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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ensaio sobre o Mito

[Postagem em constante re-edição]


"O mito é o nada que é tudo" - Fernando Pessoa

A narrativa
O mito é a mais antiga forma de conhecimento, de consciência existencial e, ao mesmo tempo, de representação religiosa sobre a origem do mundo, sobre os fenômenos naturais e a vida humana. Deriva do grego Mythos, palavra, narração ou mesmo discurso, e dos verbos mytheyo (contar, narrar) e mytheo (anunciar, conversar). Sua função, portanto, é a de descrever, lembrar e interpretar todas as origens, seja ela a do cosmo (cosmogonia), dos deuses (teogonia), das forças e fenômenos naturais (vento, chuva, relâmpago, acidente geográfico), seja a das causas primordiais que impuseram ao homem as suas condições de vida e seus comportamentos. O mito é, em essência, a narrativa que traz sentido à nossa realidade, a trama de significados sem os quais nossa vida não tem sentido. 

O mito e suas teorias
O mito pode ser compreendido como uma narrativa sacra envolvendo seres sobrenaturais e incorporando à consciência coletiva, o mito é entretecido de crenças populares a respeito da humanidade e do mundo social, bem como da natureza e significado do universo. Ao longo do século XIX, várias escolas de pensamento se debruçaram sobre a interpretação dos mitos. As teorias do mito que desenvolveram podem ser divididas em psicológicas, funcionalistas, estruturalistas e políticas.


Caos e Cosmos
O mito é a primeira manifestação de um sentido para o mundo.  Quando contamos histórias a nossos filhos pra ilustrar as leis, costumes e funcionamento do mundo estamos contando um mito que é real à medida em que agimos de acordo com ele. É como uma grande lente interpretativa da realidade, mas para isso ele deve abarcar as histórias da origem, deve responder a questões sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O mito dota o ser humano de um senso de propósito.

Os mitos tanto podem relatar as genealogias (as gerações sucessivas desde o primeiro ser ou causa), como explicar os atributos dos seres e das coisas (poderes e capacidades). Outra característica comum a diversas mitologias, em seus aspectos cosmogônicos (explicação sobre a geração do cosmos), é a existência primeva do caos, ou seja, de um estado amorfo ou indiferenciado de elementos - as trevas, o oceano primordial, o espaço infinito, o Céu e a Terra ainda fundidos, o Ovo Cósmico, o Todo são imagens comuns a muitas mitologias ao redor do mundo. Em todas as mitologias do planeta é a partir do caos que se dá a criação do cosmo, de um conjunto de partes diferenciadas ou mesmo opostas (terra-céu, líquido-seco, noite-dia), mas ordenadas e mutuamente dependentes.

Antropologia do século XIX e abordagens psicológicas
Os antropólogos do século XIX interessados na evolução e difusão de culturas buscaram descobrir a origem dos mitos, interpretando-os como pensamento não-científico e registros incompletos de eventos históricos. As abordagens psicanalíticas desenvolvidas por Sigmund Freud, em vez disso, tenderam a buscar no mito temas de conflito psíquico universal (repressão, tabu do incesto, inveja dos irmãos, complexo de Édipo), ou imagens arquetípicas brotando do 'inconsciente coletivo' (Jung, 1964).

O que se deve salientar é que o mito, enquanto narrativa, se presta a várias possíveis interpretações. Sendo o que estudiosos de história das religiões e psicologia chamam de "símbolo vivo". Algo que possui um significado e um espectro interpretativo, mas que não pode ser completamente fechado em uma definição, estando sempre aberto a novas leituras. O mito muda, como a realidade muda e a realidade muda à medida que o mito que a explica muda também.

Crítica funcionalista
Bronislaw Malinowski em Trobriand
A tradição antropológica funcionalista, mais bem representada por Bronislaw Malinowski, criticou essas teorias por abstraírem os mitos de seu contexto social. A partir de estudos empíricos dos ilhéus de Trobriand, Malinowski afirmou que "o mito preenche, na cultura primitiva, uma função indispensável": é produto de uma fé viva que serve para codificar e reforçar normas grupais, salvaguardar as regras e a moralidade e promover a coesão social. O mito é parte do ethos (síntese da cultura de um povo, espécie de "cola social" que mantém unida uma parcela da humanidade) de um povo. Como nossos indígenas buscavam sentido para suas vidas e ações em 'Tupã', muitos de nossos contemporâneos buscam sentido para a narrativa de suas existências no 'Mercado Financeiro', cuja base é crédito. Nunca é demais salientar que a origem da palavra 'crédito' é a palavra latina credere, que significa "acreditar".

As leituras de Lévi-Strauss
Claude Lévi-Strauss
As abordagens contemporâneas, incluindo as de Leach e Barthes, têm sido fortemente influenciadas pelo estruturalismo e, em particular, pelos estudos do antropólogo Claude Lévi-Strauss. Usando teorias desenvolvidas na psicanálise e na lingüística, Lévi-Strauss interpretou os mitos, não como guias de ação fornecendo explicações ou legitimação para disposições sociais existentes, mas como sistemas de signos - uma linguagem cujo sentido é codificado e se encontra sob superfície narrativa. Foi um resgate do mito como narrativa.

