terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ensaio sobre Apolo

Um pequeno ensaio sobre a trajetória e as dimensões simbólicas de Apolo. Parte do grande ensaio sobre o 6° encontro Mito e Mente: De Sangue: Helena e Clitemnestra, Cástor e Pólux, Apolo e Ártemis, mitos da fraternidade.
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Apolo

O Mito

Leto na Ilha de Delos
Delos, ilha sagrada do arquipélago das Cíclades, não estava no local onde atualmente se encontra. Era uma ilha flutuante, vagando incessantemente pelos mares. Um dia uma linda deusa, com terror e agonia estampados no rosto, pôs os pés naquela ilha. Era a deusa Leto e trazia no ventre dois filhos de Zeus, Apolo e Ártemis.

Amaldiçoada por Hera – a legítima esposa de Zeus –, que pediu à deusa Gaia, a Terra, que não desse abrigo para Leto, afim de que não conseguisse dar à luz aos frutos do adultério de seu marido, a mãe de Apolo estava impossibilitada de dar à luz em qualquer terra que se ligasse a Gaia, a deusa Terra, além de ser perseguida por um monstro denominado Píton, que Hera havia enviado atrás de Leto para não deixar que permanecesse tempo o suficiente para dar à luz em lugar nenhum. Até chegar em Delos. A qualidade de ilha flutuante - em algumas tradições criada especialmente por Possêidon, deus dos mares e tio de Apolo e Ártemis - de ser um espaço de terra não ligado a Gaia, fazia com que a ilha de Delos, ao contrário dos territórios da Ática e Trácia e das ilhas de Lesbos e Quios, por onde a deusa passara anteriormente, pudesse guarnecê-la e escondê-la de Píton para que desse à luz a seus gêmeos divinos.

O nascimento de Apolo
Diante da promessa de Leto de que seu filho construiria um magnífico templo em homenagem e gratidão à ilha que ousou opor-se à vontade de Hera compadecendo-se de uma mãe que sofria inúmeras dores num eterno e infindável trabalho de parto, duas pedras monstruosas irromperam do fundo do mar e sobre elas apoiou-se a ilha. Dessa forma Delos estabilizou-se e acolheu Leto.

Leto com Apolo e Ártemis
De imediato muitas deusas vieram auxiliar Leto no trabalho de parto. Menos a deusa Hera, que, ao tomar conhecimento de que Leto havia encontrado leito onde dar à luz, havia preso sua filha Eilítia, deusa das contrações do parto, afim de que o parto não pudesse se realizar. Por nove dias e nove noites fortes dores atormentaram a deusa. Mesmo Hera, após os longos dias e noites de sofrimento da parturiente, compadeceu-se das dores de Leto e libertou sua filha Eilítia para auxiliar no trabalhoso parto.

Quando na décima noite ela deu à luz a seus dois filhos, a escuridão noturna tornou-se um luminoso dia. O Sol [deus Hélios] surgiu majestoso no céu, lançando em direção à ilha seus raios de ouro. Não podia ser diferente uma vez que havia nascido o deus da luz, Apolo de cabelos dourados e sua irmã Ártemis, a deusa da noite enluarada.

Apolo tinha apenas quatro dias de vida e já era uma criança robusta, cheia de poderes divinos. Recebeu de seu pai, Zeus, um arco e uma lira de ouro, assim como sua irmã os recebera em prata. Todos eram obra do deus Hefesto, o deus do fogo e das forjas. Seu novo arco de ouro (algumas interpretações o colocam de prata) incentivou o jovem deus a iniciar uma caçada ao monstro Píton, que atormentara sua mãe durante a penosa busca por um solo para pari-lo.

Num instante Apolo voou ao Parnaso, onde o odioso monstro tinha seu covil. Até então ninguém ousara de indispor contra Píton, que espalhava por toda parte desgraças extraordinárias. Nos locais onde arrastava seu corpo de serpente a terra e seus frutos apodreciam e uma imundície se esparramava em tudo o que havia ao redor, enquanto os homens morriam assim que se deparavam com seu horroroso semblante.

Essa terrível serpente, ao perceber que alguém ousara se medir consigo, saiu do covil escuro e seu corpo monstruoso escorregou por entre as rochas, à procura do inimigo. Tão logo viu que tinha diante de si o filho de Leto, ficou enlouquecido de cólera e sua boca viscosa espumava ódio. Píton ergueu-se, colossal, bem à frente de Apolo, como se, com seu volumoso corpo, desejasse ridicularizar a temeridade do deus menino.

A questão da busca por esse enfrentamento da fera interior, do ser umbrático, sombrio, indefinido e pantanoso representa uma katábasis – palavra grega que significa ‘descida às trevas’ – realizada por Apolo, um momento em que o deus confronta o desconhecido que já existia e influenciava antes mesmo de seu nascimento e que agora estava sendo posto em xeque. De certa forma a serpente Píton significa um lado obscuro da própria Leto, um lado que não queria os filhos, que queria mantê-los como uma parte de si mesma, eternamente em trabalho de parto. Para que Apolo pudesse nascer essa Píton, essa ‘mãe serpente’ teve de ser destruída. Já veremos como o grego coloca esse ‘desconhecido familiar’ em xeque.

Um pouco mais sobre a origem de Apolo
As opiniões acerca da origem deste deus divergem bastante: há quem lhe dê por berço a Ásia, fazendo dele, primitivamente, uma divindade Hitita (os Hititas eram a raça do povo da cidade de Ílion, ou Tróia); outros o dizem um deus da Lícia; outros ainda consideram-no uma divindade nórdica. A própria Ilíada apresenta-o como aliado dos troianos (asiáticos), o que a princípio parece muito estranho, visto tratar-se do deus grego por excelência. Somente as mais recentes tradições gregas contam que Apolo, filho de Zeus e de Leto (identificada com a noite e também denominada ‘Latona’) é irmão gêmeo de Ártemis, pertencendo à segunda geração dos Olímpicos.

Apolo mata Píton
Mais rápido que um raio, Apolo atirou sobre Píton uma única seta. Acertou-o bem no meio da testa. Um urro terrível encheu os barrancos das montanhas e o horrendo monstro, fatalmente ferido, ia batendo nas rochas e encostas do Parnaso. Seu corpo monstruoso se enrolava e desenrolava desesperado de dor e, num dado instante, arremeteu-se imenso para o alto e, antes que pudesse alcançar Apolo, caiu de novo, para não mais levantar.

A imagem de Apolo como um deus da luz que ostenta uma certa frieza em ação, um certo ‘sangue-frio’ e objetividade, destaca um lado mais sombrio, mais simbolicamente ‘lunar’ do deus. A princípio Apolo seria uma divindade noturna, como veremos adiante em ‘O Apolo simbólico’.

Apolo canta o Peã
Cheio de alegria por sua grande vitória, Apolo apanhou o amado instrumento, a lira dourada, e começou a cantar o Peã1 da vitória. O triunfo de uma grande façanha era agora acompanhado de um outro triunfo – e este não era nada além de uma canção. Mas pela primeira vez no universo ouviu-se uma canção tão magnífica. Pelos seus versos e pela melodia fazia desaparecer todo o contraste entre a luta selvagem e a paz, entre a destruição e a criação, entre a morte e a vida. Era uma canção que abalava com sua força e beleza. Uma canção que fazia o universo ficar mudo e os homens, que tanto padeceram por causa de Píton, arrepiaram-se de emoção, com lágrimas de alegria a lhes encher os olhos.

Quando Apolo terminou seu peã, um barulho espalhou-se por toda a parte. Era o barulho dos gritos e urros de júbilo dos homens ao ouvir aquele hino triunfal. É com justiça que, desde então, Apolo é também incontestavelmente o deus da música.

O Oráculo de Delfos e o Apolo Pítio
Oráculo de Delfos, hoje em dia
O deus enterrou Píton na encosta do monte Parnaso, sobre sua sepultura fundou um templo e um oráculo. Trata-se do famoso Oráculo de Delfos, que prediz aos homens as decisões de Zeus, pai de Apolo. A partir de então Apolo ganhou um de seus epítetos, o de Apolo Pítio, já que, na estrutura simbólica do mito, é comum deixar que parte desse monstro que se encontra e se derrota no interior viscoso e umbralino, torne-se parte integrante da personalidade do ser que o haja derrotado. Essa estrutura pode ser encontrada quando Jasão engana ou mata o dragão que guardava o velocino de ouro e, ao fugir, leva Medeia, sua futura esposa, que também era parte integrante do dragão, da mesma forma Hércules veste-se com a pele do leão de Neméia após matá-lo, ou Perseu usa a cabeça da medusa para salvar Andrômeda. [Mais detalhes em ‘O Herói de Mil faces’ de Joseph Campbell]

O Oráculo de Delfos estava, então, associado à práticas primitivas de invocação dos mortos, já que era realizado sobre o corpo putrefato da serpente Píton e, pode-se dizer, valia-se de sua força vital, de sua ligação com sua mãe Gaia, a Terra, para realizar suas predições. Dessa maneira o Oráculo de Delfos, assim como Apolo, também tinha sua ‘sombra’[Jung], seu enraizamento nessa dimensão ctônica (do grego chthón ‘terra, terreno’) do reino dos mortos e do contato com os ancestrais.

A vidência ou mântica, na Grécia, é uma prática ligada ao transe e a sacerdotisa do templo de Apolo, a chamada Pitonisa (sim, também derivado da nossa velha amiga serpente), além de só poder fazer predições após ter passado por um estado de transe, também incorporava essa atmosfera perigosa, subterrânea, ligada à morte, às sementes e às famílias.

Sentada sobre um banquinho em tripé forrado com peles de serpente e que se equilibrava sobre uma fenda no chão donde se desprendiam vapores que auxiliavam na entrada no estado de transe, a Pitonisa passava as mensagens divinas a sacerdotes que a interpretavam e passavam para o consulente. Quem fosse consultar o Oráculo de Delfos não podia travar contato com a Pitonisa, somente com os sacerdotes-intérpretes de Apolo.

Antes de Apolo a mântica (prática de adivinhação), estava ligada aos mortos e agora assumia a forma da mântica solar de Apolo, sem perder algumas características anteriores. O templo de Apolo em Delfos era um local de purificação, de cura de doenças, contendas e chagas, mas ao mesmo tempo estava intimamente ligado à terra, aos mortos, ao subterrâneo.

O bom pastor
Píton era filho da deusa Gaia, a Terra, que agora considerava Apolo um assassino por o haver matado. Segundo o antigo direito grego, a Têmis, uma justiça que pode ser compreendida como o ‘olho por olho’, Gaia tinha todo o direito de matar Apolo, castigá-lo ou puni-lo como lhe aprouvesse. Mas como o jovem deus também era predestinado a ser o deus que absolveria os pecados dos assassinos arrependidos (ver Apolo na Oréstia), era preciso que primeiro ele próprio se purificasse do crime. Resolveu, então, fazer isso mesmo, ainda que o assassinato que cometera tivesse sido uma bênção para deuses e homens. Por isso – em algumas interpretações por iniciativa própria e em outras por ordem de seu pai Zeus – despojou-se de sua substância divina e rumou para a Tessália, onde se tornou um humilde pastor a serviço do rei Admeto.

Coisas estranhas aconteciam quando Apolo saía para levar ao pasto os rebanhos de seu patrão. Quando o deus pegava a lira e dedilhava suas cordas, os animais selvagens, encantados, saíam da floresta e saltitavam alegremente ao redor dele, junto com os carneiros e as vacas. Posteriormente essa habilidade de Apolo foi herdada por seu filho Pan, o sátiro dos bosques.

Desde a época da chegada de Apolo a riqueza e a alegria inundaram a corte de Admeto: seus animais se multiplicaram, seus estoques se encheram de sacas e sacas de cereais, suas talhas transbordaram de azeite e vinho, de azeitonas e de manteiga. Carregados também estavam os muros e o teto, de onde pendiam pesadas sacolas com queijo e outros produtos comestíveis. Tudo do bom e do melhor, pois aquela cidade era a morada – ainda que inadvertidamente – do deus da abundância, da fartura e também irônicamente do métron, da moderação, do comedimento. Como Apolo poderia ser simultaneamente o deus de tais opostos? Veremos mais adiante.

