mito através de seus Heróis (Teseu, Hércules e Odisseu/Ulisses), mas através de seus inimigos e da relação que estes famosos heróis gregos estabelecem com eles. A partir daqui discutiremos as relações que temos com o "não-eu", com aquele que nos irrita, nos fascina, nos desequilibra, nos instiga, nos encanta e nos amplia a visão sobre a vida e o universo.



No encontro 'Gerações: De Úrano a Zeus, de Zeus a Dioniso, de Atreu a Orestes, maldições e resgates em família' trabalharemos as relações familiares de Zeus com seus antepassados e com seus sucessores observando a mudança na própria natureza e caráter do deus e também a família de Atreu, família real grega descendente de Zeus. Discutiremos padrões herdados, sejam eles filiais, mentais, culturais, sociais ou políticos e como obter consciência sobre esses padrões para permanecer ou sair deles, com mérito.

No encontro 'Vendetta: Hera, Clitemnestra, Medeia e a vingança feminina', trabalharemos as grandes figuras femininas da mitologia da vingança, Hera, a poderosa deusa do matrimônio, da superiodidade, do poder, esposa de Zeus e perpetradora das mais cruéis vinganças contra suas amantes, Clitemnestra, cujo marido assassinou sua primogênita por ambição e Medeia, que assassinou os próprios filhos para eliminar a progênie do marido. Discutiremos a vingança e as formas de expressão da repressão afetiva, intelectual e existencial.

No encontro 'O Barqueiro: Hades, Elíseos, Tártaro e a morte no mito grego' trabalharemos os significados da morte em Homero e em Hesíodo, os locais para onde vão cada tipo de morto, falaremos sobre a morte gloriosa e inglória, sobre a morte como passagem, punição e recompensa. Discutiremos nossa relação contemporânea com o tempo e a finitude, com a decrepitude, a velhice e a senilidade, nossa aversão e negação às ideias de morte e finitude e suas consequências em nossa vida e maturação.


No encontro 'De Sangue: Helena e Clitemnestra, Cástor e Pólux, Apolo e Ártemis, mitos da fraternidade' trabalharemos os mitos de irmandade, as relações de amor, ódio, inveja, companheirismo, identidade, competição e simbiose efetuados por irmãos. Discutiremos a construção da relação de culturas irmãs, preferência paterna ou materna, disputa e integração de leituras diversas de uma mesma realidade.

No encontro 'Por Amor: Psiquê, Afrodite, Penélope, a luta, as provas e a resistência' trataremos do tema do amor. Do amor que busca, se sacrifica e morre para renascer em Psiquê, do amor que impõe provas, limites e desafios para entregar seu maior bem ou para testar os limites da vontade e do amor alheio em Afrodite, do amor que resiste, que espera, que tem fé, em Penélope. Discutiremos as possibilidades, desafios e potencialidades do amor em nossa sociedade contemporânea.

No encontro 'Em nome do pai: Crono, Zeus, Agamêmnon, luz e sombra do masculino' trataremos de ampliar o espectro interpretativo sobre a figura do 'grande pai', explicitando suas formas de ação, a natureza de sua condição simbólica, suas facetas luminosas e sombrias, sua relação com a resistência e a desobediência, sua violência e seu resgate. Discutiremos os grandes sistemas de dominação e leitura do mundo, capitalismo, internet, sistemas políticos e religiosos e suas relações com o poder.



Nosso Caldeirão Criativo



A maior vocação dos encontro Mito e Mente é justamente podermos levar a um debate rico, profundo e enriquecedor sobre diversos temas de nossa sociedade através de uma perspectiva que possa nos ampliar as leituras, a compreensão e a ver nosso cotidiano de uma forma mais criativa, dinâmica e passível de ser ressignificada, repensada e recriada!

Minha parte preferida, nos encontros, é justamente a troca poderosa, inquietante e verdadeiramente poderosa de nosso "caldeirão criativo".

"Dê a seu filho raízes. Mais tarde, asas." - Provérbio Judaico

Só posso agradecer a todos os que deram asas às aspirações desse filho que criei no Instituto ATENA, esse filho fruto da minha paixão por mitos, por psicologia analítica, por sociologia e ciência política. Esse filho prolífico, rico e maravilhosamente mais vasto que minhas primeiras aspirações para ele. Obrigado ao Thiago Greco, no Studio Oficina, a Lu Anastácio que me ajuda na revisão das apostilas e na criação dos encontros, a Ana Virgínia e Rosi Rosa em Brasília que me convidaram para levar essa proposta adiante, ao Fabio Steinberger que me ajuda a levar esse projeto para novas paragens, aos meus queridos amigos, alunos, participantes, hoje e sempre, obrigado por acreditarem nessa minha proposta, nessa minha paixão.

Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador dos Encontros Mito e Mente

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Ciclo de Seminários "Mito e Mente"

Uma conversa informal, uma ideia simples e apaixonante!
Sempre ficava me perguntando como poderia levar a riqueza da mitologia e suas correlações com a nossa cultura ocidental e principalmente com as nossas vidas cotidianas para as pessoas. Através de uma conversa com a minha ex-aluna da Jornada do Herói
®, a Lu Anastáciotivemos a ideia de criar um seminário de três horas de duração sobre algum tema específico da mitologia grega. Lembrei de alguns anos atrás quando tive um problema no pé e tive que tomar antibiótico por umas duas semanas e, logo depois, caí de bicicleta e abri o calcanhar, que levou 4 pontos, quando dei por mim estava estudando mitos com ênfases nos pés e comecei a perceber o quão rica e significativa era toda a questão. Então pensei: vamos começar pela base! Vamos falar de "pés". 
Eu e Lu Anastácio
na Jornada do Herói

Começando pela base...
Pensei nos "pés inchados" do Édipo, nos tornozelos costurados de Zeus, no calcanhar do Aquiles, no Prometeu amarrado pelos pés, na sandália que o Jasão perde atravessando o rio com a deusa Hera disfarçada de velhinha sobre seus ombros, nos pés alados de Hermes... a lista continuava! Então pensamos em algo mais simples e compacto, algo que coubesse em três horas, com espaço para perguntas, dúvidas, discussões abertas, um espaço para diálogos e troca. Diminuímos tudo para três mitos. Para abarcar o conteúdo simbólico dos pés resolvemos tirar Zeus e Prometeu que têm, ambos, simbolismos mais interessantes para outros assuntos no futuro.

Cortando os excessos
Ficamos com Édipo, Aquiles e Hermes. Ainda assim são mitos grandes! Então experimentei contar os mitos deles para a Lu e, ainda que fossem muito grandes, não levaram mais do que vinte minutos cada para serem contados. Então decidimos que seria possível colocar tudo num 'seminário' (prefiro esta palavra à inglesa 'workshop') de três horas de duração, dando espaço para análises psicológicas, culturais e simbólicas e, principalmente, espaço para a troca com os participantes. Tudo ficou extremamente sedutor nas nossas cabeças, delicioso como um bom café, que estávamos tomando.

Criando um pequeno universo
Mas (eu bem sei) café, como tudo o que nos excita e anima, é viciante! Nem bem passamos da euforia inicial da criação mental dos "Pés" e já estávamos anotando em guardanapos vários temas para outros no mesmo esquema: 1 tema, 3 horas, 3 mitos: vingança, conflitos de geração, amor, dinâmica do inconsciente, o grande pai, a grande mãe, a morte... Definimos que iríamos parar em oito! Estava lá presente também Cronos para dar o limite, claro!

Tijolo por tijolo e um apoio afetuoso de um grande amigo


Thiago Greco, nosso patrono
dos seminários no
Studio Oficina
Levamos a ideia para casa. Eu criava, a Lu revisava. Arquivos de word, power point e imagens, muitas imagens para cá e para lá durante algumas semanas até uma primeira versão final.  Toda nova ideia, todo novo universo precisa de dimensões: tempo e espaço, para crescer e frutificar. Era preciso um horário e um local para que essa nova empreitada pudesse frutificar, então levamos ao nosso querido Thiago Greco no Studio Oficina e (para a nossa alegria!) ele curtiu a ideia e cedeu um dia e horário para darmos à luz a nossa criação!


Então está aí, o primeiro Seminário, já com o nome estudado e melhorado: "Alicerces: Édipo, Aquiles, Hermes e seus pés", o primeiro do ciclo de seminários "Mito e Mente". 







Desenvolveremos ao longo desses seminários as correlações simbólicas, culturais e psíquicas do mito com a nossa vida cotidiana, medos, desejos, esperanças e padrões, trazendo toda a riqueza do universo mítico grego para dentro da nossa vida contemporânea.

Todos os encontros terão:
* Contação de mitos
* Apostilas para acompanhamento e guias de estudo dos temas
* Coffee-Break
* Certificados

Temas abordados no seminário: "Alicerces: Édipo, Aquiles, Hermes e seus pés"

* A relação dos pés com os recursos da alma
* Condição psíquica do manco/coxo
* A interação com a terra e a relação com a mãe nos três mitos
* A questão da criança divina e o problema dos pés
* Rastros, trilhas, pegadas e seus significados
* O pé como chave, ponto e elo
* O pé como símbolo de humildade, submissão, poder e suporte


Entre em contato e confirme sua participação!

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DATA: 13 de junho (quarta feira) das 19:30 às 22:30

LOCAL: STUDIO OFICINA

Marquês de Abrantes 185, 2o andar, Flamengo, Rio de Janeiro

INSCRIÇÕES: Studio@studiooficina.com.br
(21) 2147-1782

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EM BREVE:
Inimigos Íntimos: Minotauros, Hidras, Sereias, perigos e potências



sexta-feira, 27 de abril de 2012

Trickster: o iluminado trapaceiro das trevas

Calendário Asteca. A espera do
próximo jogo universal...
Quando vemos artigos sobre símbolos, mitos e crenças muitas vezes perdemos a ligação entre aqueles símbolos e o cotidiano natural de uma sociedade. Sorrisos são linguagem universal e assim também a graça, a brincadeira, o jogo, o lúdico. Através dele aprendemos muitas coisas, introjetamos conceitos, crenças e valores que vão alicerçando não só as regras da sociedade em que vivemos, mas principalmente quem somos diante dessas regras e o quanto precisaremos esgarçar uma margem de manobra para expressar nossa personalidade ou se, com sorte, nossa personalidade se adequa bem à sociedade em que vivemos.