O mito na academia antropológica
Os mitos são um expediente cognitivo usado para reflexão e resolução das contradições e princípios subjacentes em todas as sociedades humanas, cada mito sendo uma variação sobre temas universais, recombinando incessantemente os elementos simbólicos constituídos por grupos de oposições binárias (mãe/pai, natureza/cultura, fêmea/macho, cru/cozido), que supostamente refletem as categorias fundamentais da mente humana.

Nossa apreensão da realidade se daria pela contraposição de pares complementares de opostos (dia/noite, yin/yang) e o mito seria uma forma mais lúdica e natural de aprendizagem sobre o mundo.

A compreensão platônica do mito
Platão e Aristóteles, ao centro da Academia
Para Platão a mitologia era uma maneira de traduzir aquilo que pertence à opinião e não à certeza filosófica. Sejam quais forem os sistemas de interpretação, eles ajudam a perceber a dimensão da realidade humana e trazem à tona a função simbolizadora da imaginação. Ela não pretende transmitir "a" (tão procurada) verdade filosófica suprema, mas expressar as diversas possíveis verdades de certas percepções. Toda a compreensão platônica do mito, pelo próprio peso que a figura de Platão adquire através dos tempos, acaba infundindo uma visão pré-conceituosa (porque anterior ao bom conhecimento do próprio 'conceito' do mito e de suas implicações) que engendrou o desafio em que a ciência e a filosofia ocidentais, a maior parte das vezes, às raras exceções de um Jung, Capra, Eliade ou Campbell, invariavelmente empacam.

Muitos de nossos acadêmicos e filósofos até hoje compreendem o mito como uma espécie de "pré-razão", de um pensamento ainda não plenamente desenvolvido. Para eles o pensamento desenvolvido não permitiria a possibilidade de interpretação, mas apenas a concordância inevitável com uma única verdade absoluta, óbvia, clara e inegável. Essa pretensão ao alcance da verdade única é a raiz de todo o pensamento fascista e ditatorial, já que é completamente intolerante com quaisquer pensamentos que venham a se contrapor ou divergir a ele. Admitir o mito como passível de diversas interpretações também é admitir que possamos ter diferentes verdades pessoais, familiares, sociais, religiosas ou culturais. Não é só um ato de humanidade como um ato de humildade no mais alto grau.

O desafio da limitação acadêmica
As técnicas estruturalistas de Lévi-Strauss têm proporcionado percepções úteis dos motivos subjacentes aos mitos, mas os críticos alegam que essa abordagem é reducionista, uma espécie de "malabarismo verbal com uma fórmula generalizada e que não pode mostrar a verdade." (Leach, 1970). A pretensão do encontro de uma "verdade" unívoca manifesta o vício racionalista da ciência ocidental e impede seu encontro com as infinitas interpretações possíveis dos mitos. A pretensão dogmática de encontro de uma única verdade absoluta e inequívoca, permanecendo, dará ao mito sempre sua atmosfera nebulosa e polissêmica. 

Águas primordiais
"O tema das águas primordiais, imaginadas como uma totalidade ao mesmo tempo cósmica e divina, é bastante frequente nas cosmogonias arcaicas. Também nesse caso, a massa aquática é identificada à 'mãe original' que gerou, por partenogênese, o primeiro casal, o Céu e a Terra, encarnando os princípios masculino e feminino" - Mircea Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas.

Boa parte das tradições míticas da humanidade relatam a criação do cosmos (ordem) como surgindo através das águas ou mesmo de ondas. Mesmo a tradição Bíblica sustenta que "O Espírito de Deus movia-se sobre as águas". A ideia de uma espécie de caos aquoso é muitíssimo comum entre as tradições míticas e há interpretações antropológicas, religiosas, filosóficas, mitológicas, simbólicas e psíquicas para esse fato.


Pensamento simbólico
Embora seja um tipo de pensamento e de consciência pré-sintética (ou seja, pré-filosófica ou pré-científica), o mito oferece explicações para a realidade aparente e para a vida humana, como também para aquilo que, aos olhos dos mais antigos homens, aparecia como mistério, no sentido de algo velado, simbólico, só acessível a iniciados.

Estruturação do discurso sagrado
Por isso, habitualmente, o mito possui um valor sagrado que merece ser conservado e transmitido por pessoas dotadas ou escolhidas pelo deuses ou sacerdotes, poedas-rapsodos ou xamãs. Seus rituais de renovação ou de comemoração procuram manter vivas as forças criadoras e mantenedoras da vida, evitando a decadência e o retorno à indiferenciação primitiva (por exemplo, nas festas de Ano Novo). Como afirmou Van der Leeuw em O homem primitivo e a religião: "o rito é um mito em ação".

À medida em que estamos agindo de forma a marcar nossa trajetória nesse mundo, tendo vidas preenchidas de significado e essência, estamos ritualizando nossa vida, vivendo nosso mito pessoal. Viver fora do mito é viver uma vida sem um nexo final, sem uma congruência, onde o conteúdo de ontem e o de amanhã não estão interligados numa narrativa coesa. Viver o mito é viver a vida em plenitude.

A linguagem do mito
Friedrich Schelling
E conquanto se costume dizer que o mito constitui uma linguagem fortemente alegórica ou metafórica, o que também o distingue da filosofia e da lógica, há ensaístas que assumem uma interpretação contrária.