Admeto, jovem e belo, orgulhava-se de sua riqueza. Montado em seu cavalo branco, saía para a planície, admirando seus rebanhos. Seus cavalos, cheios de vigor, beleza e agilidade, corriam pela vasta campina e seus bois puxavam com força o arado, que se metia bem fundo dentro da terra fértil, como se Gaia houvesse reatado amizade ou ao menos perdoado Apolo por sua humildade.

Não era de se admirar que muitos reis agora quisessem Admeto como seu genro e, para isso, lhe apresentavam as filhas. Porém seu coração era de Alceste, a belíssima filha de Pélias, o rei da vizinha Iolco.

A façanha de Admeto
Pélias, no entanto, não tinha a intenção de casar sua filha, pois queria que ela cuidasse dele em sua velhice – o que era a desculpa aberta para encobrir uma paixão platônica e incestuosa que o rei de Iolco sentia pela própria filha -. Por isso Pélias declarou que daria a mão de Alceste em casamento somente àquele que conseguisse atrelar a um carro (os gregos costumavam usar quadrigas e não bigas, como os romanos) um leão e um javali juntos.

Como alguém poderia atrelar lado a lado dois animais tão selvagens e diferentes, uma vez que até então ninguém ousara nem mesmo jungir apenas um deles?

Admeto, no entanto, inflamado de amor por Alceste, decidiu enfrentar o grande desafio. Sua coragem, porém, não deixou de comover Apolo. O perigo de que o ousado jovem fosse despedaçado pelas duas feras era iminente e o deus de cabelos dourados resolveu ajudá-lo e dar a ele a força necessária para atingir seu intento. Assim o intrépido Admeto realizou a grande proeza exigida por Pélias e eis que agora corria em direção a Iolco, sobre o carro puxado por um leão e um javali juntos!

Cheio de admiração pela inacreditável façanha do rapaz – e um certo receio de que o jovem rei estivesse sobre a proteção de algum deus –, Pélias deu-lhe a mão de sua filha em casamento. Alceste sentou-se no mesmo carro e Admeto a levou em triunfo para o seu palácio, onde realizou um grandioso casamento.

Por nove anos o deus da luz teve de permanecer nas terras de Admeto. Ao término do nono ano, já purificado de seu crime, retornou a Delfos. Desde então Apolo é o deus do grande e nobre sentimento de perdão e protege todo o homem que mostrar um real arrependimento.

Estar em Delfos, onde agora erguiam-se o magnífico templo e o oráculo sagrado, muito agradava a Apolo que, contudo, não se esquecia de Delos, sua ilha natal. Muito menos da promessa que sua mãe, a deusa Leto, havia feito ali. Por isso, pouco tempo depois, um templo resplandecente, o templo de Apolo, distinguia-se entre todos os santuários de Delos.

Escravo de Dânao
Outras versões contam que Após matar Píton, Zeus mandara Apolo para o oriente, como escravo do rei Dânao, para que este dele se servisse como melhor o aprouvesse. Esse rei pediu a Apolo (e também a Possêidon que se encontrava juntamente com Apolo na condição de escravo) que construísse as muralhas da cidade de Ílion, também conhecida como Tróia. É por isso que as muralhas de Tróia não puderam ser derrubadas. Não foram construídas por mãos humanas e mãos ou armas humanas não seriam capazes de pô-las abaixo.

Esta teria sido uma outra forma de purificação para o crime de Apolo, que também pode ser lida como punição de Zeus contra uma outra revolta dos deuses olímpicos chefiados por Possêidon e Hera contra Zeus, mas essa é outra história.

No País dos Hiperbóreos
Também chegava o tempo em que deixava a Hélade (Grécia) para ir ao ilmunidado, ao fabuloso país dos Hiperbóreos, onde morava sua mãe. Apolo é um deus com traços pluriculturais e especialmente orientais e não é de se estranhar que sua mãe pudesse aparecer algumas vezes como ‘estrangeira’. O fato de ser um deus oriental explica a atuação de Apolo ao lado dos troianos na Ilíada, de Homero.

Apolo realizava uma longa, mas belíssima viagem para chegar àquele país encantador. Montado em um carro alado, puxado por dois grandes e branquíssimos cisnes, viajava por sobre as nuvens, deixando a Hélade (Grécia) para trás de si. Conforme rumava mais e mais para o norte, apareciam do alto as primeiras neves que cobrem os picos das montanhas, como se fossem capuzes muito brancos. Em seguida a neve ia ficando mais abundante, até que enfim, tudo o que se via abaixo do carro de Apolo parecia estar coberto com um alvíssimo lençol. No alto, porém, onde voava o deus de cabelos dourados, o tempo era como de primavera e os cisnes arrastavam incansavelmente o carro divino.

Enfim, prosseguindo ainda mais para o norte, a neve começava novamente a diminuir e ao longe, além do norte, sobressaíam os raios dourados do sol, que passavam pelas nuvens e iluminavam uma terra fascinante.

Esse era o país dos Hiperbóreos, do eterno e fresco verão, das muitas cores e da abundância de luz, das águas cristalinas e dos pássaros paradisíacos que cantavam docemente. A tradução de ‘Hiperbóreos’ é ‘habitantes além do Bóreas’ (o vento norte), um povo lendário que na imaginação mítica dos gregos morava na região norte do mundo, onde o sol nascie e se punha apenas uma vez por ano, e onde esse povo vivia em paz e era feliz.Segundo constava os Hiperbóreos tinham uma veneração especial por Apolo.

Estaria aí, talvez, a lembrança nostálgica dessas paragens longínquas, de onde os primeiros helênicos passaram à Grécia, no começo do décimo milênio antes da era cristã. Os gregos consideravam o Hiperbóreo um pouco à maneira da Etiópia e da Atlântida, como uma espécie de paraíso remoto, um sítio de recreio para bem aventurados, masl definido geograficamente. Foi de lá que partiu a flecha prodigiosa que formou, no céu, a constelação de Sagitário.

Mal o deus de cabelos dourados descia do carro e pisava a relva verde, uma verdadeira festa acontecia, com os pássaros que voavam entre as árvores e os raios dourados do sol. Gorjeavam de modo tão belo que pareciam até mesmo as melodias divinas da lira de Apolo.

Todavia, no mesmo instante, lá longe na Hélade, nuvens negras haviam coberto o sol. Fazia frio e chovia, porque o deus da luz tinha partido, porque chegava o escuro inverno – época em que Core, ou Perséfone, guiada por Hermes, voltava ao Hades para conviver com seu marido e, sua mãe, Deméter, deusa da terra e das estações do ano, entrava em profunda depressão -. Os homens, reunidos em torno do fogo, esperavam pacientemente pelo retorno de Apolo em luz e calor e de Perséfone, para que Deméter florescesse a terra.

O Hiperbóreo, então, era uma espécie de super-homem, vivente feliz, sábio, mágico até um certo ponto, e habitante de um país um tanto Utópico. É interessante verificar como, à medida que os deuses iam, passo a passo, se distanciando do mundo dos mortais e à medida em que estes mesmo mortais se distanciavam das ‘leis’ personificadas nestes deuses, o país dos Hiperbóreos começou a florescer para os homens como um Éden para os deuses, espaço em que eram valorizados ao máximo, glorificados e exaltados por um povo que poderia ser interpretado pelo povo helênico (o povo grego) como o povo merecedor dos deuses, o povo temente, sem disputas, sem cismas, a raça perfeita, o paraíso na terra. É plausível que essa comparação social feita pelos gregos aos seus ‘irmãos’ hiperbóreos tenha uma forte influência na continuidade da religião helênica. Como se o fato da crença nos deuses estar se tornando mais fluídica fosse também pelo fato desses mesmos deuses encontrarem quem os adore de maneira mais própria.

As desventuras amorosas de Apolo:
Apolo e Dafne
Apolo amava muito o belo da vida. Uma vez, em Delfos, quando experimentava com as setas de ouro sua habilidade no tiro ao alvo, o jovem Eros, filho alado de Afrodite, apresentou-se diante dele. Parecia estar à procura de uma oportunidade de enlear o deus em alguma aventura amorosa.

Naquele momento a flecha de Apolo havia atingido o talo de uma maçã pendurada no galho de uma macieira distante. Eros apanhou então o seu arco e o ergueu, alvejando a mesma maçã antes que esta chegasse ao solo.

- Deixe-me atirar minhas setas em paz, menino! – Disse Apolo aborrecido. – E te faria muito bem não ousar medir-se comigo!
- Sei que suas flechas não erram o alvo – disse o risonho Eros -, mas as minhas também são infalíveis.
Mais aborrecido ainda do que Apolo, Eros abriu as asas e voou para o alto do Parnaso. Em seguida puxou da aljava duas flechas: uma era a flecha que despertava o amor e a outra era aquela que o recusa. Com a primeira feriu Apolo direto no coração e com a segunda a ninfa Dafne, filha do rio Peneio, que àquela hora passava, desapercebida, perto do deus de cabelos dourados.

Apolo, atingido pela seta do amor, ficou maravilhado com a beleza da ninfa e seu porte delicado, e avançou para o lugar onde ela estava, com o intuito de lhe falar. Dafne, porém, atingida pela flecha que recusa o amor, assim que viu Apolo, afastou-se. Ele, então, se aproximou ainda mais, mas a ninfa, com passos ligeiros, foi para mais longe. Apolo com saltos rápidos tentou chegar perto da bela Dafne. E foi isso. Ela saiu correndo. Como louco o deus a perseguia, gritando-lhe para que parasse, mas ela corria cada vez mais.

- Pare, eu lhe peço! – implorava o filho de Leto. – Não quero lhe fazer mal!

Mas a ninfa de pés ligeiros não dava sinais de que iria parar e escapava dele continuamente. Apolo, por sua vez, também não desanimava e sempre a perseguia e a pedia que parasse: - Não tenha medo, bela ninfa. Por que foge como se algum animal selvagem a perseguisse? Não sou mal, sou Apolo, filho de Zeus. Ordeno a você que pare de correr assustada.

Por essa passagem percebe-se o ‘fino trato’ que Apolo possuía ao lidar com a natureza feminina, ao ‘ordenar’ que ela deixasse de se assustar com ele.

Mesmo com toda a ‘sensibilidade’ de Apolo, Dafne continuava a correr. Ora Apolo se aproximava dela parecendo que iria alcança-la, ora ela se distanciava dele com um súbito solavanco. Em seguida ele a alcançava de novo, pronto para tocá-la, mas mais uma vez a ninfa escapava, como uma borboleta assustada.

O deus de cabelos dourados, no entanto, não parecia estar disposto a parar sua desenfreada perseguição. A flecha de Eros havia despertado nele uma paixão feroz.

- Por mais que ela resista, uma hora se cansará e eu a alcançarei. – E, de fato, Dafne começou a ficar cansada. O deus da luz aproximava-se cada vez mais... e eis que estendia os braços e chegava perto de tocá-la, de apanhá-la...

- Oh, deuses! E você, meu pai, por que me deixas cair nas mãos de Apolo? Não o quero para meu amante! Melhor eu me transformar numa pedra ou numa árvore, do que ser tocada por alguém que não amo! Ainda que seja ele um deus!

A Metamorfose de Dafne
E, realmente, naquele instante, Dafne enrijeceu-se. De seus braços e cabelos despontaram galhos e folhas, enquanto seu corpo tornou-se o tronco de uma árvore. Assim, a jovem ninfa se transformou no perfumado loureiro, que todos conhecemos. Apolo, em alta velocidade, em vez de agarrar a linda moça, agarrou a copa de uma árvore.

Uma grande tristeza se apossou então do deus da luz. Ficou muito aflito por ter causado o desaparecimento da ninfa que ele amara tão repentina e fervorosamente. Com olhos tristes, acariciou as folhas do cheiroso loureiro e, em seguida, cortou um ramo e o colocou na cabeça. Nunca Apolo esqueceria a bela a indomável ninfa. E é por isso que muito freqüentemente ele se apresenta com folhas de louro à cabeça.

Apolo e Marpessa
Apolo jamais de casou. Era o mais belo de todos os deuses, levava sua vida como lhe agradava, e estava satisfeito. No entanto uma vez prometeu casamento, mas nem nessa ocasião era seguro que permaneceria fiel e, felizmente, o casamento não aconteceu.