Eu só estava brincando...
Segundo o historiador especializado em Roma Antiga A. Piganiol, a função principal dos "ludi" (ludens, lúdico, brincar) era conservar uma força sagrada à qual estava ligada a vida da natureza, de um grupo humano ou de uma personalidade importante. Os jogos rituais constituíam o meio exemplar de rejuvenescer o mundo e os deuses, os mortos e os vivos. Entre as principais ocasiões em que eram celebrados os "ludi", temos os aniversários dos deuses agrários (cerimônias sazonais como a Páscoa etc), os aniversários das vitórias (para reforçar a força divina que garantiu a vitoria) ou a inauguração de um novo período (neste caso os jogos "tinham como objetivo garantir a renovação do mundo, ou até um novo término do mundo").

Brincar, jogar, interpretar é também uma forma de apreender os conceitos da sociedade e cultura em que estamos inseridos. Por isso é importante o estudo da brincadeira e do jogo contemporâneos. Porque eles são fatores importantíssimos de socialização. Quando estava na minha graduação quis fazer uma monografia sobre "cultura infantil" e fui obrigado a desistir do tema, porque os estudos na área eram extremamente escassos e, segundo alguns professores, eu não teria bibliografia suficiente para levar a empreitada a um bom termo. Fiquei impressionado como o consenso sobre a infância ser a principal fase de socialização do indivíduo e como, mesmo assim, essa fase é tão pouco estudada.

Só pode ser brincadeira!
Muitos estudos haviam, a meu ver perversos, no campo do marketing e da propaganda. Estudos aliando consumo, psicologia infantil e técnicas de venda. Isso também é um retrato claro dos valores da sociedade ocidental capitalista.

Mas voltemos à brincadeira. Na Grécia instiuíram-se jogos olímpicos para relembrar grandes vitórias sejam elas míticas ou militares e até hoje corremos a "Maratona" porque os atenienses venceram a primeira Guerra Médica contra os persas e Filípides, um soldado considerado o melhor dos corredores atenienses, teve de correr 42km entre o campo de batalha e a cidade de Atenas para impedir que as mulheres atenienses fossem adiante com o plano de assassinarem seus filhos e suicidarem-se para não serem escravizados caso os persas vencessem.

Na prática a teoria é um jogo
Atualmente a "teoria dos jogos", uma forma de avaliação do comportamento humano e suas decisões em ambientes complexos como uma sociedade, saiu da pura aplicação matemática para ramos como a estratégia militar, jogos de computadores, desenvolvimento de inteligência artificial, ciência política, ética, economia, filosofia, jornalismo, cibernética e outros. Amplos campos integrados onde resultados nunca ou quase nunca têm consequências retilíneas e uniformes, como sociedades, famílias, empresas ou a mente humana, podem ser usados como objetos de pesquisa para compreender a dinâmica envolvida nas atitudes, motivações e consequências dos movimentos dentro do "jogo".

O problema do jogo é que ele, em si, pode querer jogar de volta conosco. Pode haver um "metajogo" nessa dinâmica toda, afinal, em sistemas complexos - abertos à interação com variáveis não consideradas a princípio - os resultados são sempre muito próximos do caos. O que ocorre é que a quantidade de dados e variáveis e serem considerados é exaustivamente grande, forçando um recorte que não invalida a teoria, mas retira muito de sua força.

O trapaceiro
O que o mito pode nos ensinar em relação aos jogos? Creio que a melhor forma de compreendermos os limites dos jogos é estudarmos a figura mítica que vive nesses limites, o "Trickster", o "pregador de peças" ou "trapaceiro".

Thor luta contra Loki
Ordem e Caos em jogo
Geralmente representado como uma divindade, o Trickster quebra as regras dos deuses, da natureza ou da sociedade. Pode ocorrer de ele inaugurar novas regras, mas em geral ele está mais atento a quebrar padrões que a construir novos parâmetros. Pode acontecer de ele ser essencialmente perverso e mal-intencionado, como Loki, o meio-irmão do deus nórdico Thor, mas o que mais fascina nessas figuras é que, em geral, ainda que de uma forma involuntária, ele tem efeitos positivos ou cria as condições de sua própria derrota. O Trickster pode ser astuto ou tolo ou ambos, é uma figura nebulosa por definição. Frequentemente são engraçados e cômicos, mesmo quando considerados sagrados e perigosos.