"As representações mitológicas não foram inventadas, nem livremente aceitas. Produtos de um processo independente do pensamento e da vontade, elas eram, para a consciência que lhes fazia registro, de uma realidade incontestável e irrefutável. Povos e indivíduos não passam de instrumentos deste processo que ultrapassa os seus respectivos horizontes e a cujo serviço eles se colocam sem nem sequer o compreenderem" - Schelling, Introdução à Filosofia da Mitologia.

Para muitos autores, como para Friedrich Schelling, o mito é, também, uma entidade independente, superior, em efeito, às vontades humanas e aos caprichos das conjunturas em que atuem. Para ele o mito tem um percurso próprio e, talvez, essa teoria possa ser integrada às teorias de Carl Gustav Jung sobre a equilibração da dinâmica psíquica tanto dos sujeitos como das sociedades.

O mito na Ciência Política
Em ciência política, o significado da palavra tem sido às vezes ampliado para a filosofia política, a ideologia e a religião. O autor mais famoso nessa tradição foi Georges Sorel, para quem os mitos (incluindo a "Greve Geral" e a "Revolução Proletária") eram imagens capazes de invocar instintivamente todos os sentimentos que permitem a um povo, partido ou classe colocar em jogo suas energias para a ação política. Para Sorel (1906), todos os grandes movimentos sociais desenvolvem-se através da busca de um mito que fornece o idealismo necessário para reunir e unir as pessoas atrás de uma causa.

O mito, na sua qualidade simbólica, contém uma forte carga do que Jung denomina como "libido" (energia psíquica) pois, por estar aberto à interpretação e nunca completamente definido, não dá "descanso" para as atividades psíquicas que exercem continuamente sua função de delimitar um sentido, de sintetizar uma ideia ou de rotular um evento. A carga de energia psíquica de um mito é muito maior do que a carga de energia de um fato.

O mito político
Eva Peron, um mito político argentino
A idéia do mito como elemento essencial urdido no tecido de uma ideologia geral teve eco na concepção mussoliniana do fascismo como uma fé viva. O mito político é um recurso mobilizador, uma celebração dos "impulsos irracionais", cujo apelo aos fabricantes de mitos reside mais na visão lúcida e instigante de redenção e salvação do que em argumentos baseados em princípios abstratos. A dificuldade de compreender a lógica dual do símbolo e a necessidade cultural da sociedade ocidental de idealizar a razão faz com que a filosofia política ocidental se assombre com determinados fenômenos sociais como fascismos e identifique-os como "irracionais".

A razão também pode ser utilitária, interesseira e intolerante, como nos fascismos e nazismos cujo processo de racionalização, exclusão, escravidão e usofruto da mão de obra e bens dos judeus foram extremamente racionalizados e racionalmente bem delimitados. O que não deixou de constituir um genocídio vergonhoso praticado em nome da toda poderosa "verdade absoluta", naturalmente intolerante a todas as demais verdades.

Evemero e sua "história mítica"
Evêmero (séc. IV a.C.), vira nos mitos uma representação da vida passada dos povos, sua história, com seus heróis e suas façanhas, sendo de alguma maneira reapresentada simbolicamente ao nível dos deuses e de suas aventuras: o mito seria uma dramaturgia da vida social ou da história poetizada. Para Evêmero, por exemplo, Heracles (Hércules entre os romanos) teria sido um chefe guerreiro que enfrentou outro chefe que se apresentava, ou se identificava como o "Leão da (região de) Neméia" ou como a "Hidra da (região de) Lerna". É uma interpretação que culmina, posteriormente, no desenvolvimento do trabalho arqueológico interessantíssimo de um Erik von Daniken, embora perca, no processo, toda sua riqueza simbólica e psíquica.

Fenômeno liminar e "tempo forte"
Mircea Eliade
Crucial para a maior parte das teorias é a idéia de que os mitos não estão relacionados com o espaço e o tempo comuns, mas se encontram fora deles. "Era uma vez", a "Idade de Ouro", a "Aurora dos Tempos" ou o "fim da história", tudo isso implica eventos passados ou futuros que não estão diacronicamente ligados ao presente. Nesse aspecto, os mitos tem sido interpretados como "fenômenos liminares", contados em épocas ou lugares que ficam em um grau intermediário entre os estados normais do ser. Assim, segundo o mitólogo e historiador das religiões romeno Mircea Eliade, os que participam do mito são transportados temporariamente do mundo cotidiano para um plano onde o tempo é considerado "sacro, concentrado" e de "intensidade ampliada".

O xamanismo, estudado por Mircea Eliade, utiliza o mito como uma forma de cura psíquica. Quando o Xamã relembra "o tempo dos tempos" ou "o tempo dos primórdios", onde tudo foi criado, desde o primeiro grão de mostarda até o ser humano e então o próprio paciente, o xamã está reintegrando à mente do seu paciente a narrativa da própria vida dele. Todo o sentido de trajetória de uma vida que invariavelmente passa. Isso tem um caráter catártico e terapêutico fortíssimo, porque interfere na constituição (ou na reconstrução) do caráter do sujeito e, muitas vezes, cura desequilíbrios de ordem psíquica ou mesmo reintroduz um criminoso dentro dos esquemas de lei e ordem que se estabeleceram naquela comunidade.