Isso ocorreu com Marpessa, a filha do rei da Etólia. O pai da moça, o rei Eveno, era muito duro com ela, mas também era um guerreiro digno e valente. Tomou então a decisão de que daria sua filha em casamento somente àquele que o vencesse em um duelo de carros.

Pela mão da formosa Marpessa e pela sua abundante fortuna, muitos tiveram a coragem de duelar com Eveno, mas todos foram mortos e ninguém mais ousava se medir com ele. Até que um dia apresentou-se diante de Marpessa, montado em Pégaso, um cavalo alado, um lindo e audacioso rapaz. Esse era o invencível herói Idas, filho do rei da Messênia.

Marpéssia, que havia escutado muitas histórias sobre as proezas de Idas, ficou aterrorizada ao vê-lo. Melhor não se casar nunca do que tomar como esposo aquele que matasse seu pai. Afinal, Eveno não tinha que lutar agora contra um rapaz qualquer, mas com o célebre herói Idas, que poderia matá-lo.

Marpessa e Idas
O herói, ao ver o rosto assustado de Marpessa, percebeu o que ela estava pensando e lhe disse bondosamente: - Ouça, linda princesa: não vim para assassinar o seu pai. Nem desejo a sua riqueza, nem o seu trono. Venha, pois, para que fujamos antes do dia nascer.

Marpessa, ao ouvir as sensatas palavras do gentil rapaz, sentiu-se envolvida pela felicidade e prontamente aceitou acompanhar Idas. Ele a fez montar o belo Pégaso, que fora presente do deus Possêidon, e agora corriam rapidamente para a Messênia.

Assim que o rei Eveno tomou conhecimento de que sua filha havia fugido com Idas, chamou Apolo em seu auxílio. O deus de cabelos dourados, que amava Marpessa, aceitou de bom grado ajudá-lo e, como um raio, os dois partiram para alcançá-los.

Entretanto, enquanto atravessavam o rio Licormas, Eveno foi arrastado por suas furiosas águas.  Apolo correu e conseguiu apanhá-lo, mas já era tarde: Eveno tinha morrido. O deus da luz prometeu então ao rei morto que tomaria Marpessa de Idas e a tornaria sua mulher, que seu neto seria um famoso herói. Disse-lhe ainda que, mesmo morto, seu nome seria imortal, porque aquele rio que lhe tomara a vida passaria a se chamar Eveno. E, tendo dito estas palavras, como um raio partiu novamente ao encalço de Idas que, antes de conseguir chegar à Messênia, viu-se face a face com Apolo.

A luta de Apolo e Idas
Idas percebeu de imediato o que o deus queria e, em vez de recuar, entrou rapidamente na frente de Marpessa para protegê-la, enquanto seu olhar taciturno mostrava que estava pronto para tudo. Ele, que não quisera duelar com Eveno, não hesitava agora em se indispor com um deus! Assim, os dois rivais não demoraram a começar a briga.

A luta entre Idas e Apolo foi terrível. Impulsionado por seu amor por Marpessa, Idas avançou sobre Apolo como um leão e Zeus, notando a batalha do alto do Olimpo, quis apartá-los, o que parecia impossível, até que o rei dos deuses decidiu lançar um relâmpago no meio deles.

Ao se separarem o deus dos raios ordenou que lhe pusessem a par do que estava acontecendo:
- Zeus, meu pai – disse Apolo – quero Marpessa para minha esposa e é um grande desrespeito que um mortal queira me impedir!
- Pai dos deuses e dos homens – disse Idas – Marpessa é minha e nada irá me fazer recuar!
Zeus ficou pensativo por alguns instantes e em seguida, virando-se para Marpessa, disse-lhe:
- Linda princesa, você tem todo o direito de escolher sozinha o marido que deseja e eu lhe prometo que será como você decidir!
Marpessa, tendo primeiramente agradecido humildemente ao grande Zeus por aquela decisão, voltou-se para o deus da luz e lhe disse:
Vaso grego mostrando Marpessa entre Apolo e Idas
- Apolo, você é um deus. Goza e sempre gozará de eterna juventude, jamais envelhecerá. Eu, porém, ficarei velha um dia e, então, você me abandonará. Senhor Zeus, há anos vivo sofrendo, destinada a tomar por esposo, caso venha a me casar, o assassino de meu pai. Apenas Idas demonstrou ter amor, sabedoria e bravura sem igual entre todos os meus pretendentes. Eu o amo e quero me tornar sua esposa.

E assim foi, Apolo se submeteu à vontade de Zeus e, cheio de admiração pelo bom senso de Marpessa e pela audácia de Idas, desejou-lhes que vivessem felizes e partiu para Delfos.

Cassandra
Apolo também apaixonou-se por Cassandra, filha de Príamo, o sábio rei de Ílion (Tróia) e ela lhe prometeu que, se o deus da luz lhe ensinasse a arte da predição, a sua mântica solar, ela, de posse dessa habilidade, se entregaria a ele.

Apolo então a acolheu como sua sacerdotisa e a ela foi ensinada a arte da adivinhação, da interpretação da vontade de Zeus, ou da vontade das Moiras, as deusas que fiavam o destino dos homens. Ao final de seu período como neófita nas artes de Apolo, Cassandra se recusou a entregar-se ao mais belo dos deuses e Apolo, ultrajado por haver sido descartado, cuspiu na boca de Cassandra gerando um miasma, uma chaga, que impedia qualquer pessoa de acreditar nas predições de Cassandra, muito embora ela nunca houvesse errado uma única vez sequer.

Um outro efeito do miasma de Apolo foi uma espécie de ‘histeria’ que fazia com que a profetisa não conseguisse se conter ao fazer previsões, que as fizesse sempre aos berros, sacudindo o corpo e arrancando os cabelos, de forma que nunca era acreditada, como quando profetizou que o Cavalo dos gregos, dado de presente para a cidade de Ílion (Tróia) após dez anos de guerra, estava repleto de soldados que incendiariam a cidade à noite.

Calíope
A união de Apolo com a ninfa Calíope deu nascimento ao músico e herói Orfeu. É significativo que tanto Pan quanto Orfeu, conhecidos por sua habilidade musical, sejam filhos de Apolo, o deus da música. Calíope morreu no parto.

Corônis
A bela Coronis, filha de Flégias, rei dos Lápitas, da Tessália, fugia das investidas de Apolo, que conseguiu encurralá-la numa caverna e lá a forçou a entregar-se a ele. Ao saber que Corônis o havia traído, Apolo flecha a princesa na barriga, mas salva o próprio filho, Asclépio, que se torna o patrono da medicina.

Cirene
Depois de várias desventuras amorosas frustradas, Apolo resolve se consultar com seu pai Zeus, que, ao contrário do absurdamente belo filho, não perdia uma conquista amorosa. Zeus lhe aconselhou que, para que se aproximasse de sua escolhida, Apolo se metamorfoseasse em um animal e brincasse um pouco com ela para deixá-la mais à vontade, para que não fugisse dele como era o ‘modus operanti’ das vítimas dos flertes do deus da luz.

Então Apolo, enamorado da náiade Cirene, metamorfoseou-se em uma pequena tartaruga (convenhamos: Zeus se metamorfoseava em cisne, urso, chuvas de prata, tinha um pouco mais de charme) e Cirene se interessou pela pequena tartaruga. Pegou-a, acariciou, brincou com sua cabeça e, já e sentindo bem à vontade com o pequeno réptil, colocou-o em seu colo e o abraçou. Apolo não se contendo mais abriu a boca em direção ao seio de Cirene e o abocanhou com força tal que jorraram gotas de sangue enquanto a bela náiade se desvencilhava do pequeno animal traiçoeiro jogando-o longe.


Ao som da Lira de Ouro
Apolo não conhecia a aflição e, de posse de sua lira, espantava toda e qualquer preocupação e concedia tranqüilidade e alegria. Freqüentemente tocava seu amado instrumento nos banquetes do Olimpo. Quando o deus de cabelos dourados encostava os dedos nas cordas mágicas de sua lira de ouro, as nove Musas corriam alegres para o seu lado e começavam a cantar. Todo o palácio se enchia de doces melodias divinas. Logo vinha a vontade de dançar, saltavam imediatamente as Musas e as Graças e com elas a belíssima Afrodite. Quanto mais aumentava a alegria no Olimpo, mais diminuía a infelicidade na Terra.

Apolo também tinha filhos. Um deles era Pã de pés de bode, o deus dos bosques. Outro filho seu era o célebre médico Asclépio. Sua mãe era Corônis, filha do rei da Tessália. Porém, ela morreu assim que deu à luz. Seu pai então entregou-o nas mãos do maior preceptor que havia no mundo: o centauro Quíron, que morava no verdejante Pélion. Foi junto a Quíron que Asclépio aprendeu tantas coisas sobre medicina e, por fim, superou seu mestre. Além de não haver doença que ele não pudesse tratar, chegou mesmo a ressuscitar mortos! Entretanto, esse grande bem para a humanidade não haveria de durar muito...

 Asclépio
Hades, o inominável, irmão de Zeus e senhor do mundo subterrâneo também denominado Hades, foi se queixar ao seu irmão Zeus da ressurreição dos mortos, pois teve medo de que o reino do mundo inferior ficasse vazio.

Asclépio, herói da medicina
O soberano dos deuses e dos homens, ao ouvir falar da ressurreição dos mortos, pôs-se de pé de um salto, cheio de ira. Suas sobrancelhas se franziam, seus olhos ganharam um brilho de cólera e imediatamente nuvens negras encheram o céu. Começou a relampejar e a trovejar, abalando a terra como se o céu inteiro viesse abaixo.

- Quem é ele para querer modificar a ordem e as leis que existem no mundo? – Gritou com voz de trovão. E, com um raio, atingiu Asclépio imediatementee o enviou ao reino do Hades.

Apolo chorou a perda do filho, porém os homens choraram ainda mais, pois o adoravam, mais até que a muitos deuses. Entretanto, mesmo do reino do mundo inferior, Asclépio tinha forças para ajudar os homens e curar doentes. Toda a Grécia estava cheia de templos de Asclépio e de ‘asclepeions’, que eram como hospitais ou centros de cura, construídos no ponto mais saudável de uma região. Neles os sacerdotes do ‘deus-médico’ cuidavam dos doentes com conselhos, plantas e oraçãoes.

Asclépio ainda contava em seu trabalho com a ajuda de suas filhas, a deusa Hígia e a deusa Panacéia3. A primeira cuidava para que os homens vivessem de forma saudável, para não adoecerem, e a segunda era uma importante farmacêutica. Tinha elaborado ainda um remédio que levava seu nome. Como a ‘panacéia’ não havia outro, era um remédio muito raro, mas curava todas as doenças. Assim diziam...

Apolo e Hélios, quem diabos é o deus-Sol?
O Colosso de Rodes, representando o deus sol Hélios
Sendo o deus do dia e da luz, Apolo não era, contudo, o próprio sol. Conduzia apenas o seu carro, o carro do Sol, e, no desempenho dessa função, tinha o nome de Febo. Vivificava os seres, fazia germinar as plantas e amadurecer os frutos e as searas, purificava a atmosfera e destruía os miasmas, mas era ele igualmente o deus da canícula, das secas; o deus forte e sempre vitorioso, mas também o deus que mata.

Hélios era o deus-Sol, o sol em si, o astro, filho dos titãs Hipérion e Téia, irmão de Eos, deusa da aurora e de Selene, a Lua. Era uma divindade muito atarefada em percorrer o mundo e pouco se envolvia nos assuntos de deuses e homens. Tem uma participação importante em Homero, na Odisséia, onde, em sua ilha, tem seus bois roubados e assados pelos homens de Ulisses.

Apolo na tragédia grega

O Apolo da Oréstia
A Oréstia é uma tragédia de Ésquilo, autor de Prometeu Acorrentado e Os Persas. A Oréstia demonstra de maneira espetacular o conflito que se forma entre o poder decrescente dos deuses e da sua justiça arcaica, a Têmis, e o poder ascendente do homem grego dentro da Polis democrática. O conflito básico em Ésquilo (e também em Sófocles) se dá entre o Cosmo legitimado dos deuses e o poder profano, a independência do homem arquitetada no seu arbítrio que lhe conferia também a responsabilidade por seus atos. Esse homem da Polis grega, responsável por seus atos, é o ‘homem trágico’ de Vernant em sua obra Mito e Tragédia na Grécia Antiga.