"Para Jung, tal simbolismo se refere à hamonização psiquica de Animus e Anima (imagens internas da Psique para Masculino e Feminino), dinâmica importante no processo de individuação. Loki, o trickster nórdico, também troca de sexo. Curiosamente, ele compartilha a capacidade de alterar os sexos com Odin, o deus nórdico que preside ao panteão, que também possui muitas características Tricksters (Malandro). No caso da gravidez de Loki, ele foi obrigado pelos deuses a parar um gigante, ele resolveu o problema ao se transformar em uma égua e atrair o cavalo mágico do gigante para longe. Voltou algum tempo depois com uma criança que tinha dado à luz, o cavalo de oito patas Sleipnir, que serviu como montaria a Odin." - Trickster, Wikipedia, artigo.

Brinca comigo?
Se não pode (con)vencê-los, confunda-os!
O arqui-inimigo do Batman, Coringa, é um Trickster. Ele subverte as regras sociais e gosta de colocar à prova os valores dos indivíduos e as certezas principalmente do personagem principal. De qualquer forma o confronto com essa figura mítica do limiar da ordem sempre vai trazer um reforço para o status quo. Seja reestruturando em novos moldes a ordem que existe, seja abrindo espaço para a estruturação de uma nova. É na adversidade que se testam os limites das nossas certezas.

Tudo isso é parte natural do movimento da libido na nossa dinâmica psíquica. Enquanto há vida há regra e quebra, certeza e dúvida. Enquanto há dúvida há inquietação, movimento, vida.

E você? Já abocanhou seu bocado de caos hoje?

Texto por: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ensaio sobre o Mito

[Postagem em constante re-edição]


"O mito é o nada que é tudo" - Fernando Pessoa

A narrativa
O mito é a mais antiga forma de conhecimento, de consciência existencial e, ao mesmo tempo, de representação religiosa sobre a origem do mundo, sobre os fenômenos naturais e a vida humana. Deriva do grego Mythos, palavra, narração ou mesmo discurso, e dos verbos mytheyo (contar, narrar) e mytheo (anunciar, conversar). Sua função, portanto, é a de descrever, lembrar e interpretar todas as origens, seja ela a do cosmo (cosmogonia), dos deuses (teogonia), das forças e fenômenos naturais (vento, chuva, relâmpago, acidente geográfico), seja a das causas primordiais que impuseram ao homem as suas condições de vida e seus comportamentos. O mito é, em essência, a narrativa que traz sentido à nossa realidade, a trama de significados sem os quais nossa vida não tem sentido. 

O mito e suas teorias
O mito pode ser compreendido como uma narrativa sacra envolvendo seres sobrenaturais e incorporando à consciência coletiva, o mito é entretecido de crenças populares a respeito da humanidade e do mundo social, bem como da natureza e significado do universo. Ao longo do século XIX, várias escolas de pensamento se debruçaram sobre a interpretação dos mitos. As teorias do mito que desenvolveram podem ser divididas em psicológicas, funcionalistas, estruturalistas e políticas.


Caos e Cosmos
O mito é a primeira manifestação de um sentido para o mundo.  Quando contamos histórias a nossos filhos pra ilustrar as leis, costumes e funcionamento do mundo estamos contando um mito que é real à medida em que agimos de acordo com ele. É como uma grande lente interpretativa da realidade, mas para isso ele deve abarcar as histórias da origem, deve responder a questões sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O mito dota o ser humano de um senso de propósito.

Os mitos tanto podem relatar as genealogias (as gerações sucessivas desde o primeiro ser ou causa), como explicar os atributos dos seres e das coisas (poderes e capacidades). Outra característica comum a diversas mitologias, em seus aspectos cosmogônicos (explicação sobre a geração do cosmos), é a existência primeva do caos, ou seja, de um estado amorfo ou indiferenciado de elementos - as trevas, o oceano primordial, o espaço infinito, o Céu e a Terra ainda fundidos, o Ovo Cósmico, o Todo são imagens comuns a muitas mitologias ao redor do mundo. Em todas as mitologias do planeta é a partir do caos que se dá a criação do cosmo, de um conjunto de partes diferenciadas ou mesmo opostas (terra-céu, líquido-seco, noite-dia), mas ordenadas e mutuamente dependentes.

Antropologia do século XIX e abordagens psicológicas
Os antropólogos do século XIX interessados na evolução e difusão de culturas buscaram descobrir a origem dos mitos, interpretando-os como pensamento não-científico e registros incompletos de eventos históricos. As abordagens psicanalíticas desenvolvidas por Sigmund Freud, em vez disso, tenderam a buscar no mito temas de conflito psíquico universal (repressão, tabu do incesto, inveja dos irmãos, complexo de Édipo), ou imagens arquetípicas brotando do 'inconsciente coletivo' (Jung, 1964).

O que se deve salientar é que o mito, enquanto narrativa, se presta a várias possíveis interpretações. Sendo o que estudiosos de história das religiões e psicologia chamam de "símbolo vivo". Algo que possui um significado e um espectro interpretativo, mas que não pode ser completamente fechado em uma definição, estando sempre aberto a novas leituras. O mito muda, como a realidade muda e a realidade muda à medida que o mito que a explica muda também.