Estrutura social, estrutura da psique
A civilização clássica e a cultura ocidental devem muito à mitologia grega. Em primeiro lugar, pela enorme capacidade que ela demonstrou de representar funções, sentimentos ou paixões psicológicas, tanto quanto atitudes mentais ou espirituais. Entre tantas outras, a Memória (Mnemosyne), a Sabedoria e a Prudência (Métis), o Amor (Eros), o Medo (Phobos), o Furor (Lyssa), o Destino Implacável (Moiras). Em segundo, por ter servido de fonte e seminário à poesia, ao teatro e às artes figurativas, desde então.

Somos frutos de uma miscigenação de culturas míticas. A cultura grega influenciou a cultura latina que trocou com as culturas africanas e nórdicas e todos esses mapas interpretativos da realidade formaram então as nossas instituições contemporâneas e as nossas categorias de pensamento. O intrincado é muito denso para que possamos destrinchá-lo em suas partes constituíntes atualmente, mas podemos perceber algumas raízes aqui e acolá ao longo do tempo. 

Paul Diel e sua interpretação ético-psicológica
Segundo Paul Diel as figuras mais significativas da mitologia grega, em particular, representam, cada uma, uma função da psique e as relações entre elas exprimem a vida psíquica dos homens, divididas entre as tendências opostas que vão da sublimação à 'perversão' (a idéia de 'perversão' segue praticamente de forma patológica o desenvolvimento da interpretação de Diel, formando um eixo interpretativo que nem sempre desencadeia em uma compreensão plena do seu caráter simbólico e a-ético).

"O espírito é Zeus; a harmonia dos desejos, Apolo; a inspiração intuitiva, Palas Atena; o refluxo, Hades etc. O elã evolutivo (o desejo essencial) encontra-se representado pelo herói; a situação de conflito da psique humana, pelo combate pelos monstros da perversão. Todas as constelações, sublimes ou perversas, do psiquismo, são assim sucetíveis de encontrar sua formulação figurada e sua explicação simbolicamente verídica com o auxílio do simbolismo da vitória ou da derrota de tal ou tal herói em seu combate contra tal ou tal monstro de significação determinada e determinável" - Paul Diel

[Ensaio virtual em constante atualização]


Por Renato Kress

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Bibliografia:
Dicionário SESC, a linguagem da Cultura.
Dicionário do Pensamento Social do Século XX
Mitologias, Roland Barthes
Mythes, rêves et mysteres, Mircea Eliade
Interpretações estruturais dos mitos bíblicos, Edmund Leach & Alan Aycock.
Mitológicas, Cláude Lévi-Strauss
Magia, ciência e religião e outros ensaios, Bronislaw Malinowski.
Reflexões sobre a violência, Georges Sorel
Mito político, H. Tudor
Mito e Símbolo, Victor Turner
Dicionário de Símbolos, Jean Chevalier & Alain Gheerbrant
História das Crenças e das Idéias Religiosas, Vol. 1, 2 e 3, Mircea Eliade

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A Árvore - Coesão e coerência





E porque a árvore?
Porque ela age como deveríamos se fôssemos todos sãos. Ela finca suas raízes, sua base, sua estrutura na terra para que possa seguir, dia a dia, seu lento e ininterrupto caminho em direção aos céus. Porque para a árvore não existem dicotomias entre a mãe terra (matéria) e o pai céu, como não existe mente sem corpo, como não existe cuidado interno sem cuidado externo, como não existe mundo externo - todo o vasto e infinito espaço ocupado por todas as outras árvores e todos os outros seres e todo o resto do universo - sem uma delimitação muito clara de que existe um espaço interno - o tronco, a seiva, a vida.
Porque a árvore? Porque a árvore age como deveríamos. Se fôssemos todos sãos.

Quando armo uma árvore de natal, às vésperas de um ano que se vai, lembro de armar meu eixo interno, meuminimundo, minha retrospectiva de amores, fatos ações e desejos (cumpridos ou em latência). Quando vejo uma árvore lembro de um totem numa sociedade tribal, lembro do eixo doador de sentido para toda aquela realidade ao redor. Quando vejo uma árvore me vêm uma ridícula ponta de admiração e inveja por sua integridade, afinal o meu eixo doador de sentido para a realidade externa não tem essa coerência, essa vivacidade, esse alinhamento perfeito aos ventos e às intempéries, não é flexível, maleável nem ordenado como uma árvore. Ver a árvore e seu caminho do solo ao céu sem esquecer ou renegar nenhum dos dois pontos, é uma ode à vida. À vida que teríamos, se fôssemos todos sãos.



Renato Kress

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Religiões da África (África Central)

Ritual Banto
Religião dos Bantos

Cerca de dez milhões de bantos vivem na África Central, na bacia do Rio Congo, numa área que se estende desde a Tanzânia, a leste, até o Congo, a oeste. Os mais conhecidos são os 'Ndembos' e os 'Leles', graças aos trabalhos de Victor Turner (The forest of Symbols, 1967; The Drums of Affliction, 1968) e de Mary Douglas (The Lele of the Kasai, 1963).