O Apolo da Oréstia é um deus Kourós (jovem entre 18 e 19 anos, ainda não adulto e já não mais criança, espécie de pós-adolescente), ligado à iniciação, um guia iniciático de adolescentes em ritos de passagem. O papel do Oráculo de Delfos na Oréstia está ligado à passagem da Têmis (justiça dos valores Homéricos, do pensamento mítico e do homem como objeto dos deuses) para a Dike (justiça alicerçada nos valores da Polis e do cidadão, do homem como sujeito dotado de livre-arbítrio), a um processo de moralização da cultura grega para os moldes da Polis, com a responsabilidade individual como um grande marco, o horror ao crime como uma nova perspectiva e tendo o auto-conhecimento, o famoso ‘conhece-te a ti mesmo’ (em grego gnoti sáuton) inscrito no portal do templo de Apolo, como um conhecimento dos próprios limites, como uma recomendação do métron (a ‘moderação’).

O funcionamento do ‘conhece-te a ti mesmo’ de Apolo e a lógica interna da atuação, a princípio incoerente do deus, é expresso perfeitamente na Oréstia. O primeiro passo é forçar o indivíduo a ir ao seu limite, a cometer um crime, uma Lyssa, uma hamartia, uma ‘falta trágica’, ir às trevas de seu ser, literalmente descer ao mais baixo ponto em que aquele ser humano em especial pode chegar. Apolo, na qualidade de deus de uma tradição patriarcal, pede a Orestes que ‘vingue o assassinato de seu pai’. Orestes, para ser guiado por esse Apolo Kourós, por esse Apolo guia dos jovens em seus ritos iniciáticos, estava com seus 15 ou 16 anos. O segundo passo é descer às trevas interiores, efetuar a Katábasis, que implica em realizar a hamartia, a descer no mais profundo de sua alma, a conhecer, por dentro, as trevas interiores do próprio inconsciente, da própria alma, pois para que Orestes pudesse se vingar do assassinato de seu pai era preciso que ele assassinasse também quem havia tomado a vida de seu pai, e essa era sua mãe, Clitemnestra que, após alguns anos de guerra em que seu marido, Agamêmnon, ficou em terras estrangeiras para resgatar a esposa do irmão, Helena, esposa de Menelau, uniu-se com Egisto, o primo de seu marido, com o qual tramou e executou a morte de Agamêmnon, pai de Orestes. E Orestes, por instrução de Apolo e com a ajuda da irmã Electra, mata a mãe e o tio, chega ao fundo de seu inconsciente, ao limite trágico de sua existência. O terceiro passo é o resgate de Orestes, quando pensa que estará livre de qualquer sanção por haver executado a mãe a mando de Apolo, o espírito da mãe invoca as Eríneas, deusas ancestrais que salvaguardavam a família e o poder do matriarcado para seguir o filho invocando-lhe a culpa e a loucura. Orestes foge das Eríneas e vai ao templo de Apolo em Delfos para que o deus o salve dessa culpa e dessa loucura que o perseguem sempre de perto. É aí que Apolo aparece, como personagem, na Oréstia, em sua terceira parte, nas Eumênides:

Falas de Apolo como guia iniciático, dirigindo-se a Orestes:
- Jamais te trairei! Serei até o fim teu guardião fiel, quer esteja a teu lado, quer nos separem distância intermináveis e em tempo algum protegerei teus inimigos.

- Deves, porém, fugir daqui e ter cuidado. Elas querem continuar a perseguir-te e te procurarão por todos os lugares, tentando sempre te expulsar de onde estiveres em tuas longas caminhadas sem destino, além do mar e das cidades que ele cerca. E não te deixes dominar pelo cansaço enquanto pastoreias tuas desventuras; mas, quando perceberes que afinal chegaste À nobre cidade de Palas (Palas Atena, a deusa, a cidade referida é a cidade de Atenas), ajoelha-te e abraça a imagem antiqüíssima da deusa...

Fala de Apolo como representante da nova geração patriarcal de deuses e sem respeito pela antiga geração:
- Já podes ver as fúrias dominadas; vencidas por pesado sono, ei-las imóveis, estas virgens malditas, filhas antiqüíssimas de um passado remoto (...) criaturas malditas por todos os homens e pelos deuses que se reúnem no Olimpo.

Apolo envia Orestes para Atenas pois não pode efetuar a viagem para Orestes, não pode tirar de Orestes o mérito por haver ido ao mais fundo de seu ser, ao seu último limite, e ter retrocedido plenamente consciente de quem é de que escolhas é capaz. Esse Apolo é plenamente consciente de seu papel como guia e protetor.

Na qualidade de deus purificador, de deus da luz, em contraposição às sombras, aos fantasmas representados pelas Eríneas, essas antigas deusas protetoras do matriarcado e da dimensão pantanosa, nebulosa, terrena e aquosa do princípio feminino, Apolo sai de seu templo infestado pelas Eríneas com o arco na mão pronto para ser usado. Após humilhá-las verbalmente nos versos 235 ao 254: - ‘Abandonai agora mesmo a minha casa! Ordeno-vos! Deixai em paz o santuário onde proclamo profecias verdadeiras; se não obedecerdes sereis atingidas pelas serpentes sibilantes de asas brancas (referência às próprias flechas) que, saltando da corda de meu arco áureo, vos forçarão a vomitar, entre estertores a negra espuma que deveis a tantos homens e a expelir o sangue que sugaste deles!’, demonstra como a questão da aparência é importante para Apolo: - ‘E vosso aspecto é condizente com tal gosto’.

Os sofrimentos de Orestes
A estratégia argumentativa de Apolo para com as Eríneas é impressionante em sua capacidade de reverter os ditos das antigas deusas, mas contém seus hiatos porque coloca em conflito direto duas lógicas essencialmente contrárias e complementares, o matriarcado e o patriarcado. Ao mesmo tempo em que cumpre às Eríneas ‘expelir do lar os matricidas’ [verso 245], Apolo relativiza a questão perguntando-lhes o que faziam quando a mulher, Clitemnestra, mata o marido, Agamêmnon.

Uma questão que fica levantada é a de que, ao instruir Orestes a que procure a deusa Atena ao invés dele mesmo, Apolo, eliminar as Eríneas, Apolo estaria apenas ciente de que Orestes precisava expiar ainda mais sua culpa e a ‘loucura’ de haver chegado ao ponto de assassinar a própria mãe, ou se ele mesmo, Apolo, possuía discernimento suficiente sobre si mesmo para perceber que julgaria Orestes sem uma visão clara do lado representado pelo fantasma de Clitemnestra e suas Eríneas, do lado matriarcal. Ou será que Apolo, como deus das predições, sabia do destino das Eríneas, que haviam de se transformar em Eumênides e mudar sua natureza, ou da importância da criação do tribunal em Atenas para julgar o crime de Orestes?

O Apolo simbólico
Ao surgir durante a noite, na Ilíada, Febo Apolo, deus do arco de prata (canto1), brilha como a lua. Será preciso levar em conta a evolução dos espíritos e a interpretação dos mitos para que se possa reconhecer nele, muito mais tarde, o deus solar, o deus de luz, e para entender que seu arco e suas flechas sejam comparados ao sol com seus raios. Originalmente talvez se relacionasse mais à simbólica lunar. Apresenta-se no canto 1 acima mencionado como um deus vingador de flechas mortíferas: O senhor arqueiro, o toxóforo, o argirotoxo (que tem o arco de prata).
                           
De início revela-se sob o signo da violência e de um orgulho desvairado. Mas, ao reunirem-se elementos diversos de origem nórdica, asiática e do mar Egeu, esse personagem divino torna-se cada vez mais complexo, sintetizando em si inúmeras oposições que consegue dominar, terminando por encarar o ideal de sabedoria que define o milagre grego. Realiza o equilíbrio e a harmonia dos desejos, não pela supressão das pulsões humanas, mas por orientá-las no sentido de uma espiritualização progressiva que se processa graças ao desenvolvimento da consciência.

Deus muito complexo, terrivelmente banalizado quando o reduzem à figura de um homem jovem, sábio e belo, ou quando – numa simplificação do pensamento de Nietzsche – o opõem a Dioniso, como a razão contraposta ao entusiasmo. Pelo contrário, Apolo é o símbolo da vitória sobre a violência, do autodomínio do entusiasmo, da aliança entre a paixão e a razão – filho de um deus (Zeus) e neto (por parte de sua mãe, Leto) de um Titã. Sua sabedoria é fruto de uma conquista, e não uma herança. Todas as potências da vida nele se conjugam a fim de incitá-lo a não encontrar seu equilíbrio senão nos pináculos, e para conduzi-lo da entrada da caverna imensa (Ésquilo) aos cimos dos céus (Plutarco). Apolo simboliza a suprema espiritualização; é um dos mais belos símbolos da ascensão humana.

Texto por Renato Kress
Criador do projeto Mito e Mente

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Zeus, trecho da apostila do terceiro encontro Mito e Mente: Gerações


"Zeus, o legislador aflito
Em uma religião em que divindades se sobrepõem sobre um significado e que significados sobrepõem-se sobre uma única divindade, a divindade suprema é o superlativo dos mais diversos significados que englobam o arquétipo-guia, o fio condutor, legislador e mantenedor da ordem. Numa realidade mitológica rica, complexa e densa como a grega a divindade suprema representa também a descida às trevas e o retorno, a vitória, da luz renascida.

Zeus, palavra que advém do indo-europeu “deiws” e do índico “dyaus”, donde advém “dyaus pitar” [deus pai], que gerou o latim diou+piter  Júpiter, ou o germano “tues” (tues + Day  Tuesday, o dia de Deus, Zeus, Odin, Wotan...), donde se conclui que, para além das significâncias conjugadas, a principal função de Zeus, aquela que se sobressai no cruzamento das culturas, é a de ser “pai”. Portanto na cultura e na religião gregas Zeus representava e servia de arquétipo para a estruturação moral, intelectual e espiritual dos homens e dos deuses, representando a lei, as instituições da Pólis (cidade) e do logos (razão).

Para uma boa descrição da representação de Zeus dentro da mitologia grega, seria proveitoso destrinchar o termo logos e as suas concepções, todas relacionadas ao princípio Jupteriano de alicerce universal. Em Heráclito, o Logos seria o princípio cósmico que confere ordem e racionalidade ao mundo, de forma análoga a como a razão humana ordena a ação humana, portanto Zeus representa tanto a ordem mundial quanto a consciência humana, em sua luminosidade sobre nossos demônios interiores, como um padrão ético ou arquétipo moral. No estoicismo temos a razão seminal (logos spermátikós) que é a fonte cósmica da ordem: seus aspectos são o destino, a providência e a natureza, características que se confundem, dentro das histórias da mitologia, com a área de poder e influência de Zeus. O logos têm ainda uma outra perspectiva: permite-nos apreender os princípios e as formas, ou seja, um aspecto da nossa razão. Esta noção está presente na idéia posterior de leis da natureza, se forme concebidas como princípios independentes, reguladores do curso natural dos acontecimentos, existindo, no entanto, além desse mundo temporal que regulam. Essa é, em parte, a representação de Zeus, ponto onde o Grande Pai, Legislador, Senhor e Herói grego convergem no logos.

Simbolismo do rei dos Deuses
Em Chevalier Zeus representa “o reino do espírito. É o organizador do mundo exterior e interior; é dele que depende a regularidade das leis físicas, sociais, morais.”. Ele é, segundo Mircea Eliade “o arquétipo do chefe da família patriarcal. Deus da luz, é o soberano pai dos deuses e dos homens”. Em Ésquilo “Zeus é o éter. Zeus é a Terra. Zeus é o Céu. Sim, Zeus é tudo o que há acima de tudo”.

Ainda em Chevalier “a concepção de Zeus como divindade surema e como força universal evoluiu muito a partir dos poemas homéricos e chegou, entre os filósofos helenísticos, à concepção de uma providência única. Entre os estóicos Zeus é o símbolo do Deus único que encarna o Cosmo. As leis do mundo não passam de um pensamento de Zeus. O mito de Zeus é o de um líder nato, do qual advém todo o poder e a justificação de todo o autocratismo e que reveste as formas diversas do pai, do mestre, do professor, do chefe, do patrão, do proprietário, do juiz, do marido, do ser que detém o segredo e de quem depende a iniciativa em todas as coisas”.