Crítica funcionalista
Bronislaw Malinowski em Trobriand
A tradição antropológica funcionalista, mais bem representada por Bronislaw Malinowski, criticou essas teorias por abstraírem os mitos de seu contexto social. A partir de estudos empíricos dos ilhéus de Trobriand, Malinowski afirmou que "o mito preenche, na cultura primitiva, uma função indispensável": é produto de uma fé viva que serve para codificar e reforçar normas grupais, salvaguardar as regras e a moralidade e promover a coesão social. O mito é parte do ethos (síntese da cultura de um povo, espécie de "cola social" que mantém unida uma parcela da humanidade) de um povo. Como nossos indígenas buscavam sentido para suas vidas e ações em 'Tupã', muitos de nossos contemporâneos buscam sentido para a narrativa de suas existências no 'Mercado Financeiro', cuja base é crédito. Nunca é demais salientar que a origem da palavra 'crédito' é a palavra latina credere, que significa "acreditar".

As leituras de Lévi-Strauss
Claude Lévi-Strauss
As abordagens contemporâneas, incluindo as de Leach e Barthes, têm sido fortemente influenciadas pelo estruturalismo e, em particular, pelos estudos do antropólogo Claude Lévi-Strauss. Usando teorias desenvolvidas na psicanálise e na lingüística, Lévi-Strauss interpretou os mitos, não como guias de ação fornecendo explicações ou legitimação para disposições sociais existentes, mas como sistemas de signos - uma linguagem cujo sentido é codificado e se encontra sob superfície narrativa. Foi um resgate do mito como narrativa.

O mito na academia antropológica
Os mitos são um expediente cognitivo usado para reflexão e resolução das contradições e princípios subjacentes em todas as sociedades humanas, cada mito sendo uma variação sobre temas universais, recombinando incessantemente os elementos simbólicos constituídos por grupos de oposições binárias (mãe/pai, natureza/cultura, fêmea/macho, cru/cozido), que supostamente refletem as categorias fundamentais da mente humana.

Nossa apreensão da realidade se daria pela contraposição de pares complementares de opostos (dia/noite, yin/yang) e o mito seria uma forma mais lúdica e natural de aprendizagem sobre o mundo.

A compreensão platônica do mito
Platão e Aristóteles, ao centro da Academia
Para Platão a mitologia era uma maneira de traduzir aquilo que pertence à opinião e não à certeza filosófica. Sejam quais forem os sistemas de interpretação, eles ajudam a perceber a dimensão da realidade humana e trazem à tona a função simbolizadora da imaginação. Ela não pretende transmitir "a" (tão procurada) verdade filosófica suprema, mas expressar as diversas possíveis verdades de certas percepções. Toda a compreensão platônica do mito, pelo próprio peso que a figura de Platão adquire através dos tempos, acaba infundindo uma visão pré-conceituosa (porque anterior ao bom conhecimento do próprio 'conceito' do mito e de suas implicações) que engendrou o desafio em que a ciência e a filosofia ocidentais, a maior parte das vezes, às raras exceções de um Jung, Capra, Eliade ou Campbell, invariavelmente empacam.

Muitos de nossos acadêmicos e filósofos até hoje compreendem o mito como uma espécie de "pré-razão", de um pensamento ainda não plenamente desenvolvido. Para eles o pensamento desenvolvido não permitiria a possibilidade de interpretação, mas apenas a concordância inevitável com uma única verdade absoluta, óbvia, clara e inegável. Essa pretensão ao alcance da verdade única é a raiz de todo o pensamento fascista e ditatorial, já que é completamente intolerante com quaisquer pensamentos que venham a se contrapor ou divergir a ele. Admitir o mito como passível de diversas interpretações também é admitir que possamos ter diferentes verdades pessoais, familiares, sociais, religiosas ou culturais. Não é só um ato de humanidade como um ato de humildade no mais alto grau.

O desafio da limitação acadêmica
As técnicas estruturalistas de Lévi-Strauss têm proporcionado percepções úteis dos motivos subjacentes aos mitos, mas os críticos alegam que essa abordagem é reducionista, uma espécie de "malabarismo verbal com uma fórmula generalizada e que não pode mostrar a verdade." (Leach, 1970). A pretensão do encontro de uma "verdade" unívoca manifesta o vício racionalista da ciência ocidental e impede seu encontro com as infinitas interpretações possíveis dos mitos. A pretensão dogmática de encontro de uma única verdade absoluta e inequívoca, permanecendo, dará ao mito sempre sua atmosfera nebulosa e polissêmica. 

Águas primordiais
"O tema das águas primordiais, imaginadas como uma totalidade ao mesmo tempo cósmica e divina, é bastante frequente nas cosmogonias arcaicas. Também nesse caso, a massa aquática é identificada à 'mãe original' que gerou, por partenogênese, o primeiro casal, o Céu e a Terra, encarnando os princípios masculino e feminino" - Mircea Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas.

Boa parte das tradições míticas da humanidade relatam a criação do cosmos (ordem) como surgindo através das águas ou mesmo de ondas. Mesmo a tradição Bíblica sustenta que "O Espírito de Deus movia-se sobre as águas". A ideia de uma espécie de caos aquoso é muitíssimo comum entre as tradições míticas e há interpretações antropológicas, religiosas, filosóficas, mitológicas, simbólicas e psíquicas para esse fato.