Sociedades secretas, oráculos e exorcismo
No centro das religiões bantos figuram os cultos espíritualistas e os rituais mágicos de propiciação. São ligadas aos primeiros: As sociedades secretas iniciáticas criadas por certos povos como os 'Ndembos', mas também a instituição mais difundida dos oráculos régios e dos cultos de aflição, que consistem em exorcizar os espíritos 'aflitos' que possuem os vivos. Esses espíritos às vezes sào marginais pertencentes a diversos grupos étnicos; pedem aos médiuns que falem em sua língua. A feitiçaria, como atividade feminina por excelência, não existe entre todos os povos bantos.

O criador
O criador, que é assexuado, de modo geral tornou-se um deus otiosus; não recebe culto, mas é invocado nos juramentos.

Os pigmeus da floresta tropical
Formam três grupos principais: akas, bakas e mbutis, de Ituri ao Zaire, estudados nos célebres livros de Colin Turnbull, entre os quais o mais conhecido é The Forest People (1961). Incitados pela vontade do padre Wilhelm Schmidt (1868-1954) de encontrar, em todos os povos sem escrita, crenças monoteístas originais, muitos missionários católicos e grande número de etnógrafos confirmaram a existência, nos três grupos, da crença num criador que se torna otiosus. Mas Colin Turnbull nega que os 'Mbutis' reconheçam um deus criador: para eles, deus é o habitat, a mata. Entre eles encontra-se certa pobreza ritual: não tem sacerdote e não praticam adivinhação. Tem ritos de passagem associados à circuncisão para os rapazes e ao isolamento para as moças, quando de suas primeiras regras.

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Texto básico de Renato Kress
Adaptado de "Dicionário das Religiões" de Mircea Eliade. Esse texto vai sofrer várias alterações de estudos complementares até tornar-se uma referência diversa. O texto base de Eliade foi escolhido por ser o mais completo e proporcionar mais abrangência ao tema.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Religiões da África (África Oriental)


Religiões da África Oriental

A região leste da África comporta 100 milhões de habitantes pertencentes aos quatro grandes grupos lingüísticos mencionados na postagem anterior, que formam mais de 200 sociedades distintas. Um suaíle simplificado serve de língua veicular na região, mas a maioria das pessoas fala línguas bantos, como os "gandas", "nyoros", "nkores", "sogas" e "gisus" em Uganda: os kikuyus e kambas no Quênia; e os "kagurus" e "gogos" na Tanzânia. As religiões dos povos bantos apresentam algumas características comuns, como o caráter de deus otiosus do criador que, com exceção dos kikuyus, é visto como figura distante que não intervém nos acontecimentos do dia a dia. Consequentemente sua presença no ritual é pequena. As divindades ativas são os heróis e os ancestrais, muitas vezes consultados em seus santuários por médiuns que, em estado de transe, entram em comunicação direta com eles. Em princípio os espíritos dos mortos também podem possuir o médium. Por isso, convém aplacá-los e fazer-lhes oferendas periódicas. Vários rituais têm a finalidade de livrar a sociedade de certos estados de impureza nos quais se incorreu em virtude de transgressão, voluntária ou involuntária, da ordem.

A arte divinatória (adivinhação)

A adivinhação de tipo geomântico simplificado é encontrada na maioria dos povos da África Oriental. É praticada com o fim de ajudar as decisões binárias (sim/não), de denunciar um culpado ou de prever o futuro. Como o feitiço é considerado a causa da morte, da doença e do infortúnio, a adivinhação também serve para mostrar o autor de um malefício mágico a fim de puni-lo. O estudo de E. E. Evans-Pritchard sobre os azandes - Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande, Jorge Zahar Editores Br - esclarece a relação entre feitiçaria e oráculos.

Iniciações pubertárias

Todos os povos da África Oriental conhecem a iniciação pubertária, geralmente mais complexa entre os meninos que entre as meninas. A maioria dos povos bantos pratica a circuncisão e a cliteridectomia ou a labiectomia.

Iniciações guerreiras

As iniciações guerreiras mais intensas servem às vezes para cimentar a unidade de organizações secretas, como os Mau-maus dos kikuyus, no Quenia, que participaram da libertação do país.

Populações

Os povos nilóticos da África Oriental compreendem os shilluks, os nuers e os dincas na república do Sudão; os acholis em Uganda; e os inos no Quênia.

Os Nuers

A religião dos nuers e dos dincas é bem conhecida, graças aos trabalhos excepcionais de E. E. Evans-Pritchard e de Godfrey Lienhardt. Como os outros habitantes da região dos Lagos (masais, por exemplo), os nuers e os dincas são criadores transumantes de gado. Esse dado ecológico é a base de sua religião. Os primeiros seres humanos e os primeiros bovinos foram criados juntos. O deus criador não mais participa da história humana. Os diversos espíritos que podem ser invocados e os ancestrais estão próximos do homem.

Os nuers na wikipedia

Os especialistas do sagrado

Nas duas sociedades encontram-se especialistas do sagrado que se comunicam com as forças do invisível: os sacerdotes-leopardos entre os nuers e os mestres do arpão entre os dincas, que executam o rito do sacrifício do boi para livrar a comunidade da desonra e o indivíduo da doença que o acometeu. Os profetas dos nuers e dos dincas são personagens religiosas possuídas pelos espíritos.