Destes pontos de interpretação da figura divina de Zeus podemos compreender o epíteto de “Zeus Polieus”, protetor da Pólis e das Leis, e também da compreensão de que o reinado de Zeus equivale ao reinado do espírito soberano que ordena o cosmo segundo os princípios racionais e justos.
Patrono de heróis, o modelo maior de heroísmo

Sendo o modelo do ideal de todo herói, Zeus é chamado “pai dos deuses e dos homens”, protegendo e guiando seus filhos mortais para que se tornem grandes heróis. Zeus passa por várias “mortes simbólicas”, ritos de passagem, “regressus ad uterum” (regresso, volta ao útero), Unio Mysticas (uniões sagradas com um fim maior), e uma mutilação, que representa a marca física de uma mudança espiritual, uma condição para o renascimento constante do herói em novos estágios da existência. Essa mutilação representa uma diferenciação de Zeus perante seus irmãos (principalmente os homens, Hades e Pósidon, que em muitas versões míticas ao gêmeos), uma eleição, tanto quanto uma maldição, a condição de ímpar, de único. Como guia de seus filhos mortais nesses mesmos ritos Zeus também não deixa a desejar, mostrando mais uma vez ser a personificação do superlativo em tudo a que se propõe.

Representações e espelhamentos filiais
Algumas representações de Zeus podem ser encontradas nas façanhas de seus filhos, a exemplo de Hércules, seu filho mais famoso: em nenhum momento, em todas as suas aventuras dentro dos famosos 12 trabalhos impostos por Hera (esposa enciumada de Zeus que vingava-se no rebento ilegítimo de seu marido, pois não tinha como se rebelar contra o todo-poderoso pai dos deuses) através de Euristeu, Hércules deixou de usar o raciocínio, o logos, a consciência, para livrar-se dos desafios ou para usá-los como alavancas que facilitassem a resolução da próxima etapa de sua jornada. O uso da inteligência, da sapiência, constantemente, assim como a honestidade e o empenho incansável na busca da redenção e do perdão pelo crime cometido, faz de Hércules um representação em menor escala dos atributos positivos de seu pai. O mesmo se efetua em suas beberagens e façanhas exuais. Essa questão justifica tanto o apoio de seu pai em suas empreitadas e a companhia da Vitória (Nike, uma deusa que acompanhava a Zeus e Atená), atributo paterno de Hércules, quanto sua posterior Apoteosis, sua ascensão ao caráter de divindade.

Trajetória de um Deus-Rei
Representando o superlativo da centralização de funções e poderes já desde o seu nascimento e toda a sua trajetória de disputas, iniciações e casamentos antes e depois do seu casamento oficial com Hera, Zeus era o deus de quem dependiam o Céu, a Terra, a Polis (cidade), a família (patriarcal) e os homens. A vitória de Zeus contra os Titãs e contra Tífon representa a vitória da luz sobre as trevas, da ordem sobre o caos (Kháos, divindade primordial indiferenciada), da consciência sobre os instintos animais.

Casamentos, projetos de poder
O casamento de Zeus com Têmis (deusa primordial da Justiça) e a reestruturação do significado do ideal de Justiça para os gregos foi um importante passo para a depuração do sistema judiciário grego.
O posterior casamento oficial de Zeus com Hera pode representar um apaziguamento com o qual Zeus teve de arcar com uma divindade essencialmente representante das mulheres, principalmente como esposas, e protetora do casamento, assuntos e questões que, por natureza patriarcal e onipotente, Zeus, a princípio, não se mostrava muito disposto a considerar.

Segundo Sir J.G. Frazer em “O Ramo Dourado”, o relacionamento de Zeus com Hera representava, também, principalmente, uma união do céu chuvoso, como logos spermátikos, como chuva-esperma que fecunda a terra num casamento das forças vegetativas, com a intenção de evitar o fracasso das colheitas. Essa visão pode contar com a perspectiva de que Hera fosse uma filha de Réa e, portanto, uma divindade também de alguma forma terrena ou que Hra fosse, de alguma maneira, assim como – embora em escala possivelmente inferior – Deméter, uma herdeira do trono matriarcal-telúrico(tereno) de Gaia e Réa.
Após seu casamento com Têmis, Zeus é o deus supremo da Justiça, pois distribui com equidade as alegrias e as tristezas, os bens e os males. É o modelo de toda soberania, conferindo poder e legitimidade às leis, instituições e reis humanos. A característica de Zeus como um deus da execução judicial está mais explícita em Homero, onde, em diversas cenas de batalhas centrais da ilíada, o pai dos deuses coloca sobre uma balança de ouro a “quer”, o destino, o peso do destino de cada combatente, determinando quem irá perecer e quem irá sair vencedor.

Com mil raios e trovões
Zeus também é o deus dos fenômenos atmosféricos, ele é o “acumulador de nuvens”, “o que faz chover”, “o de nuvens negras”, “o que lança raios”, o “trovejante”. Essa característica está ligada a dois ramos interpretativos que comungam uma raiz única. A princípio a raiz física, material, da chuva enquanto símbolo da fecundidade da terra e da renovação da vida (que apazigua os ânimos de Gaia), como o céu que faz amor com a terra e gera o novo fruto, como no mito de Perséfone, Deméter, Hades e Zeus. E, por último, mas não menos importante, seu caráter espiritualizado, divino, superior, elevado tanto no sentido olímpico – fato de estar no pico de uma montanha – quanto no sentido de elevação espiritual, de compreensão dos significados ocultos da vida e dos grandes ciclos da existência histórica grega.

A maldição familiar
O casamento de Zeus com Métis dá a Zeus sua filha preferida Atená. Essa é a primeira vez das várias em que Zeus se livra da maldição familiar. Na obra “Prometeu Acorrentado” deste último, Prometeu revela a Zeus de forma indireta, após ter sido libertado por Hércules, que o Cronida seria destronado pelo filho que teria do caso que mantinha com Tétis, uma oceânide lindíssima, pois o fiho que esta tivesse estaria predestinado a ser muito mais poderoso do que o próprio pai. Compreendendo o recado e, sempre ciente do fantasma de sua maldição familiar, Zeus apressou-se em forçar o casamento de Tétis com um humano, do qual, por mais poderoso que lhe saísse o filho, não representaria risco para o grande trovejante. Graças a mais esta situação em que Zeus “driblou” seu destino familiar, o seu daimon da genós, toda uma raça de heróis e semideuses pereceu em Tróia. Tanto no caso de Atena e sua mãe, assumida como característica de Zeus num ato que lembra o padrão de Cronos em devorar seus “problemas”, quanto em Aquiles é possível que o padrão da maldição familiar seja rompido, mas nuna sem grandez perdas ou “regressões perigosas” para Zeus e seus protegidos.

Outras uniões de Zeus
Outras várias foram as uniões do rei dos deuses. Com Maia gera Hermes, com Leto gera Apolo e Ártemis. Quanto aos “casamentos” de Zeus com mulheres mortais temos Alcmena, que gerou Hércules, Sêmele que gerou Dioniso, Leda que gerou Helena, Clitemnestra, Cástor e Pólux, Io com quem gerou Épafo e Dânae, com quem gerou Perseu, um dos primeiros heróis gregos, além de várias outras escapulidelas menos memoráveis.

Nada melhor, para terminar a decrição das atribuições de Zeus, que o hino a Zeus, de Cleanto (nascido em 331 a.C.) que marca o auge dessa ascenção de Zeus ao espírito dos homens, até que ele se torne um único deus onipotente, onisciente e muito mais próximo da idéia católica de divindade, que resolverá ter um filho-herói, fundador de uma instituição, que terá novos subdeuses, os santos, e semideuses, os beatos... enfim, ao hino:

“Salve tu, o mais glorioso dos Imortais, Tu que és designado por tantos nomes diferentes, Zeus, eternamente todo-poderoso, tu que és o autor da natureza, e que governas com lei todas as coisas!...
Tanto és em todo lugar senhor supremo do universo inteiro quanto nada na Terra, ó deus, nada acontece sem ti; nada no céu eterno e divino; nada no mar. Nada a não ser o que realiza a loucura dos maus, mas tu sabes reduzir à justa medida o que é excessivo, impor a ordem ao que é desordem e tornar amigas as coisas que te são inimigas...”

- Trecho da apostila do terceiro encontro Mito e Mente; Gerações: De Úrano a Zeus, de Zeus a Dioniso, de Atreu a Orestes, maldições e resgates em família.

Texto de Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador do projeto Mito e Mente

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Encontros Mito e Mente, um olhar cotidiano sobre a mitologia

"A verdade é que a gente não faz filhos, só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final" - Luis Fernando Veríssimo

É maravilhoso quando percebemos que um filho nosso ganhou mundo, que se estabeleceu e está dando poderosos e novos passos na criação de sua própria história, que vai sempre muito além do que poderíamos ter planejado ou imaginado para aquele filho. Está sendo assim com o ciclo de encontros que denomino Mito e Mente.

Um ciclo de oito encontros de três horas cada onde discutiríamos um tema contemporâneo através de três mitos, com debates abertos com o público no final e certificados de participação. Esse é o Projeto Mito e Mente. Nosso plano inicial era que esses encontros fossem quinzenais e apresentados no espaço do Studio Oficina, no Rio de Janeiro. Esse era o plano inicial. Mas existem crianças que são verdadeiros prodígios e demonstram um talento excepcional já em tenra idade.

Estamos na iminência de fazer nosso terceiro encontro: "Gerações: de Úrano a Zeus, de Zeus a Dioniso, de Atreu a Orestes, maldições e resgates em família" e já temos data e viagem marcada para levar os dois primeiros encontros a Brasília e a possibilidade de levarmos a Salvador também!

Um panorama do conceito Mito e Mente
Todos que já estiveram presentes nos encontros Mito e Mente realizados sabem que estes são em número de oito, mas, até agora, eu não havia ainda dado o panorama completo, com as artes, as capas e os conteúdos trabalhados em cada encontro. Vamos então a eles:


No encontro 'Alicerces: Édipo, Aquiles, Hermes e seus pés' trabalhamos  como a relação de Édipo (o de ´pés inchados´), Aquiles (o de ´pés ligeiros´ e calcanhar vulnerável) e Hermes (o de ´pés alados´) com seus pés vai influenciar suas jornadas ao longo de suas vidas, sua relação com a matéria, com suas respectivas mães, com a verdade e a mentira.
Discutimos nesse encontro sobre verdades e mentiras, relações de idealização, negação e aversão à mãe, à matéria e ao mundo físico.



No encontro 'Inimigos Íntimos: Minotauro, Hidra, sereias, perigos e potências' trabalhamos com "o outro", não retomamos o mito através de seus Heróis (Teseu, Hércules e Odisseu/Ulisses), mas através de seus inimigos e da relação que estes famosos heróis gregos estabelecem com eles. A partir daqui discutiremos as relações que temos com o "não-eu", com aquele que nos irrita, nos fascina, nos desequilibra, nos instiga, nos encanta e nos amplia a visão sobre a vida e o universo.



No encontro 'Gerações: De Úrano a Zeus, de Zeus a Dioniso, de Atreu a Orestes, maldições e resgates em família' trabalharemos as relações familiares de Zeus com seus antepassados e com seus sucessores observando a mudança na própria natureza e caráter do deus e também a família de Atreu, família real grega descendente de Zeus. Discutiremos padrões herdados, sejam eles filiais, mentais, culturais, sociais ou políticos e como obter consciência sobre esses padrões para permanecer ou sair deles, com mérito.

No encontro 'Vendetta: Hera, Clitemnestra, Medeia e a vingança feminina', trabalharemos as grandes figuras femininas da mitologia da vingança, Hera, a poderosa deusa do matrimônio, da superiodidade, do poder, esposa de Zeus e perpetradora das mais cruéis vinganças contra suas amantes, Clitemnestra, cujo marido assassinou sua primogênita por ambição e Medeia, que assassinou os próprios filhos para eliminar a progênie do marido. Discutiremos a vingança e as formas de expressão da repressão afetiva, intelectual e existencial.