Pensamento simbólico
Embora seja um tipo de pensamento e de consciência pré-sintética (ou seja, pré-filosófica ou pré-científica), o mito oferece explicações para a realidade aparente e para a vida humana, como também para aquilo que, aos olhos dos mais antigos homens, aparecia como mistério, no sentido de algo velado, simbólico, só acessível a iniciados.

Estruturação do discurso sagrado
Por isso, habitualmente, o mito possui um valor sagrado que merece ser conservado e transmitido por pessoas dotadas ou escolhidas pelo deuses ou sacerdotes, poedas-rapsodos ou xamãs. Seus rituais de renovação ou de comemoração procuram manter vivas as forças criadoras e mantenedoras da vida, evitando a decadência e o retorno à indiferenciação primitiva (por exemplo, nas festas de Ano Novo). Como afirmou Van der Leeuw em O homem primitivo e a religião: "o rito é um mito em ação".

À medida em que estamos agindo de forma a marcar nossa trajetória nesse mundo, tendo vidas preenchidas de significado e essência, estamos ritualizando nossa vida, vivendo nosso mito pessoal. Viver fora do mito é viver uma vida sem um nexo final, sem uma congruência, onde o conteúdo de ontem e o de amanhã não estão interligados numa narrativa coesa. Viver o mito é viver a vida em plenitude.

A linguagem do mito
Friedrich Schelling
E conquanto se costume dizer que o mito constitui uma linguagem fortemente alegórica ou metafórica, o que também o distingue da filosofia e da lógica, há ensaístas que assumem uma interpretação contrária.

"As representações mitológicas não foram inventadas, nem livremente aceitas. Produtos de um processo independente do pensamento e da vontade, elas eram, para a consciência que lhes fazia registro, de uma realidade incontestável e irrefutável. Povos e indivíduos não passam de instrumentos deste processo que ultrapassa os seus respectivos horizontes e a cujo serviço eles se colocam sem nem sequer o compreenderem" - Schelling, Introdução à Filosofia da Mitologia.

Para muitos autores, como para Friedrich Schelling, o mito é, também, uma entidade independente, superior, em efeito, às vontades humanas e aos caprichos das conjunturas em que atuem. Para ele o mito tem um percurso próprio e, talvez, essa teoria possa ser integrada às teorias de Carl Gustav Jung sobre a equilibração da dinâmica psíquica tanto dos sujeitos como das sociedades.

O mito na Ciência Política
Em ciência política, o significado da palavra tem sido às vezes ampliado para a filosofia política, a ideologia e a religião. O autor mais famoso nessa tradição foi Georges Sorel, para quem os mitos (incluindo a "Greve Geral" e a "Revolução Proletária") eram imagens capazes de invocar instintivamente todos os sentimentos que permitem a um povo, partido ou classe colocar em jogo suas energias para a ação política. Para Sorel (1906), todos os grandes movimentos sociais desenvolvem-se através da busca de um mito que fornece o idealismo necessário para reunir e unir as pessoas atrás de uma causa.

O mito, na sua qualidade simbólica, contém uma forte carga do que Jung denomina como "libido" (energia psíquica) pois, por estar aberto à interpretação e nunca completamente definido, não dá "descanso" para as atividades psíquicas que exercem continuamente sua função de delimitar um sentido, de sintetizar uma ideia ou de rotular um evento. A carga de energia psíquica de um mito é muito maior do que a carga de energia de um fato.

O mito político
Eva Peron, um mito político argentino
A idéia do mito como elemento essencial urdido no tecido de uma ideologia geral teve eco na concepção mussoliniana do fascismo como uma fé viva. O mito político é um recurso mobilizador, uma celebração dos "impulsos irracionais", cujo apelo aos fabricantes de mitos reside mais na visão lúcida e instigante de redenção e salvação do que em argumentos baseados em princípios abstratos. A dificuldade de compreender a lógica dual do símbolo e a necessidade cultural da sociedade ocidental de idealizar a razão faz com que a filosofia política ocidental se assombre com determinados fenômenos sociais como fascismos e identifique-os como "irracionais".

A razão também pode ser utilitária, interesseira e intolerante, como nos fascismos e nazismos cujo processo de racionalização, exclusão, escravidão e usofruto da mão de obra e bens dos judeus foram extremamente racionalizados e racionalmente bem delimitados. O que não deixou de constituir um genocídio vergonhoso praticado em nome da toda poderosa "verdade absoluta", naturalmente intolerante a todas as demais verdades.