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Texto de Renato Kress
Adaptado de "Dicionário das Religiões" de Mircea Eliade. Esse texto vai sofrer várias alterações de estudos complementares até tornar-se uma referência diversa. O texto base de Eliade foi escolhido por ser o mais completo e proporcionar mais abrangência ao tema.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Religiões da África (Introdução e África Ocidental)



[Postagem em contante re-edição] Classificações

O homem nasceu na África há pelo menos cinco milhões de anos. Hoje o continente abriga numerosos povos que falam mais de 800 línguas (das quais algo em torno de 730 estão classificadas). Seus habitantes foram distingüidos por "raças" e por "áreas culturais", mas esses critérios se mostram insuficientes há mais de meio século. Embora a delimitação das línguas não seja precisa, a classificação lingüística é preferível às outras.

Divisão lingüística do continente africano
Joseph H. Greenberg propôs, em 1966, uma divisão do continente africano em quatro grandes grupos lingüísticos, compostos por várias famílias. O mais importante é o grupo Congo-Kordofan, cuja principal família é a nigério-congolesa. A área lingüística Congo-Kordofan abrange o centro e o sul da África.

Um segundo grupo lingüístico, que compreende as línguas dos nilóticos, do Sudão Ocidental e do Médio Níger, é o grupo nilo-saariano.

Ao norte e a nordeste estende-se a área do grupo afro-asiático, que compreende as línguas semíticas faladas na Ásia Ocidental, o egípcio, o bérbere, as linguas kuchitas e as do Chade, como o hauçá.

O quarto grupo compreende as línguas comumente chamadas do "clique" (devido aos quatro sons característicos da língua dos bosquímanos), às quais Greenberg deu o nome de khoïsan e cujos principais falantes são os bosquímanos e os hotentotes.

Língua e religião
As fronteiras religiosas não acompanham o contorno das fronteiras lingüísticas. Nos países do norte desenrolou-se a longa história do islamismo egípcio e bérbere, este último, principalmente, impregnado de cultos de possessão femininos, que já foram comparados ao antigo culto grego de Dioniso, e de magias africanas. No sincretismo afro-islâmico, o marabu, receptivo ao baraka ou força espiritual, é a personagem central. Antes do islamismo houve o judaísmo das tribos bérberes e o cristianismo africano que, na expansão do movimento puritano donatista combatido por Agostinho (354-430), já prenunciava esse particularismo dos bérberes, que sempre os fez escolher uma forma de religião que não coincidia exatamente com a de seus dominadores.

País a país no oeste
A oeste a situação é diferente. No Senegal convivem os cultos autóctones, a cruz e o crescente. Quanto mais se avança para o sul, tanto mais complexa se torna a escolha. Na Guiné, na Libéria, na Costa do Marfim, em Serra Leoa e em Benim, predomina o sincretismo. Os Mandês são islamizados, mas o mesmo não ocorre com os bambaras, os miniankas e os senufos. Na federação nigeriana predominam os cultos autóctones. A religião dos iorubás é uma das mais importantes da região.

O sincretismo domina a África equatorial e o sul evangelizado pelos portugueses e pelas missões protestantes britânicas e holandesas. A leste, o sincretismo dos bantos é dominado pelo estandarte do profeta. Finalmente, as tribos dos lagos (zandes, nuers, dincas, masais), a despeito da atividade missionária inglesa, continuam praticando as religiões de seus ancestrais.

Problemas de metodologia e referência
A diversidade regional complica as possíveis análises pelos historiadores da religião. B. Holas faz um apanhado geral sem se deter em lugar nenhum em Religions de l'Afrique noire (1964), Benjamin Ray tratou da matéria segundo uma perspectiva fenomenológica, sem atribuir importância nenhuma às divisões geográficas e históricas em African Religions (1976) e Noel Q. King escolheucerto número de religiões representativas e as descreveu individualmente, comparando-as, em African Cosmos (1986). Cada uma dessas opções têm vantagens e desvantagens.

Crenças comuns
Mesmo não sendo universais numerosas religiões autóctones da África partilham duas características em comum: a crença num Ser-Supremo, muitas vezes um deus otiosus (deus ocioso) que se afastou dos assuntos humanos e, por conseguinte, não está ativamente presente no ritual; e a adivinhação em forma dupla (por possessão espírita oracular e por diversos métodos geomântricos), que, por sua vez, parece provir dos árabes.

Religiões da África Ocidental

Os iorubás, sociedades secretas, religião e poder político
A religião dos iorubás, entre as africanas, é a que tem provavelmente o maior número de praticantes (mais de 15 milhões), na Nigéria e nos países limítrofes, como o Benim.

Ainda no início deste século, a coletividade iorubá era denominada por uma confraria secreta que nomeava o mais alto representante do poder público, o rei. Antes de sua nomeaçao o rei nada sabia, pois não era membro dessa confraria, chamada Ogbonis. Ser membro desse clube fechado significa falar uma língua initeligível aos profanos e praticar formas de arte hierática e monumental inacessíveis à maioria dos iorubás.