No encontro 'O Barqueiro: Hades, Elíseos, Tártaro e a morte no mito grego' trabalharemos os significados da morte em Homero e em Hesíodo, os locais para onde vão cada tipo de morto, falaremos sobre a morte gloriosa e inglória, sobre a morte como passagem, punição e recompensa. Discutiremos nossa relação contemporânea com o tempo e a finitude, com a decrepitude, a velhice e a senilidade, nossa aversão e negação às ideias de morte e finitude e suas consequências em nossa vida e maturação.


No encontro 'De Sangue: Helena e Clitemnestra, Cástor e Pólux, Apolo e Ártemis, mitos da fraternidade' trabalharemos os mitos de irmandade, as relações de amor, ódio, inveja, companheirismo, identidade, competição e simbiose efetuados por irmãos. Discutiremos a construção da relação de culturas irmãs, preferência paterna ou materna, disputa e integração de leituras diversas de uma mesma realidade.

No encontro 'Por Amor: Psiquê, Afrodite, Penélope, a luta, as provas e a resistência' trataremos do tema do amor. Do amor que busca, se sacrifica e morre para renascer em Psiquê, do amor que impõe provas, limites e desafios para entregar seu maior bem ou para testar os limites da vontade e do amor alheio em Afrodite, do amor que resiste, que espera, que tem fé, em Penélope. Discutiremos as possibilidades, desafios e potencialidades do amor em nossa sociedade contemporânea.

No encontro 'Em nome do pai: Crono, Zeus, Agamêmnon, luz e sombra do masculino' trataremos de ampliar o espectro interpretativo sobre a figura do 'grande pai', explicitando suas formas de ação, a natureza de sua condição simbólica, suas facetas luminosas e sombrias, sua relação com a resistência e a desobediência, sua violência e seu resgate. Discutiremos os grandes sistemas de dominação e leitura do mundo, capitalismo, internet, sistemas políticos e religiosos e suas relações com o poder.



Nosso Caldeirão Criativo



A maior vocação dos encontro Mito e Mente é justamente podermos levar a um debate rico, profundo e enriquecedor sobre diversos temas de nossa sociedade através de uma perspectiva que possa nos ampliar as leituras, a compreensão e a ver nosso cotidiano de uma forma mais criativa, dinâmica e passível de ser ressignificada, repensada e recriada!

Minha parte preferida, nos encontros, é justamente a troca poderosa, inquietante e verdadeiramente poderosa de nosso "caldeirão criativo".

"Dê a seu filho raízes. Mais tarde, asas." - Provérbio Judaico

Só posso agradecer a todos os que deram asas às aspirações desse filho que criei no Instituto ATENA, esse filho fruto da minha paixão por mitos, por psicologia analítica, por sociologia e ciência política. Esse filho prolífico, rico e maravilhosamente mais vasto que minhas primeiras aspirações para ele. Obrigado ao Thiago Greco, no Studio Oficina, a Lu Anastácio que me ajuda na revisão das apostilas e na criação dos encontros, a Ana Virgínia e Rosi Rosa em Brasília que me convidaram para levar essa proposta adiante, ao Fabio Steinberger que me ajuda a levar esse projeto para novas paragens, aos meus queridos amigos, alunos, participantes, hoje e sempre, obrigado por acreditarem nessa minha proposta, nessa minha paixão.

Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Criador dos Encontros Mito e Mente

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Ciclo de Seminários "Mito e Mente"

Uma conversa informal, uma ideia simples e apaixonante!
Sempre ficava me perguntando como poderia levar a riqueza da mitologia e suas correlações com a nossa cultura ocidental e principalmente com as nossas vidas cotidianas para as pessoas. Através de uma conversa com a minha ex-aluna da Jornada do Herói
®, a Lu Anastáciotivemos a ideia de criar um seminário de três horas de duração sobre algum tema específico da mitologia grega. Lembrei de alguns anos atrás quando tive um problema no pé e tive que tomar antibiótico por umas duas semanas e, logo depois, caí de bicicleta e abri o calcanhar, que levou 4 pontos, quando dei por mim estava estudando mitos com ênfases nos pés e comecei a perceber o quão rica e significativa era toda a questão. Então pensei: vamos começar pela base! Vamos falar de "pés". 
Eu e Lu Anastácio
na Jornada do Herói

Começando pela base...
Pensei nos "pés inchados" do Édipo, nos tornozelos costurados de Zeus, no calcanhar do Aquiles, no Prometeu amarrado pelos pés, na sandália que o Jasão perde atravessando o rio com a deusa Hera disfarçada de velhinha sobre seus ombros, nos pés alados de Hermes... a lista continuava! Então pensamos em algo mais simples e compacto, algo que coubesse em três horas, com espaço para perguntas, dúvidas, discussões abertas, um espaço para diálogos e troca. Diminuímos tudo para três mitos. Para abarcar o conteúdo simbólico dos pés resolvemos tirar Zeus e Prometeu que têm, ambos, simbolismos mais interessantes para outros assuntos no futuro.

Cortando os excessos
Ficamos com Édipo, Aquiles e Hermes. Ainda assim são mitos grandes! Então experimentei contar os mitos deles para a Lu e, ainda que fossem muito grandes, não levaram mais do que vinte minutos cada para serem contados. Então decidimos que seria possível colocar tudo num 'seminário' (prefiro esta palavra à inglesa 'workshop') de três horas de duração, dando espaço para análises psicológicas, culturais e simbólicas e, principalmente, espaço para a troca com os participantes. Tudo ficou extremamente sedutor nas nossas cabeças, delicioso como um bom café, que estávamos tomando.

Criando um pequeno universo
Mas (eu bem sei) café, como tudo o que nos excita e anima, é viciante! Nem bem passamos da euforia inicial da criação mental dos "Pés" e já estávamos anotando em guardanapos vários temas para outros no mesmo esquema: 1 tema, 3 horas, 3 mitos: vingança, conflitos de geração, amor, dinâmica do inconsciente, o grande pai, a grande mãe, a morte... Definimos que iríamos parar em oito! Estava lá presente também Cronos para dar o limite, claro!

Tijolo por tijolo e um apoio afetuoso de um grande amigo


Thiago Greco, nosso patrono
dos seminários no
Studio Oficina
Levamos a ideia para casa. Eu criava, a Lu revisava. Arquivos de word, power point e imagens, muitas imagens para cá e para lá durante algumas semanas até uma primeira versão final.  Toda nova ideia, todo novo universo precisa de dimensões: tempo e espaço, para crescer e frutificar. Era preciso um horário e um local para que essa nova empreitada pudesse frutificar, então levamos ao nosso querido Thiago Greco no Studio Oficina e (para a nossa alegria!) ele curtiu a ideia e cedeu um dia e horário para darmos à luz a nossa criação!


Então está aí, o primeiro Seminário, já com o nome estudado e melhorado: "Alicerces: Édipo, Aquiles, Hermes e seus pés", o primeiro do ciclo de seminários "Mito e Mente". 







Desenvolveremos ao longo desses seminários as correlações simbólicas, culturais e psíquicas do mito com a nossa vida cotidiana, medos, desejos, esperanças e padrões, trazendo toda a riqueza do universo mítico grego para dentro da nossa vida contemporânea.

Todos os encontros terão:
* Contação de mitos
* Apostilas para acompanhamento e guias de estudo dos temas
* Coffee-Break
* Certificados

Temas abordados no seminário: "Alicerces: Édipo, Aquiles, Hermes e seus pés"

* A relação dos pés com os recursos da alma
* Condição psíquica do manco/coxo
* A interação com a terra e a relação com a mãe nos três mitos
* A questão da criança divina e o problema dos pés
* Rastros, trilhas, pegadas e seus significados
* O pé como chave, ponto e elo
* O pé como símbolo de humildade, submissão, poder e suporte


Entre em contato e confirme sua participação!

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DATA: 13 de junho (quarta feira) das 19:30 às 22:30

LOCAL: STUDIO OFICINA

Marquês de Abrantes 185, 2o andar, Flamengo, Rio de Janeiro

INSCRIÇÕES: Studio@studiooficina.com.br
(21) 2147-1782

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EM BREVE:
Inimigos Íntimos: Minotauros, Hidras, Sereias, perigos e potências



sexta-feira, 27 de abril de 2012

Trickster: o iluminado trapaceiro das trevas

Calendário Asteca. A espera do
próximo jogo universal...
Quando vemos artigos sobre símbolos, mitos e crenças muitas vezes perdemos a ligação entre aqueles símbolos e o cotidiano natural de uma sociedade. Sorrisos são linguagem universal e assim também a graça, a brincadeira, o jogo, o lúdico. Através dele aprendemos muitas coisas, introjetamos conceitos, crenças e valores que vão alicerçando não só as regras da sociedade em que vivemos, mas principalmente quem somos diante dessas regras e o quanto precisaremos esgarçar uma margem de manobra para expressar nossa personalidade ou se, com sorte, nossa personalidade se adequa bem à sociedade em que vivemos.



Eu só estava brincando...
Segundo o historiador especializado em Roma Antiga A. Piganiol, a função principal dos "ludi" (ludens, lúdico, brincar) era conservar uma força sagrada à qual estava ligada a vida da natureza, de um grupo humano ou de uma personalidade importante. Os jogos rituais constituíam o meio exemplar de rejuvenescer o mundo e os deuses, os mortos e os vivos. Entre as principais ocasiões em que eram celebrados os "ludi", temos os aniversários dos deuses agrários (cerimônias sazonais como a Páscoa etc), os aniversários das vitórias (para reforçar a força divina que garantiu a vitoria) ou a inauguração de um novo período (neste caso os jogos "tinham como objetivo garantir a renovação do mundo, ou até um novo término do mundo").

Brincar, jogar, interpretar é também uma forma de apreender os conceitos da sociedade e cultura em que estamos inseridos. Por isso é importante o estudo da brincadeira e do jogo contemporâneos. Porque eles são fatores importantíssimos de socialização. Quando estava na minha graduação quis fazer uma monografia sobre "cultura infantil" e fui obrigado a desistir do tema, porque os estudos na área eram extremamente escassos e, segundo alguns professores, eu não teria bibliografia suficiente para levar a empreitada a um bom termo. Fiquei impressionado como o consenso sobre a infância ser a principal fase de socialização do indivíduo e como, mesmo assim, essa fase é tão pouco estudada.

Só pode ser brincadeira!
Muitos estudos haviam, a meu ver perversos, no campo do marketing e da propaganda. Estudos aliando consumo, psicologia infantil e técnicas de venda. Isso também é um retrato claro dos valores da sociedade ocidental capitalista.

Mas voltemos à brincadeira. Na Grécia instiuíram-se jogos olímpicos para relembrar grandes vitórias sejam elas míticas ou militares e até hoje corremos a "Maratona" porque os atenienses venceram a primeira Guerra Médica contra os persas e Filípides, um soldado considerado o melhor dos corredores atenienses, teve de correr 42km entre o campo de batalha e a cidade de Atenas para impedir que as mulheres atenienses fossem adiante com o plano de assassinarem seus filhos e suicidarem-se para não serem escravizados caso os persas vencessem.

Na prática a teoria é um jogo
Atualmente a "teoria dos jogos", uma forma de avaliação do comportamento humano e suas decisões em ambientes complexos como uma sociedade, saiu da pura aplicação matemática para ramos como a estratégia militar, jogos de computadores, desenvolvimento de inteligência artificial, ciência política, ética, economia, filosofia, jornalismo, cibernética e outros. Amplos campos integrados onde resultados nunca ou quase nunca têm consequências retilíneas e uniformes, como sociedades, famílias, empresas ou a mente humana, podem ser usados como objetos de pesquisa para compreender a dinâmica envolvida nas atitudes, motivações e consequências dos movimentos dentro do "jogo".

O problema do jogo é que ele, em si, pode querer jogar de volta conosco. Pode haver um "metajogo" nessa dinâmica toda, afinal, em sistemas complexos - abertos à interação com variáveis não consideradas a princípio - os resultados são sempre muito próximos do caos. O que ocorre é que a quantidade de dados e variáveis e serem considerados é exaustivamente grande, forçando um recorte que não invalida a teoria, mas retira muito de sua força.