Evemero e sua "história mítica"
Evêmero (séc. IV a.C.), vira nos mitos uma representação da vida passada dos povos, sua história, com seus heróis e suas façanhas, sendo de alguma maneira reapresentada simbolicamente ao nível dos deuses e de suas aventuras: o mito seria uma dramaturgia da vida social ou da história poetizada. Para Evêmero, por exemplo, Heracles (Hércules entre os romanos) teria sido um chefe guerreiro que enfrentou outro chefe que se apresentava, ou se identificava como o "Leão da (região de) Neméia" ou como a "Hidra da (região de) Lerna". É uma interpretação que culmina, posteriormente, no desenvolvimento do trabalho arqueológico interessantíssimo de um Erik von Daniken, embora perca, no processo, toda sua riqueza simbólica e psíquica.

Fenômeno liminar e "tempo forte"
Mircea Eliade
Crucial para a maior parte das teorias é a idéia de que os mitos não estão relacionados com o espaço e o tempo comuns, mas se encontram fora deles. "Era uma vez", a "Idade de Ouro", a "Aurora dos Tempos" ou o "fim da história", tudo isso implica eventos passados ou futuros que não estão diacronicamente ligados ao presente. Nesse aspecto, os mitos tem sido interpretados como "fenômenos liminares", contados em épocas ou lugares que ficam em um grau intermediário entre os estados normais do ser. Assim, segundo o mitólogo e historiador das religiões romeno Mircea Eliade, os que participam do mito são transportados temporariamente do mundo cotidiano para um plano onde o tempo é considerado "sacro, concentrado" e de "intensidade ampliada".

O xamanismo, estudado por Mircea Eliade, utiliza o mito como uma forma de cura psíquica. Quando o Xamã relembra "o tempo dos tempos" ou "o tempo dos primórdios", onde tudo foi criado, desde o primeiro grão de mostarda até o ser humano e então o próprio paciente, o xamã está reintegrando à mente do seu paciente a narrativa da própria vida dele. Todo o sentido de trajetória de uma vida que invariavelmente passa. Isso tem um caráter catártico e terapêutico fortíssimo, porque interfere na constituição (ou na reconstrução) do caráter do sujeito e, muitas vezes, cura desequilíbrios de ordem psíquica ou mesmo reintroduz um criminoso dentro dos esquemas de lei e ordem que se estabeleceram naquela comunidade.

Estrutura social, estrutura da psique
A civilização clássica e a cultura ocidental devem muito à mitologia grega. Em primeiro lugar, pela enorme capacidade que ela demonstrou de representar funções, sentimentos ou paixões psicológicas, tanto quanto atitudes mentais ou espirituais. Entre tantas outras, a Memória (Mnemosyne), a Sabedoria e a Prudência (Métis), o Amor (Eros), o Medo (Phobos), o Furor (Lyssa), o Destino Implacável (Moiras). Em segundo, por ter servido de fonte e seminário à poesia, ao teatro e às artes figurativas, desde então.

Somos frutos de uma miscigenação de culturas míticas. A cultura grega influenciou a cultura latina que trocou com as culturas africanas e nórdicas e todos esses mapas interpretativos da realidade formaram então as nossas instituições contemporâneas e as nossas categorias de pensamento. O intrincado é muito denso para que possamos destrinchá-lo em suas partes constituíntes atualmente, mas podemos perceber algumas raízes aqui e acolá ao longo do tempo. 

Paul Diel e sua interpretação ético-psicológica
Segundo Paul Diel as figuras mais significativas da mitologia grega, em particular, representam, cada uma, uma função da psique e as relações entre elas exprimem a vida psíquica dos homens, divididas entre as tendências opostas que vão da sublimação à 'perversão' (a idéia de 'perversão' segue praticamente de forma patológica o desenvolvimento da interpretação de Diel, formando um eixo interpretativo que nem sempre desencadeia em uma compreensão plena do seu caráter simbólico e a-ético).

"O espírito é Zeus; a harmonia dos desejos, Apolo; a inspiração intuitiva, Palas Atena; o refluxo, Hades etc. O elã evolutivo (o desejo essencial) encontra-se representado pelo herói; a situação de conflito da psique humana, pelo combate pelos monstros da perversão. Todas as constelações, sublimes ou perversas, do psiquismo, são assim sucetíveis de encontrar sua formulação figurada e sua explicação simbolicamente verídica com o auxílio do simbolismo da vitória ou da derrota de tal ou tal herói em seu combate contra tal ou tal monstro de significação determinada e determinável" - Paul Diel

[Ensaio virtual em constante atualização]


Por Renato Kress

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Bibliografia:
Dicionário SESC, a linguagem da Cultura.
Dicionário do Pensamento Social do Século XX
Mitologias, Roland Barthes
Mythes, rêves et mysteres, Mircea Eliade
Interpretações estruturais dos mitos bíblicos, Edmund Leach & Alan Aycock.
Mitológicas, Cláude Lévi-Strauss
Magia, ciência e religião e outros ensaios, Bronislaw Malinowski.
Reflexões sobre a violência, Georges Sorel
Mito político, H. Tudor
Mito e Símbolo, Victor Turner
Dicionário de Símbolos, Jean Chevalier & Alain Gheerbrant
História das Crenças e das Idéias Religiosas, Vol. 1, 2 e 3, Mircea Eliade