Ilê, Orum e Aiyê
Envolvido no segredo iniciático, o culto interno dos Ogbonis continua misterioso. No centro: Onila, Grande Deusa Mãe do ilê, que é o "mundo elementar" no estado caótico, antes de organizar-se. O ilê opôe-se, por um lado ao orum, que é o céu enquanto princípio organizado e, por outro, aiyê, o mundo habitado, proveniente da intervenção do orum no ilê.

Incesto primordial iorubá
Enquanto todos conhecem os aspectos assumidos pelos habitantes do orum. os orixás, que são objetos de cultos exotéricos, e o deus otiosus Olorum (Olodum), que não é cultuado, a presença do ilê na vida dos iorubás é carregada do inquietante mistério da ambivalência feminina. A deusa Iemanjá é fecundada pelo próprio filho Orungã, e os produtos dessa relação incestuosa constituem grande número de deuses e espíritos. Iemanjá é a mestra de todas as feiticeiras Iorubás, que a tomaram por modelo dado o esenrolar excepcional e atormentado de sua vida. Outra situação associada à feiticeira é a esterilidade, representada pela deusa Olokun, mulher de Odudua.

Uma terceira situação que leva à feitiçaria é a da Vênus iorubá, a deusa Oshun, protagonista de uma série de divórcios e escândalos. é a inventora das artes mágicas, e as feiticeiras consideram-na uma das suas.

A arte divinatória Iorubá
O mundo organizado mantém-se afastado do ilê. O criador é Obatalá, deus que forma o embrião do ventre materno. Com ele, o Orum (Ogum), enviou para o Aiyê o deus dos oráculos Orunmila, cujos instrumentos de adivinhação estão presentes nas casas tradicionais iorubás. A adivinhação Ifá é uma forma de geomancia proveniente dos árabes. Comporta dezesseis figuras básicas, cujas combinações determinam o prognóstico. O adivinho não interpreta a sentença; limita-se a recitar versos pertencentes ao repertório tradicional, mais ou menos como os comentários do I-Ching, o livro de adivinhação chinês. Quanto mais versos o adivinho conhecer, tanto mais respeitado será por sua clientela.

Exu
Outro orixá importante é o Exu
Trapaceiro, pequeno e itifálico. Por um lado provoca riso e, por outro, engana. É preciso saber torná-lo propício mediante sacrifícios de animais e oferendas de vinho de palmeira.

Ogum
O padroeiro dos ferreiros, cujo estatuto é muito particular em toda a África e implica isolamento e suspeita mas também atribuição de poderes mágicos ambivalentes, é o deus guerreiro Ogum.

Os gêmeos entre os Iorubás
Essa mesma ambivalência encontra-se na idéia que os Iorubás têm dos gêmeos. A anomalia do nascimento de gêmeos representa um dilema para os povos africanos: é preciso ou neutralizá-la enquanto ruptura do equilíbrio do mundo (caso em que um dos gêmeos ou os dois precisam ser suprimidos), ou prestar-lhe reverência especial. Os iorubás dizem que, em passado distante, preferiam a primeira solução, mas que um oráculo ordenou-lhes que adotassem a segunda. Entre eles os gêmeos são alvo de atenção especial.

Deuses secundários
Se Obatalá modela o corpo, Olodumaré insufla-lhe o espírito (emi). Na morte, as componentes do ser humano retornam para os orixás que as retribuem através dos recém-nascidos. Há, porém, componentes imortais, pois os espíritos podem voltar para a terra e tomar posse de algum dançarino Egungum. Este passa a mensagem dos mortos para os vivos.

Religião dos Akans
Os Akans são um povo de língua twi, do mesmo tronco kwa dos iorubás. Formam uma dúzia de reinos independentes em Gana e na Costa do Marfim, sendo o mais importante o dos Achantis. Sua organização por clãs, em oito unidades matrilineares, não coincide com a organização política. Como os iorubás, os achantis têm seu deus otiosus celestial, Nyame, que fugiu do mundo dos humanos por causa do barulho insuportável que as mulheres fazem quando batem inhames para fazer pirão. Em cada casa achanti, Nyame tem um pequeno altar acomodado numa árvore. Por ser deus criador, é invocado constantemente ao lado da deusa da terra, Asase Yaa.

Os achantis veneram as divindades pessoais abosuns
e as impessoais asumans e invocam os ancestrais (asamans) usando escabelos escurecidos com sangue e outros materiais. A casa do rei tem seus escabelos negros que recebem oferendas periódicas. A instituição monárquica dos achantis comporta um rei (Asantehene) e uma rainha (Ohennemmaa), que não é sua esposa nem sua mãe, mas uma representante do grupo matrilinear que se identifica com o grupo político.

A festa religiosa principal em todos os reinos akans é o Apo, período de reflexão sobre os ancestrais e de cerimônias purificadoras e propiciatórias.


Visão do mundo dos Bambaras e dos Dogons do Mali

Populações diferentes com um mesmo substrato religioso.
Germaine Dieterlen escrevia, em 1951, em seu Essai sur la religion bambara: "Pelo menos nove populações de importância desigual (dogons, bambaras, ferreiros, kurumbas, bozos, mandingas, samogos, mossis e kules) vivem no mesmo substrato metafísico, se não religioso. Têm em comum o tema da criação por um verbo inicialmente imóvel, cuja vibração vai determinando aos poucos a essência e, depois, a existência das coisas; o mesmo ocorre com o movimento em espiral cônica do universo, que está em extensão constante. Importante salientar a similaridade entre essa concepção da criação e da metafísica do universo com as descobertas da astrofísica e da física quântica atuais.