O trapaceiro
O que o mito pode nos ensinar em relação aos jogos? Creio que a melhor forma de compreendermos os limites dos jogos é estudarmos a figura mítica que vive nesses limites, o "Trickster", o "pregador de peças" ou "trapaceiro".

Thor luta contra Loki
Ordem e Caos em jogo
Geralmente representado como uma divindade, o Trickster quebra as regras dos deuses, da natureza ou da sociedade. Pode ocorrer de ele inaugurar novas regras, mas em geral ele está mais atento a quebrar padrões que a construir novos parâmetros. Pode acontecer de ele ser essencialmente perverso e mal-intencionado, como Loki, o meio-irmão do deus nórdico Thor, mas o que mais fascina nessas figuras é que, em geral, ainda que de uma forma involuntária, ele tem efeitos positivos ou cria as condições de sua própria derrota. O Trickster pode ser astuto ou tolo ou ambos, é uma figura nebulosa por definição. Frequentemente são engraçados e cômicos, mesmo quando considerados sagrados e perigosos.

"Para Jung, tal simbolismo se refere à hamonização psiquica de Animus e Anima (imagens internas da Psique para Masculino e Feminino), dinâmica importante no processo de individuação. Loki, o trickster nórdico, também troca de sexo. Curiosamente, ele compartilha a capacidade de alterar os sexos com Odin, o deus nórdico que preside ao panteão, que também possui muitas características Tricksters (Malandro). No caso da gravidez de Loki, ele foi obrigado pelos deuses a parar um gigante, ele resolveu o problema ao se transformar em uma égua e atrair o cavalo mágico do gigante para longe. Voltou algum tempo depois com uma criança que tinha dado à luz, o cavalo de oito patas Sleipnir, que serviu como montaria a Odin." - Trickster, Wikipedia, artigo.

Brinca comigo?
Se não pode (con)vencê-los, confunda-os!
O arqui-inimigo do Batman, Coringa, é um Trickster. Ele subverte as regras sociais e gosta de colocar à prova os valores dos indivíduos e as certezas principalmente do personagem principal. De qualquer forma o confronto com essa figura mítica do limiar da ordem sempre vai trazer um reforço para o status quo. Seja reestruturando em novos moldes a ordem que existe, seja abrindo espaço para a estruturação de uma nova. É na adversidade que se testam os limites das nossas certezas.

Tudo isso é parte natural do movimento da libido na nossa dinâmica psíquica. Enquanto há vida há regra e quebra, certeza e dúvida. Enquanto há dúvida há inquietação, movimento, vida.

E você? Já abocanhou seu bocado de caos hoje?

Texto por: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ensaio sobre o Mito

[Postagem em constante re-edição]


"O mito é o nada que é tudo" - Fernando Pessoa

A narrativa
O mito é a mais antiga forma de conhecimento, de consciência existencial e, ao mesmo tempo, de representação religiosa sobre a origem do mundo, sobre os fenômenos naturais e a vida humana. Deriva do grego Mythos, palavra, narração ou mesmo discurso, e dos verbos mytheyo (contar, narrar) e mytheo (anunciar, conversar). Sua função, portanto, é a de descrever, lembrar e interpretar todas as origens, seja ela a do cosmo (cosmogonia), dos deuses (teogonia), das forças e fenômenos naturais (vento, chuva, relâmpago, acidente geográfico), seja a das causas primordiais que impuseram ao homem as suas condições de vida e seus comportamentos. O mito é, em essência, a narrativa que traz sentido à nossa realidade, a trama de significados sem os quais nossa vida não tem sentido. 

O mito e suas teorias
O mito pode ser compreendido como uma narrativa sacra envolvendo seres sobrenaturais e incorporando à consciência coletiva, o mito é entretecido de crenças populares a respeito da humanidade e do mundo social, bem como da natureza e significado do universo. Ao longo do século XIX, várias escolas de pensamento se debruçaram sobre a interpretação dos mitos. As teorias do mito que desenvolveram podem ser divididas em psicológicas, funcionalistas, estruturalistas e políticas.


Caos e Cosmos
O mito é a primeira manifestação de um sentido para o mundo.  Quando contamos histórias a nossos filhos pra ilustrar as leis, costumes e funcionamento do mundo estamos contando um mito que é real à medida em que agimos de acordo com ele. É como uma grande lente interpretativa da realidade, mas para isso ele deve abarcar as histórias da origem, deve responder a questões sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O mito dota o ser humano de um senso de propósito.

Os mitos tanto podem relatar as genealogias (as gerações sucessivas desde o primeiro ser ou causa), como explicar os atributos dos seres e das coisas (poderes e capacidades). Outra característica comum a diversas mitologias, em seus aspectos cosmogônicos (explicação sobre a geração do cosmos), é a existência primeva do caos, ou seja, de um estado amorfo ou indiferenciado de elementos - as trevas, o oceano primordial, o espaço infinito, o Céu e a Terra ainda fundidos, o Ovo Cósmico, o Todo são imagens comuns a muitas mitologias ao redor do mundo. Em todas as mitologias do planeta é a partir do caos que se dá a criação do cosmo, de um conjunto de partes diferenciadas ou mesmo opostas (terra-céu, líquido-seco, noite-dia), mas ordenadas e mutuamente dependentes.

Antropologia do século XIX e abordagens psicológicas
Os antropólogos do século XIX interessados na evolução e difusão de culturas buscaram descobrir a origem dos mitos, interpretando-os como pensamento não-científico e registros incompletos de eventos históricos. As abordagens psicanalíticas desenvolvidas por Sigmund Freud, em vez disso, tenderam a buscar no mito temas de conflito psíquico universal (repressão, tabu do incesto, inveja dos irmãos, complexo de Édipo), ou imagens arquetípicas brotando do 'inconsciente coletivo' (Jung, 1964).

O que se deve salientar é que o mito, enquanto narrativa, se presta a várias possíveis interpretações. Sendo o que estudiosos de história das religiões e psicologia chamam de "símbolo vivo". Algo que possui um significado e um espectro interpretativo, mas que não pode ser completamente fechado em uma definição, estando sempre aberto a novas leituras. O mito muda, como a realidade muda e a realidade muda à medida que o mito que a explica muda também.

Crítica funcionalista
Bronislaw Malinowski em Trobriand
A tradição antropológica funcionalista, mais bem representada por Bronislaw Malinowski, criticou essas teorias por abstraírem os mitos de seu contexto social. A partir de estudos empíricos dos ilhéus de Trobriand, Malinowski afirmou que "o mito preenche, na cultura primitiva, uma função indispensável": é produto de uma fé viva que serve para codificar e reforçar normas grupais, salvaguardar as regras e a moralidade e promover a coesão social. O mito é parte do ethos (síntese da cultura de um povo, espécie de "cola social" que mantém unida uma parcela da humanidade) de um povo. Como nossos indígenas buscavam sentido para suas vidas e ações em 'Tupã', muitos de nossos contemporâneos buscam sentido para a narrativa de suas existências no 'Mercado Financeiro', cuja base é crédito. Nunca é demais salientar que a origem da palavra 'crédito' é a palavra latina credere, que significa "acreditar".

As leituras de Lévi-Strauss
Claude Lévi-Strauss
As abordagens contemporâneas, incluindo as de Leach e Barthes, têm sido fortemente influenciadas pelo estruturalismo e, em particular, pelos estudos do antropólogo Claude Lévi-Strauss. Usando teorias desenvolvidas na psicanálise e na lingüística, Lévi-Strauss interpretou os mitos, não como guias de ação fornecendo explicações ou legitimação para disposições sociais existentes, mas como sistemas de signos - uma linguagem cujo sentido é codificado e se encontra sob superfície narrativa. Foi um resgate do mito como narrativa.

O mito na academia antropológica
Os mitos são um expediente cognitivo usado para reflexão e resolução das contradições e princípios subjacentes em todas as sociedades humanas, cada mito sendo uma variação sobre temas universais, recombinando incessantemente os elementos simbólicos constituídos por grupos de oposições binárias (mãe/pai, natureza/cultura, fêmea/macho, cru/cozido), que supostamente refletem as categorias fundamentais da mente humana.

Nossa apreensão da realidade se daria pela contraposição de pares complementares de opostos (dia/noite, yin/yang) e o mito seria uma forma mais lúdica e natural de aprendizagem sobre o mundo.

A compreensão platônica do mito
Platão e Aristóteles, ao centro da Academia
Para Platão a mitologia era uma maneira de traduzir aquilo que pertence à opinião e não à certeza filosófica. Sejam quais forem os sistemas de interpretação, eles ajudam a perceber a dimensão da realidade humana e trazem à tona a função simbolizadora da imaginação. Ela não pretende transmitir "a" (tão procurada) verdade filosófica suprema, mas expressar as diversas possíveis verdades de certas percepções. Toda a compreensão platônica do mito, pelo próprio peso que a figura de Platão adquire através dos tempos, acaba infundindo uma visão pré-conceituosa (porque anterior ao bom conhecimento do próprio 'conceito' do mito e de suas implicações) que engendrou o desafio em que a ciência e a filosofia ocidentais, a maior parte das vezes, às raras exceções de um Jung, Capra, Eliade ou Campbell, invariavelmente empacam.

Muitos de nossos acadêmicos e filósofos até hoje compreendem o mito como uma espécie de "pré-razão", de um pensamento ainda não plenamente desenvolvido. Para eles o pensamento desenvolvido não permitiria a possibilidade de interpretação, mas apenas a concordância inevitável com uma única verdade absoluta, óbvia, clara e inegável. Essa pretensão ao alcance da verdade única é a raiz de todo o pensamento fascista e ditatorial, já que é completamente intolerante com quaisquer pensamentos que venham a se contrapor ou divergir a ele. Admitir o mito como passível de diversas interpretações também é admitir que possamos ter diferentes verdades pessoais, familiares, sociais, religiosas ou culturais. Não é só um ato de humanidade como um ato de humildade no mais alto grau.

O desafio da limitação acadêmica
As técnicas estruturalistas de Lévi-Strauss têm proporcionado percepções úteis dos motivos subjacentes aos mitos, mas os críticos alegam que essa abordagem é reducionista, uma espécie de "malabarismo verbal com uma fórmula generalizada e que não pode mostrar a verdade." (Leach, 1970). A pretensão do encontro de uma "verdade" unívoca manifesta o vício racionalista da ciência ocidental e impede seu encontro com as infinitas interpretações possíveis dos mitos. A pretensão dogmática de encontro de uma única verdade absoluta e inequívoca, permanecendo, dará ao mito sempre sua atmosfera nebulosa e polissêmica. 

Águas primordiais
"O tema das águas primordiais, imaginadas como uma totalidade ao mesmo tempo cósmica e divina, é bastante frequente nas cosmogonias arcaicas. Também nesse caso, a massa aquática é identificada à 'mãe original' que gerou, por partenogênese, o primeiro casal, o Céu e a Terra, encarnando os princípios masculino e feminino" - Mircea Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas.

Boa parte das tradições míticas da humanidade relatam a criação do cosmos (ordem) como surgindo através das águas ou mesmo de ondas. Mesmo a tradição Bíblica sustenta que "O Espírito de Deus movia-se sobre as águas". A ideia de uma espécie de caos aquoso é muitíssimo comum entre as tradições míticas e há interpretações antropológicas, religiosas, filosóficas, mitológicas, simbólicas e psíquicas para esse fato.


Pensamento simbólico
Embora seja um tipo de pensamento e de consciência pré-sintética (ou seja, pré-filosófica ou pré-científica), o mito oferece explicações para a realidade aparente e para a vida humana, como também para aquilo que, aos olhos dos mais antigos homens, aparecia como mistério, no sentido de algo velado, simbólico, só acessível a iniciados.

Estruturação do discurso sagrado
Por isso, habitualmente, o mito possui um valor sagrado que merece ser conservado e transmitido por pessoas dotadas ou escolhidas pelo deuses ou sacerdotes, poedas-rapsodos ou xamãs. Seus rituais de renovação ou de comemoração procuram manter vivas as forças criadoras e mantenedoras da vida, evitando a decadência e o retorno à indiferenciação primitiva (por exemplo, nas festas de Ano Novo). Como afirmou Van der Leeuw em O homem primitivo e a religião: "o rito é um mito em ação".