domingo, 22 de abril de 2012

Mãe - Homenagem ao Dia da Terra

O leite do meu seio é magma, o leito, do meu sono, é água. Participo de um equilíbrio delicado, tenho nomes e meus nomes tem camadas, como a forma pela qual me entendem meus filhos. Se me arrebatam a roupa de cama, remexo, sinto frio, suo, tremo. Se me perfuram a carne em demasia escorre do meu ventre o que escorre dos seus, minha seiva, meu sangue, minha vida.
Gaia, mesmo nos códigos que vocês inventam, esquecem depois seus significados. Vivem rodeados dela. Seja onde pisam, onde moram, o que respiram, comem, digerem, desejam, onde morrem e o que se tornam sempre: matéria. Lembro de quando descobriram a palavra matéria, vinha de Mater, Matris, “Mãe”. Porque certas palavras não se criam, certas palavras se sentem.
Erda, sou a anciã que sustenta teus saltos mais mirabolantes, tuas acrobacias e invencionices. Sou a senhora complacente e submissa, que recebe os castigos malcriados dos filhos imaturos. Sou a firmeza calma e duradoura. Além de ser suas bases, sei de algo que não sabem aceitar: eu fico, vocês passam. Antes de vocês houve outros e depois os haverá, tão cedo que nunca se lembrarão, tão tarde que nunca conhecerão. Ainda assim, os amo e nutro, como únicos.
Geb, sou universal, primordial, essencial. Sou fecundada pela água que sai de mim mesma. Minha língua é um sistema que se equilibra sozinho e eu tenho algumas eternidades para me equilibrar. Mesmo que eu tivesse pressa, vocês nunca notariam. Suas idéias, pensamentos, seus mais puros ou devassos sonhos são piscares dos olhos de seus próprios deuses, cada um dos quais precisou de um solo para erguer suas sinagogas e catedrais... e eu os doei com tanta alegria!
Porque tenho um carinho especial pelas formas como resvalam em mim sem me perceber. Ninguém pode vir ao mundo sem passar por mim, ninguém pode ver a luz se não por mim. E vocês me procuram em tantos lugares incríveis, e vocês me projetam a alturas indizíveis. De alguma forma não cabe a vocês – ainda – perceber que eu possa estar abaixo da planta de seus pés e ainda assim palpitar dentro do seu peito saída diretamente de uma alga. Porque eu sou mais singela do que vocês imaginam e vos acaricio por inteiro, não importa o que vocês façam, não importa onde vocês vão, eu estarei lá, eu serei lá.
Procuram meu centro em tantos espaços, terras santas, bem aventuradas, centros do mundo. No meu centro mesmo não podem viver, e já bem o conhecem, mas podem fazer de qualquer espaço meu um centro. Não sou mais eu aqui do que lá. Mas sinceramente? Gostaria que fizessem de si mesmos centros sagrados. Porque eu vou ficar aqui, mas me dói ver vocês partindo tão cedo.

Texto por: Renato Kress

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A Árvore - Coesão e coerência





E porque a árvore?
Porque ela age como deveríamos se fôssemos todos sãos. Ela finca suas raízes, sua base, sua estrutura na terra para que possa seguir, dia a dia, seu lento e ininterrupto caminho em direção aos céus. Porque para a árvore não existem dicotomias entre a mãe terra (matéria) e o pai céu, como não existe mente sem corpo, como não existe cuidado interno sem cuidado externo, como não existe mundo externo - todo o vasto e infinito espaço ocupado por todas as outras árvores e todos os outros seres e todo o resto do universo - sem uma delimitação muito clara de que existe um espaço interno - o tronco, a seiva, a vida.
Porque a árvore? Porque a árvore age como deveríamos. Se fôssemos todos sãos.

Quando armo uma árvore de natal, às vésperas de um ano que se vai, lembro de armar meu eixo interno, meuminimundo, minha retrospectiva de amores, fatos ações e desejos (cumpridos ou em latência). Quando vejo uma árvore lembro de um totem numa sociedade tribal, lembro do eixo doador de sentido para toda aquela realidade ao redor. Quando vejo uma árvore me vêm uma ridícula ponta de admiração e inveja por sua integridade, afinal o meu eixo doador de sentido para a realidade externa não tem essa coerência, essa vivacidade, esse alinhamento perfeito aos ventos e às intempéries, não é flexível, maleável nem ordenado como uma árvore. Ver a árvore e seu caminho do solo ao céu sem esquecer ou renegar nenhum dos dois pontos, é uma ode à vida. À vida que teríamos, se fôssemos todos sãos.



Renato Kress

Um Dicionário Conceitual

O blog "Mito e Mente" foi criado para ser uma espécie de "dicionário ensaístico" que englobe temas concernentes aos domínios da mitologia, literatura clássica, psicologia analítica (junguiana), cultura, pensamento social, arte, símbolos, religiões e filosofia.

Aqui os verbetes não serão apenas definições, mas englobarão também pequenos ensaios críticos, análíticos e, porventura, sintéticos.

O Blog "mito e mente" está incluso no projeto Arquetelos de estudos transdisciplinares de mitologia e religiões comparadas.