Têm a mesma concepção da pessoa e da geminidade primordial, expressão da unidade perfeita. Uns e outros admitem a intervenção de uma hipóstase da divindade que, às vezes, assume o aspecto de um redentor e senhor do mundo, cuja forma é idêntica em todos os lugares. Todos crêem na necessidade da harmonia universal, como na da harmonia interna dos seres, estando as duas interligadas. Um dos corolários dessa noção é o sutil mecanismo da desordem que chamamos impureza, por falta de termo melhor, e que é acompanhado pelo das práticas catárticas muito desenvolvidas."

Mitologia Aritmédica
Na cosmogonia dos dogons, os arquétipos (tipos primordiais) do espaço e do tempo estão inseridos, sob a forma de números, no seio do deus celeste Amma. É o Trapaceiro Raposa Branca, Yurugu, que institui o espaço e o tempo reais. Em outra versão o universo e o homem são criados a partir de uma vibração primordial que procede, em forma helicoidal, de um centro cujo impulso é dado por sete segmentos de diferentes comprimentos. Essa forma de compreensão do espaço-tempo como trapaça primordial coincide com a lógica do Samsara, a roda das encarnações indiana.

Homem e Cosmos
Cosmificação do homem e antropomorfização do cosmos são as duas operações que definem a visão dogon do mundo. Assim, o dogon "procura seu reflexo em todos os espelhos de um universo antropomórfico, onde cada haste de capim, cada mosquito é portador de uma 'palavra' (Ethnologie et language, Calame-Griaule).

Palavra e silêncio
É idêntica a importância das palavras entre os bambaras: "O verbo estabelece (...) uma aproximação entre o homem e seu deus, ao mesmo tempo em que uma ligação entre o mundo objetivo concreto e o mundo subjetivo de representação." (Dialetique du verbe chez le Bambaras). A palavra pronunciada é como uma criança que vem ao mundo. Há várias operações cuja finalidade é facilitar o parto da palavra pela boca: o cachimbo e o fumo, o uso do caroço de cola, limar e esfregar os dentes, tatuar a boca. No fundo, parir a palavra não é uma operação sem risco, pois ela rompe a perfeição do silêncio. O silêncio, segredo que se cala, tem valor iniciático que caracteriza a condição original do mundo.

O nascimento da língua
No princípio não havia necessidade de linguagem, pois tudo o que existia estava integrado numa 'palavra inaudível', um sussurro contínuo que o criador rude, fálico e arborícola Bemba confiou ao criador celeste, requintado e aquático, Faro. Muso Koroni, mulher de Bemba, que engendrara as plantas e os animais, sentiu ciúme do marido, que copulava com todas as mulheres criadas por Faro. Por isso traiu-o, e Bemba perseguiu-a e agarrou-a pela garganta, estrangulando-a. Desse tratamento violento da esposa, infiel ao marido infiel, nasceram as rupturas no fluxo sonoro contínuo, absolutamente necessárias para engendrar palavras, uma língua.

De como o "desequilíbrio espiritual" dá início às sociedades
Como os dogons, os bambaras acreditam na decadência da humanidade, sendo o surgimento da linguagem apenas um de seus sinais. no plano individual, a decadência caracteríza-se pelo wanzo, a feminilidade desregrada, feiticeira, do ser humano que, no estado perfeito é andrógino. O sustentáculo visível do wanzo é o prepúcio. A circuncisão retira do andrógino seu componente feminino. Despojado da feminilidade, o homem sai à procura de uma esposa e é assim que aparece a comunidade. A circuncisão física ocorre na primeira iniciação infantil, o n'domo, enquanto a última das seis dyows (iniciações) sucessivas, o kore, tem por objetivo restituir ao homem a feminilidade espiritual, tornando-o novamente andrógino, portanto perfeito. O n'domo marca a entrada do indivíduo na existência social; o kore marca sua saída, para reunir-se à plenitude e à espontaneidade divinas. Os dogons e os bambaras contruíram, com base em seus mitos e rituais, uma arquitetura do conhecimento sutil e complexa.

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Texto de Renato Kress
Adaptado de "Dicionário das Religiões" de Mircea Eliade. Esse texto vai sofrer várias alterações de estudos complementares até tornar-se uma referência diversa. O texto base de Eliade foi escolhido por ser o mais completo e proporcionar mais abrangência ao tema.

Um Dicionário Conceitual

O blog "Mito e Mente" foi criado para ser uma espécie de "dicionário ensaístico" que englobe temas concernentes aos domínios da mitologia, literatura clássica, psicologia analítica (junguiana), cultura, pensamento social, arte, símbolos, religiões e filosofia.

Aqui os verbetes não serão apenas definições, mas englobarão também pequenos ensaios críticos, análíticos e, porventura, sintéticos.

O Blog "mito e mente" está incluso no projeto Arquetelos de estudos transdisciplinares de mitologia e religiões comparadas.