À medida em que estamos agindo de forma a marcar nossa trajetória nesse mundo, tendo vidas preenchidas de significado e essência, estamos ritualizando nossa vida, vivendo nosso mito pessoal. Viver fora do mito é viver uma vida sem um nexo final, sem uma congruência, onde o conteúdo de ontem e o de amanhã não estão interligados numa narrativa coesa. Viver o mito é viver a vida em plenitude.

A linguagem do mito
Friedrich Schelling
E conquanto se costume dizer que o mito constitui uma linguagem fortemente alegórica ou metafórica, o que também o distingue da filosofia e da lógica, há ensaístas que assumem uma interpretação contrária.

"As representações mitológicas não foram inventadas, nem livremente aceitas. Produtos de um processo independente do pensamento e da vontade, elas eram, para a consciência que lhes fazia registro, de uma realidade incontestável e irrefutável. Povos e indivíduos não passam de instrumentos deste processo que ultrapassa os seus respectivos horizontes e a cujo serviço eles se colocam sem nem sequer o compreenderem" - Schelling, Introdução à Filosofia da Mitologia.

Para muitos autores, como para Friedrich Schelling, o mito é, também, uma entidade independente, superior, em efeito, às vontades humanas e aos caprichos das conjunturas em que atuem. Para ele o mito tem um percurso próprio e, talvez, essa teoria possa ser integrada às teorias de Carl Gustav Jung sobre a equilibração da dinâmica psíquica tanto dos sujeitos como das sociedades.

O mito na Ciência Política
Em ciência política, o significado da palavra tem sido às vezes ampliado para a filosofia política, a ideologia e a religião. O autor mais famoso nessa tradição foi Georges Sorel, para quem os mitos (incluindo a "Greve Geral" e a "Revolução Proletária") eram imagens capazes de invocar instintivamente todos os sentimentos que permitem a um povo, partido ou classe colocar em jogo suas energias para a ação política. Para Sorel (1906), todos os grandes movimentos sociais desenvolvem-se através da busca de um mito que fornece o idealismo necessário para reunir e unir as pessoas atrás de uma causa.

O mito, na sua qualidade simbólica, contém uma forte carga do que Jung denomina como "libido" (energia psíquica) pois, por estar aberto à interpretação e nunca completamente definido, não dá "descanso" para as atividades psíquicas que exercem continuamente sua função de delimitar um sentido, de sintetizar uma ideia ou de rotular um evento. A carga de energia psíquica de um mito é muito maior do que a carga de energia de um fato.

O mito político
Eva Peron, um mito político argentino
A idéia do mito como elemento essencial urdido no tecido de uma ideologia geral teve eco na concepção mussoliniana do fascismo como uma fé viva. O mito político é um recurso mobilizador, uma celebração dos "impulsos irracionais", cujo apelo aos fabricantes de mitos reside mais na visão lúcida e instigante de redenção e salvação do que em argumentos baseados em princípios abstratos. A dificuldade de compreender a lógica dual do símbolo e a necessidade cultural da sociedade ocidental de idealizar a razão faz com que a filosofia política ocidental se assombre com determinados fenômenos sociais como fascismos e identifique-os como "irracionais".

A razão também pode ser utilitária, interesseira e intolerante, como nos fascismos e nazismos cujo processo de racionalização, exclusão, escravidão e usofruto da mão de obra e bens dos judeus foram extremamente racionalizados e racionalmente bem delimitados. O que não deixou de constituir um genocídio vergonhoso praticado em nome da toda poderosa "verdade absoluta", naturalmente intolerante a todas as demais verdades.

Evemero e sua "história mítica"
Evêmero (séc. IV a.C.), vira nos mitos uma representação da vida passada dos povos, sua história, com seus heróis e suas façanhas, sendo de alguma maneira reapresentada simbolicamente ao nível dos deuses e de suas aventuras: o mito seria uma dramaturgia da vida social ou da história poetizada. Para Evêmero, por exemplo, Heracles (Hércules entre os romanos) teria sido um chefe guerreiro que enfrentou outro chefe que se apresentava, ou se identificava como o "Leão da (região de) Neméia" ou como a "Hidra da (região de) Lerna". É uma interpretação que culmina, posteriormente, no desenvolvimento do trabalho arqueológico interessantíssimo de um Erik von Daniken, embora perca, no processo, toda sua riqueza simbólica e psíquica.

Fenômeno liminar e "tempo forte"
Mircea Eliade
Crucial para a maior parte das teorias é a idéia de que os mitos não estão relacionados com o espaço e o tempo comuns, mas se encontram fora deles. "Era uma vez", a "Idade de Ouro", a "Aurora dos Tempos" ou o "fim da história", tudo isso implica eventos passados ou futuros que não estão diacronicamente ligados ao presente. Nesse aspecto, os mitos tem sido interpretados como "fenômenos liminares", contados em épocas ou lugares que ficam em um grau intermediário entre os estados normais do ser. Assim, segundo o mitólogo e historiador das religiões romeno Mircea Eliade, os que participam do mito são transportados temporariamente do mundo cotidiano para um plano onde o tempo é considerado "sacro, concentrado" e de "intensidade ampliada".

O xamanismo, estudado por Mircea Eliade, utiliza o mito como uma forma de cura psíquica. Quando o Xamã relembra "o tempo dos tempos" ou "o tempo dos primórdios", onde tudo foi criado, desde o primeiro grão de mostarda até o ser humano e então o próprio paciente, o xamã está reintegrando à mente do seu paciente a narrativa da própria vida dele. Todo o sentido de trajetória de uma vida que invariavelmente passa. Isso tem um caráter catártico e terapêutico fortíssimo, porque interfere na constituição (ou na reconstrução) do caráter do sujeito e, muitas vezes, cura desequilíbrios de ordem psíquica ou mesmo reintroduz um criminoso dentro dos esquemas de lei e ordem que se estabeleceram naquela comunidade.

Estrutura social, estrutura da psique
A civilização clássica e a cultura ocidental devem muito à mitologia grega. Em primeiro lugar, pela enorme capacidade que ela demonstrou de representar funções, sentimentos ou paixões psicológicas, tanto quanto atitudes mentais ou espirituais. Entre tantas outras, a Memória (Mnemosyne), a Sabedoria e a Prudência (Métis), o Amor (Eros), o Medo (Phobos), o Furor (Lyssa), o Destino Implacável (Moiras). Em segundo, por ter servido de fonte e seminário à poesia, ao teatro e às artes figurativas, desde então.

Somos frutos de uma miscigenação de culturas míticas. A cultura grega influenciou a cultura latina que trocou com as culturas africanas e nórdicas e todos esses mapas interpretativos da realidade formaram então as nossas instituições contemporâneas e as nossas categorias de pensamento. O intrincado é muito denso para que possamos destrinchá-lo em suas partes constituíntes atualmente, mas podemos perceber algumas raízes aqui e acolá ao longo do tempo. 

Paul Diel e sua interpretação ético-psicológica
Segundo Paul Diel as figuras mais significativas da mitologia grega, em particular, representam, cada uma, uma função da psique e as relações entre elas exprimem a vida psíquica dos homens, divididas entre as tendências opostas que vão da sublimação à 'perversão' (a idéia de 'perversão' segue praticamente de forma patológica o desenvolvimento da interpretação de Diel, formando um eixo interpretativo que nem sempre desencadeia em uma compreensão plena do seu caráter simbólico e a-ético).

"O espírito é Zeus; a harmonia dos desejos, Apolo; a inspiração intuitiva, Palas Atena; o refluxo, Hades etc. O elã evolutivo (o desejo essencial) encontra-se representado pelo herói; a situação de conflito da psique humana, pelo combate pelos monstros da perversão. Todas as constelações, sublimes ou perversas, do psiquismo, são assim sucetíveis de encontrar sua formulação figurada e sua explicação simbolicamente verídica com o auxílio do simbolismo da vitória ou da derrota de tal ou tal herói em seu combate contra tal ou tal monstro de significação determinada e determinável" - Paul Diel

[Ensaio virtual em constante atualização]


Por Renato Kress

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Bibliografia:
Dicionário SESC, a linguagem da Cultura.
Dicionário do Pensamento Social do Século XX
Mitologias, Roland Barthes
Mythes, rêves et mysteres, Mircea Eliade
Interpretações estruturais dos mitos bíblicos, Edmund Leach & Alan Aycock.
Mitológicas, Cláude Lévi-Strauss
Magia, ciência e religião e outros ensaios, Bronislaw Malinowski.
Reflexões sobre a violência, Georges Sorel
Mito político, H. Tudor
Mito e Símbolo, Victor Turner
Dicionário de Símbolos, Jean Chevalier & Alain Gheerbrant
História das Crenças e das Idéias Religiosas, Vol. 1, 2 e 3, Mircea Eliade

domingo, 22 de abril de 2012

Mãe - Homenagem ao Dia da Terra

O leite do meu seio é magma, o leito, do meu sono, é água. Participo de um equilíbrio delicado, tenho nomes e meus nomes tem camadas, como a forma pela qual me entendem meus filhos. Se me arrebatam a roupa de cama, remexo, sinto frio, suo, tremo. Se me perfuram a carne em demasia escorre do meu ventre o que escorre dos seus, minha seiva, meu sangue, minha vida.
Gaia, mesmo nos códigos que vocês inventam, esquecem depois seus significados. Vivem rodeados dela. Seja onde pisam, onde moram, o que respiram, comem, digerem, desejam, onde morrem e o que se tornam sempre: matéria. Lembro de quando descobriram a palavra matéria, vinha de Mater, Matris, “Mãe”. Porque certas palavras não se criam, certas palavras se sentem.
Erda, sou a anciã que sustenta teus saltos mais mirabolantes, tuas acrobacias e invencionices. Sou a senhora complacente e submissa, que recebe os castigos malcriados dos filhos imaturos. Sou a firmeza calma e duradoura. Além de ser suas bases, sei de algo que não sabem aceitar: eu fico, vocês passam. Antes de vocês houve outros e depois os haverá, tão cedo que nunca se lembrarão, tão tarde que nunca conhecerão. Ainda assim, os amo e nutro, como únicos.
Geb, sou universal, primordial, essencial. Sou fecundada pela água que sai de mim mesma. Minha língua é um sistema que se equilibra sozinho e eu tenho algumas eternidades para me equilibrar. Mesmo que eu tivesse pressa, vocês nunca notariam. Suas idéias, pensamentos, seus mais puros ou devassos sonhos são piscares dos olhos de seus próprios deuses, cada um dos quais precisou de um solo para erguer suas sinagogas e catedrais... e eu os doei com tanta alegria!
Porque tenho um carinho especial pelas formas como resvalam em mim sem me perceber. Ninguém pode vir ao mundo sem passar por mim, ninguém pode ver a luz se não por mim. E vocês me procuram em tantos lugares incríveis, e vocês me projetam a alturas indizíveis. De alguma forma não cabe a vocês – ainda – perceber que eu possa estar abaixo da planta de seus pés e ainda assim palpitar dentro do seu peito saída diretamente de uma alga. Porque eu sou mais singela do que vocês imaginam e vos acaricio por inteiro, não importa o que vocês façam, não importa onde vocês vão, eu estarei lá, eu serei lá.
Procuram meu centro em tantos espaços, terras santas, bem aventuradas, centros do mundo. No meu centro mesmo não podem viver, e já bem o conhecem, mas podem fazer de qualquer espaço meu um centro. Não sou mais eu aqui do que lá. Mas sinceramente? Gostaria que fizessem de si mesmos centros sagrados. Porque eu vou ficar aqui, mas me dói ver vocês partindo tão cedo.

Texto por: Renato Kress

Um Dicionário Conceitual

O blog "Mito e Mente" foi criado para ser uma espécie de "dicionário ensaístico" que englobe temas concernentes aos domínios da mitologia, literatura clássica, psicologia analítica (junguiana), cultura, pensamento social, arte, símbolos, religiões e filosofia.

Aqui os verbetes não serão apenas definições, mas englobarão também pequenos ensaios críticos, análíticos e, porventura, sintéticos.

O Blog "mito e mente" está incluso no projeto Arquetelos de estudos transdisciplinares de mitologia e religiões comparadas.